Nove a cada dez docentes da Educação Básica e Superior já sofreram, presenciaram ou souberam de casos de perseguições e censura no Brasil, entre 2010 e 2024. A Região Sul apresenta mais relatos de professores terem sofrido ataque direto (64%); e menos, de nunca ter ouvido falar de caso relacionado (4%).
Este e outros dados constam em pesquisa feita pelo Observatório Nacional da Violência Contra Educadores (ONVE), da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Ministério da Educação (MEC) e divulgada neste último mês.
O levantamento “A violência contra educadores como ameaça à Educação democrática” consultou 3.012 profissionais, dos ensinos público e privado do país. Na Educação Básica, 61% disseram serem vítima direta desta violência; e no Ensino Superior, 55%.
Censura
As principais situações de perseguição relatadas envolvem temas considerados “polêmicos” por parte da população (box). Os números evidenciam picos das situações de censura em anos eleitorais, principalmente em 2018 e 2022, indicando uma relação entre o acirramento político e a repressão ao trabalho docente, com temas de mobilização política durante os ciclos eleitorais.
Entre os educadores diretamente censurados, 58% relataram tentativas de intimidação; 41%, questionamentos agressivos sobre seus métodos de trabalho; e 35% enfrentaram proibições explícitas de conteúdo. Houve, ainda, casos de demissões (6%), suspensões (2%), mudança forçada do local de trabalho (12%), remoção do cargo ou função (11%), agressões verbais e xingamentos (25%), e agressões físicas (10%).
O coordenador da pesquisa, professor Fernando Penna, da UFF, relatou à Agência Brasil que, embora tenha envolvido a possibilidade de violência física, o foco central do trabalho foram violências ligadas à limitação da liberdade de atuar. “É mais uma censura de instituições em relação aos professores. E não são só instituições.
Entre os agentes da censura estão pessoas dentro e fora da escola, além de figuras públicas”, informou. A perseguição a educadores foi relatada como extremamente impactante para 33% dos educadores, tanto na vida profissional como pessoal; e bastante impactante para 39%. Segundo Fernando, a consequência foi que grande parte dos professores que vivenciaram esses casos de violência acabaram deixando de ser educadores.