Ensino

Wrana é reconhecida como Professora Emérita da Ufrgs

Primeira reitora mulher em uma universidade federal no Brasil recebeu título na Capital

Em mesa com dirigentes mulheres, reitora Márcia homenageou Wrana
Em mesa com dirigentes mulheres, reitora Márcia homenageou Wrana Foto : Alina Souza/ CP Memória

Em sessão solene superlotada, a icônica reitora Wrana Maria Panizzi, primeira mulher a comandar uma universidade federal no Brasil, recebeu ontem (12/3) o Título de Professora Emérita. A destacada educadora esteve a frente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) entre 1996 e 2004, sendo escolhida pela comunidade acadêmica por duas gestões consecutivas.

A outorga foi proposta pela Faculdade de Arquitetura, onde Wrana atuou na docência em graduação e pós-graduação, além de integrar equipes diretivas, fazendo da Ufrgs sua rotina de vida. Em saudação a tantos colegas professores, servidores técnicos, estudantes, familiares e lideranças políticas e educacionais presentes na cerimônia na Sala dos Conselhos, no prédio da Reitoria, Wrana lembrou os tantos caminhos percorridos na Universidade. Foram salas, laboratórios, corredores ou bar local a abrigar encontros e debates que marcaram o seu trabalho norteado na defesa pela “Universidade pública, gratuita e de qualidade”, segundo ela mesma enfatiza e demarca, acrescentando que “deve ser para todos”.

“Universidade pública, gratuita e de qualidade”

norteiam trajetória acadêmica da Magnífica Emérita, que já comandou entidades de reitores, pesquisa e economia.

Ao representar a Faculdade de Arquitetura – que acolheu a professora na Ufrgs, onde atuou até pouco tempo, somando cerca de 50 anos de ação acadêmica –, Lívia Piccinini ressaltou a trajetória de Wrana, “cujas atividades transcendem fronteiras”. E assinalou forte percurso acadêmico de excelência e interdisciplinaridade”, diferenciado e combativo, em prol do Ensino.

A reitora Márcia Barbosa frisou a presença intensa e constante de Wrana na Ufrgs, em variados fóruns e espaços acadêmicos, citando, por exemplo, a participação a todas as 522 formaturas de estudantes, quando ela esteve a frente da Universidade.

Emocionada e sempre em discurso forte e propositivo, Wrana ressaltou a importância do trabalho coletivo e plural em sua construção pessoal e profissional, onde razão e sensibilidade a moldam e impulsionam até hoje.

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Confira, na íntegra a apresentação da professora, doutora Emérita Wrana Panizzi, realizada na solenidade de outorga do título pela professora e pesquisadora Lívia Piccinini, da Faculdade de Arquitetura da Ufrgs:

Em grande alegria, e com sentimentos de muita honra pela oportunidade de representar aqui a Faculdade de Arquitetura, apresento, no tempo que me coube, a trajetória da Professora Doutora Wrana Maria Panizzi, cujas atividades transcendem as fronteiras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde sua vasta experiência e liderança exemplar a credenciam ao título de Professora Emérita da instituição.

Nascida em Marcelino Ramos e criada em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, a Professora Wrana Panizzi trilhou um percurso acadêmico marcado pela excelência e pela interdisciplinaridade. Seu nome diferenciado, e que muitas vezes causa estranheza, foi criado no grupo de amigas de sua mãe, que se reuniam para discutir romances que liam em conjunto. Na época em que sua mãe engravidou, o grupo estava mergulhado na leitura de Ana Karenina. Assim, não tiveram dúvidas em prestar homenagem a Tolstói, reunindo os nomes do Conde Wronski com o de Anna Karenina.

Após uma infância tranquila de brincadeiras com o irmão e os primos, no quintal da casa, em sua uventude, a música e o teatro a fascinavam. Promoveu, como estudante, apresentações teatrais em Passo Fundo, com a presença de grupos de teatro do Rio e de São Paulo. Entre essas apresentações, destacam-se a peça “Dois Perdidos numa Noite Suja”, de Plínio Marcos, assim como atividades com o Teatro de Arena de Porto Alegre. As companhias de teatro além de apresentarem suas peças, na cidade, promoviam, entre os estudantes debates sobre a produção cultural e a condição política do país, no período.

