Um fóssil brasileiro de 260 milhões de anos, conhecido como Rastodon procurvidens, acaba de “abrir a boca” para a ciência. Graças ao uso de tomografia computadorizada de alta resolução, pesquisadores da Universidade Federal do Pampa (Unipampa) e do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) conseguiram observar o interior do crânio e dos ossos desse enigmático dicinodonte – um grupo de animais extintos que eram parentes distantes dos mamíferos – revelando detalhes nunca antes vistos.
O estudo também contou com a participação de pesquisadores dos Estados Unidos, da North Carolina State University e da Princeton University. “O Rastodon estava literalmente com a boca fechada há mais de 250 milhões de anos. Com a micro-tomografia, conseguimos abri-la e revelar detalhes incríveis da sua história evolutiva”, destaca João Lucas da Silva, líder do estudo publicado no Zoological Journal of the Linnean Society.
Os dicinodontes foram um grupo de herbívoros muito importante durante o fim da Era Paleozoica e início da Era Mesozoica, ou seja, há mais de 250 milhões de anos. Eles apresentavam um bico desdentado e duas presas que normalmente eram voltadas para trás. Descrito pela primeira vez em 2016, o Rastodon sempre chamou atenção, não por ser pequeno, mas por apresentar presas curvas, apontadas para a frente como um par de presilhas – que o diferenciava do padrão geral de seu grupo.
Ele viveu durante o final do período Permiano, há mais de 260 milhões de anos no que é hoje a região Norte de São Gabriel, no Pampa do Rio Grande do Sul. Mas até agora, muito da anatomia de seu corpo permanecia escondida dentro da rocha que envolvia o fóssil. Com a preparação completa do material e com a ajuda da micro-tomografia, foi possível “digitalizar” o espécime e gerar modelos 3D, permitindo que os cientistas literalmente enxergassem dentro da cabeça do animal que foi fossilizado de boca fechada – ocultando detalhes do céu da boca e da mandíbula.
Assim, a pesquisa liderada pelo paleontólogo João da Silva, da Unipampa, conseguiu analisar pela primeira vez em 260 milhões de anos, como era a boca e o esqueleto do Rastodon, que está muito bem preservado, faltando-lhe a parte posterior da coluna vertebral e cintura pélvica.
Novas descobertas
A análise revelou como eram certos ossos do crânio e do restante do esqueleto pela primeira vez. O estudo também determinou que se tratava de um jovem adulto apesar de seu pequeno tamanho. Esses dados ajudaram a reposicionar o Rastodon na árvore evolutiva dos dicinodontes, mostrando que ele pertence a um grupo de dicinodontes que faziam tocas no chão. A descoberta também reforça o papel da América do Sul como um importante palco para a origem e diversificação desses animais antes do surgimento dos dinossauros.
“Os dicinodontes dominaram ecossistemas terrestres em um momento muito importante para a vida no planeta – a extinção Permo-Triássica. Momento em que os continentes se juntaram e causaram a maior extinção em massa. O tamanho pequeno de alguns dicinodontes e seus hábitos de vida, ajudam a entender porque o grupo sobreviveu a esta extinção”, explicou o professor da Unipampa, Felipe Pinheiro.
“Muito antes de os dinossauros surgirem, os dicinodontes já eram os herbívoros dominantes, e entender como esses animais viviam nos dá pistas sobre sua evolução. Com o Rastodon conseguimos fazer análises histológicas que elucidaram a microestrutura dos ossos desse animal, revelando que de fato era um animal de tamanho pequeno, que cresceria ainda muito pouco até atingir o estágio adulto”, enfatizou a paleontóloga do Museu Nacional da UFRJ, Marina Bento Soares.
“A técnica de micro-CT mostra como tecnologias modernas estão permitindo revisitar fósseis já conhecidos e extrair informações surpreendentes, sem danificá-los e nos ajudou a entender onde o Rastodon se encaixa na evolução dos dicinodontes”, assinlou o paleontólogo do Museu Nacional da UFRJ, Voltaire Paes Neto.