Em agosto, os monitores da Ufrgs tiveram uma surpresa na conta bancária: ao invés dos usuais R$ 700 mensais, receberam apenas R$ 116. A bolsa remunerada se destina a estudantes que trabalham esclarecendo dúvidas dos colegas e auxiliando o professor de determinada disciplina no andamento das atividades letivas. No total, cerca de 650 alunos trabalham como monitores, segundo levantamento do Diretório Central dos Estudantes (DCE/Ufrgs). Todos eles tiveram a bolsa descontada em agosto. Em ofício circular, a Pró-reitoria de Graduação (Prograd) da Ufrgs afirma que o desconto corresponde ao período de 5/5 a 1º/7, no qual as atividades acadêmicas da instituição estavam suspensas devido às chuvas.
Sob demanda dos estudantes, o Diretório levou a questão ao Ministério Público Federal (MPF), que, sem sucesso, emitiu recomendação à Ufrgs pedindo o pagamento integral das bolsas. Esta semana, o impasse virou ação civil pública, assinada por Enrico de Freitas, titular da Procuradoria Regional dos Direitos do Cidadão no RS. O procurador destaca que não houve, por parte da Ufrgs, suspensão de qualquer outra remuneração, e que a bolsa de monitoria possui natureza alimentar, ou seja, é necessária à subsistência dos estudantes contemplados. “É uma medida sem nexo e sem lógica. Nenhuma outra bolsa foi suspensa ou descontada, por que apenas essa?”, questiona o procurador, que lembra que o trabalho de monitoria requer, segundo regimento da Ufrgs, dedicação exclusiva, o que impede que os bolsistas recebam outros tipos de renda.
Para Jéssica Peralta, estudante de Pedagogia da Ufrgs, o desconto significou grande impacto financeiro. “Não paguei minhas contas, e só consegui o básico por causa da minha família. É uma decisão que impacta nossa permanência dentro da universidade”. Questionada pela graduanda, a Prograd declarou que é de responsabilidade de cada docente informar à Ufrgs se o bolsista de monitoria trabalhou, ou não, durante a suspensão das atividades. O prazo determinado pela instituição para os professores apresentarem resposta terminou na última sexta-feira (30/8), 15 dias depois da data em que a universidade conclui a relação de bolsistas e valores. “Se conseguirmos [os valores descontados], pode ser que só chegue em outubro”, conta Jéssica. “Nós não recebemos nenhum aviso, nem que não era para trabalhar nem que não íamos receber”, acrescenta. Questionada sobre os cortes nas bolsas de monitoria e a ação ajuizada pelo MPF, a Ufrgs não respondeu à reportagem.