Desde jovem, Wrana assinava o Jornal do Brasil, que chegava para os quatro assinantes, na cidade de Passo Fundo, com quase seis dias após a publicação no Rio de Janeiro. Interessava à jovem o debate político, as reformas de base e as lutas anti-imperialistas que prenunciavam um novo tempo, mas que o golpe civil-militar de 1964 jogou por terra, tornando as perspectivas de transformação, mesmo as pequenas lutas, em ações de risco.

Como presidente do Diretório Acadêmico Santo Agostinho, do Curso de Filosofia da Universidade de Passo Fundo (UPF), Wrana liderava debates. Organizou, com um grupo de estudantes, uma pesquisa sobre as transformações sócio-econômicas do Planalto Médio e do Alto Uruguai devidas à introdução da grande lavoura no estado. O trabalho, desenvolvido sob a orientação

dos professores Elly Benincá, Gervásio Neves e Raimond Pebaylle, deu origem ao Instituto de Pesquisa de Planejamento de Passo Fundo, o IPPLAN.

Com essas atividades, Wrana alimentava a esperança de que todo aquele cerceamento da liberdade chegaria logo ao fim. Wrana Panizzi desenvolvia-se teimosa, braba, voluntariosa, mas persistente e solidária, tendo participado, junto com dois colegas, do famoso congresso de Ibiuna, o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), clandestino, ocorrido em 1968, em São Paulo e que teve muitas repercussões no meio estudantil brasileiro e na cidade de Passo Fundo.

Graduada em Filosofia (1970) e Direito (1972) pela Universidade de Passo Fundo, PF, demonstrava uma amplitude de interesses associada ao rigor intelectual. Desde a sua cidade, mantinha contato com professores da UFRGS, particularmente das Faculdades de Direito e de Filosofia, convivendo de modo especial com o professor Manuel André da Rocha.

Esta busca por conhecimento a conduziu à Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde obteve o título de Mestre em Planejamento Urbano e Regional (1977), sob a orientação do professor Rocha Lagoa, da UFRJ, e em proximidade intelectual com os professores Jorge Guilherme Francisconi, Osmar Lengler, Maria Soares de Almeida, Celia Ferraz de Souza, Edson Krebs e Marilia Steinberger.

Movida por uma visão global, Wrana realizou estudos de pós-graduação na França, obtendo Especialização em Urbanisme et Amenagement (1979) e o título de Doutora de III Cycle en Urbanisme et Amenagement (1984) pela Université de Paris XII (Paris-Val-de-Marne). Nesse período, participou da coordenação do Primeiro Encontro de Pós-graduandos do Brasil na França, na cidade de Grenoble. Sua potência intelectual a levou a conquistar um segundo Doutorado em Science Sociale pela Université Paris 1, Panthéon-Sorbonne, em 1988, consolidando experiência na compreensão e no desenvolvimento de um pensamento crítico sobre a sociedade e as cidades.

Ao longo de sua carreira na UFRGS, Wrana Panizzi demonstrou comprometimento com a educação, com a pesquisa, com a extensão e com a gestão universitária. Lecionou na Faculdade de Arquitetura e no Programa de Pós-Graduação em Planejamento Urbano e Regional (PROPUR). Como pesquisadora das Ciências Sociais Aplicadas, dedicou-se ao Planejamento Urbano e Regional, campo de estudos onde possui publicações de livros e artigos, nacionais e internacionais, mas também ao debate brasileiro sobre ciência, tecnologia e inovação no contexto da educação superior. Teve significativa atuação no Encontro de Educação Superior da Unesco (1988), em Paris e, do Encontro Internacional de Ciência e Tecnologia, em Budapeste (1999). Como Coordenadora do PROPUR (1981-1983) e, posteriormente, como Pró-Reitora de

Planejamento (1992-1994) e de Administração (1992-1993) da UFRGS, confirmou sua capacidade de liderança e de visão estratégica, na educação e na gestão universitária.

Em sua trajetória nesta universidade, foi a primeira Reitora mulher, eleita pelo conjunto da comunidade acadêmica em dois mandatos consecutivos, de 1996 a 2004. Nesse período, sua presença como liderança foi reconhecida para além da UFRGS, o que a levou a exercer, entre 2003 e 2004, a presidência da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (ANDIFES).

Ainda no cenário nacional, foi Vice-Presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), de 2007 a 2011, onde atuou como pesquisadora, consultora e coordenadora do Comitê Assessor de Ciências Sociais Aplicadas. Sua participação em diversos conselhos de instituições de fomento à pesquisa e desenvolvimento, como FAPERGS, CIENTEC, FINEP, CGEE e EMBRAPA, demonstra o engajamento na defesa e no avanço da ciência e da tecnologia do país.

Como primeira mulher Presidente da Fundação de Economia e Estatística do RS (FEE) e também do SEBRAE-RS, bem como do Conselho Universitário Iberoamericano (CUIB) e do Fórum das Instituições de Ensino Superior do RS, deixou evidente seu papel de pioneirismo e vanguarda feminina, bem como seu preparo na articulação e na gestão em diferentes esferas.

A participação da Professora Wrana Panizzi na Associação de Universidades do Grupo Montevidéu (AUGM) reforça seu compromisso com a integração regional, no âmbito da educação superior, promovendo a aproximação entre as universidades Latino-Americanas.

Na Reitoria da UFRGS, merecem destaque algumas de suas iniciativas, tais como a criação do evento Portas Abertas; a Campanha para a Recuperação dos Prédios Históricos; a criação do Jornal da Universidade; o incentivo aos salões de Iniciação Científica; o apoio às atividades culturais da comunidade acadêmica e a renovação de suas infraestruturas.

O reconhecimento de suas contribuições se manifesta nos inúmeros prêmios e títulos que lhe foram conferidos, incluindo a Ordem Nacional do Mérito Científico nas classes de Comendador e Grã-Cruz; o Prêmio Direitos Humanos no Rio Grande do Sul (UNESCO); o Prêmio Pena Libertária da Educação (Sinpro/RS); o Prêmio de Mulher Cidadã, pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul, na categoria Profissionalização e Emprego (2002) e na categoria de Educação (2004); a Medalha Cidade de Porto Alegre e o título de Cidadã Emérita de Porto Alegre. Recebeu ainda, entre outras honrarias, a Medalha de Serviços Distintos do Estado do Rio Grande do Sul; o grau de Comendadora Especial, através da admissão à Ordem do Mérito Militar; a Medalha Negrinho do Pastoreio (2000); a condecoração pela Ordem do Ponche Verde,

Grau Oficial (2004), pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul e a Grande Medalha da Inconfidência, pelo Governo do Estado de Minas Gerais (2004).

A professora Wrana Maria Panizzi participou, ao longo de sua gestão na Reitoria, de um total de 522 formaturas (e foram muitas horas de fala!!) e permaneceu ativamente engajada na vida acadêmica como professora do PROPUR, até recentemente, orientando futuras gerações de profissionais na área de Planejamento e Estudos Urbanos e Regionais.

Essa trajetória exemplar é marcada pela excelência acadêmica, pela liderança visionária e pelas significativas contribuições para a nossa Universidade, para o desenvolvimento científico e para a sociedade, de maneira ampla. O recebimento do título de Professora Emérita da Universidade Federal do Rio Grande do Sul pela eterna e magnífica Professora Wrana Maria Panizzi é o reconhecimento justo e merecido de uma carreira dedicada inteiramente à educação, à pesquisa e ao serviço público, sempre em defesa da Universidade pública, gratuita e de qualidade. Nossos parabéns, homenagens e reconhecimento à professora Wrana.

O disurco da professora Wrana pode ser conferido, na íntegra, a seguir:

Razão e sensibilidade andam juntas!

Assim, a minha fala hoje aqui é marcada por essa dualidade: ora falo com a

razão, ora uso da sensibilidade. Quase sempre fui assim, e desta forma falei. Hoje, mesmo estando em um ato acadêmico revestido de solenidade, portanto formal, não posso ser diferente. Quem aqui está é uma professora. Professora que fui. Professora que sou. Como muitas vezes antes falei, uma professora quase uma vaga e, hoje, já sou uma vaga liberada para outro professor na universidade. O lugar que antes eu ocupava, já não ocupo mais!

Assim, adentro a esse Egrégio Conselho Universitário, como se voltasse a casa materna. A casa que me acolheu por mais de 50 anos e que hoje me chama para me engrandecer com o título que me faz uma Professa Emérita.

Egrégio Conselho que me recebe, recebe, portanto, conferindo-me maior homenagem que pode ser dada a um professor em sua instituição. Aqui, a Universidade Federal do Rio Grande do Sul. A UFRGS, uma instituição quase secular, na qual estou inserida por mais da metade do tempo de sua existência enquanto instituição universitária. É tempo, portanto!

Estar aqui, me deixa muito emocionada e agradecida. Já estive neste Conselho em diversas ocasiões e, ao longo dessas idas e vindas, aprendi a respeitá-lo. A primeira vez que nesse Conselho estive, neófita como membro constitutivo do mesmo, foi para assumir o cargo de Reitora desta Universidade em setembro de 1996. Eu nunca, aqui, havia estado antes!

Depois, nele permaneci presidindo-o por oito anos. E, hoje, aqui retorno para receber esta homenagem. O que me deixa feliz! Em todas as vezes em que aqui estive, sempre reiterei o meu compromisso de respeitá-lo, bem como, com os colegas Conselheiros, dialogar.

Hoje, estou aqui, pela 115 (centésima quinquagésima) vez e com seus membros, pares deste tempo presente, reafirmar esse espaço como o loci de afirmação e construção da Universidade entendida como um lugar de produção científica e de formação social.

Lugar e espaço de um saber que se faz fora do poder! Assim, hoje volto a essa casa, cheia de lembranças de uma longa trajetória que vivi junto a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo que me acolheu.

E, mesmo não sendo eu uma Arquiteta, me fez sua professora! Faculdade essa que hoje, me honra como autora e proponente dessa homenagem. Vivo e um encontro com o passado, o que me conduz a uma pequena reflexão.

Mas o que é o passado?

Hannah Arendt, filósofa alemã, reconhecida pelo seu combate ao totalitarismo, ao discutir a noção de passado, enfatiza a importância da intersubjetividade e da mundaneidade na relação entre o passado e o presente. Ela propõe que o passado não deve ser visto como um conjunto de eventos que já ocorreram, mas como um discurso que revela a coexistência e a singularidade de cada um de nós.

A noção de passado, portanto, está ligada ao modo como nomeamos e atribuímos valor a determinados eventos ao longo do tempo, enquanto parte constituinte daquilo que somos. Arendt também destaca a imprevisibilidade e a irreversibilidade do tempo, onde, o passado governaria o presente e desvelaria o futuro. Desde essa perspectiva, tem-se que o passado deve ser entendido como um discurso que revela a efetividade da mudança e da ruptura, e não, como um conjunto de eventos passados. Portanto, estou diante do aqui-e-agora, do momento do acontecimento-em-si, do verbo que se faz carne. Do real que não está na saída, nem na chegada, como nos diz Guimarães Rosa, mas na travessia, no caminho que se faz caminhando.

Caminante, no hay, caminho,

Se hace camino al andar.

Al andar se hace el camino,

Y al volver la vista atras,

Se ve la senda que nunca,

Se há de volver a pisar.

É, desde esse ponto de vista que olho para trás, para entender o que vivo hoje, ainda, que tudo o que passou, já esteja morto. Portanto, aqui estou com o olhar de hoje voltado para quando tudo começou. E, assim, minha mente não percorre apenas os corredores desta Reitoria, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, do PROPUR, do Bar do Antônio, ou, ainda, as salas de aula, os laboratórios, as salas de pesquisa, bem como os gabinetes de colegas e amigos que aqui estão, pois, durante todo o tempo que estive junto à universidade, foi nesses lugares que passei a maior parte da minha vida.

E, eu gostava muito!

Vocês, os mais de perto, sempre me ouviram dizer que aqui eu era feliz e sabia! E como eu era feliz!! Os amigos que tenho, muitos deles, conheci nesses corredores. Minha vida científica também, sempre esteve atrelada a essa Universidade, ao PROPUR e à Faculdade que atuei, lugares esses que sempre me serviram como porto seguro.

Podia sair, viajar, assumir compromissos em outros lugares, junto a outras instituições e instâncias ligadas à vida pública, como fiz várias vezes, mas, sempre tinha para onde voltar. Meu olhar sobre esse momento que agora estou a viver junto com vocês vai longe… Atravessa fronteiras, rompe marcos temporais, cria pontos e conexões entre tempos e lugares diversos.

Se eles passarão, eu passarinho, como dizia o velho morador do Hotel Majestic. Passarinho pequeno, miúdo, as vezes desajeitado e um tanto efusivo, como um pequeno colibri. Um beija flor… O único pássaro capaz de voar para trás e planar. E isso é bom, e faz a diferença.

Mas, meus caros, é hora do tempo presente, ou como diria Machado de Assis, no início do seu livro Dom Casmurro, ao referir-se à sua chegada à Casa de Mata-Cavalos… É o momento de amarrar as duas pontas da vida, pois, mesmo que eu tivesse um documento de identidade que me desse vinte anos de idade, as palavras que uso logo me entregariam, dado que o linguajar que utilizo e as lembranças que retomo somente faz sentido para os velhos que aqui estão.

Disse antes que sou uma professora!

É, pois, chegada a hora de encarar essa vocação transformadora que me acompanha desde muito tempo, desde a minha juventude! Começo me perguntando como e quando fui construindo a concepção de educação e o meu interesse em ser professora? E, ainda, como ocorreu o meu encontro com a instituição educacional, inicialmente, a Escola, e junto a ela, a Universidade? Lugares esses marcados essencialmente pelo ofício de ensinar, de aprender e de aprender ensinando.

Essas questões estão a minha frente a me interrogar… E o pequeno colibri olha para trás e aponta a direção, certamente em uma herança direta, com uma mulher alfabetizadora. Uma professora que em sua sala de aula ensinava a um grupo de meninos e meninas a partir de uma ação que ao propiciar o "manejo" de ligar letras e palavras, na leitura e na escrita, mostrava o desvelar do desconhecido e com isso introduzia aquele grupo de crianças no mundo. A lição continuava na sala de aula, onde o convívio desses alunos, uns com os outros, propiciava a saída de uma vivência individual para uma vida no coletivo.

Assim, aquela mulher não formava apenas leitores capazes de ler a palavra e de ler o mundo, mas formava cidadãos. A educação mostra que cada ser humano, além de ser um novo ser na vida, é, também, um novo ser no mundo! Nascia, assim, a convicção pedagógica que tem me acompanhado pela vida, qual seja, de que a educação é libertadora. E, assim sendo, é a expressão maior da cidadania! Esse é o papel da instituição educacional, da Universidade, que deve ser democrática e livre.

Este aprendizado que vem de longe tem suas raízes e, mesmo, sua autoria, a partir daquela singela e singular professora minha mãe, cuja lembrança se faz presente neste ato que estou a viver.

Nasci no pós-guerra, onde os direitos humanos pouco existiam. Cresci em meio à Guerra Fria, à ameaça comunista e vivi as atrocidades da Ditadura Militar. O tempo passou e com Balzac me fiz mulher (uso aqui a expressão legada por Simone de Beauvoir). E com isso me tornei uma professora. E, entendi que ensinar é uma tarefa política.

NÃO, não é de minha trajetória profissional e acadêmica, enquanto professora, pesquisadora e gestora universitária que quero falar! Pois, Vivemos em tempos de neoliberalismo. E, as suas pressões estão aí atingindo as nossas vidas no particular e nossas instituições no coletivo social. Pressões essas que vem do "escuro do nosso tempo"! E isso atinge brutalmente a universidade. É ela que sofre com a falta de recursos! A pesquisa é comprometida!

O ensino, também! A vida universitária sofre com as agruras do corte de recursos... e o seu orçamento se apequena no contexto em que prolifera o uso de emendas parlamentares.

A educação - e seu acesso a ela - vira produto de luxo, passando a ter valor de uso e troca. As universidades abrem suas portas à mercantilização geral dos saberes e das aprendizagens. E a educação é banalizada. Professores e técnicos sofrem com a sua precarização A atividade intelectual passa a ser avaliada a partir de indicadores de eficiência e eficácia. E a densidade da atividade intelectual é reduzida a categorias quantitativas desprovidas de substância humana e histórica.

Assim concebida a educação perde a faculdade que lhe é peculiar, ou seja, de iniciar os novos (os estudantes) em um mundo comum e público, de heranças simbólicas e de realizações materiais.

O mundo que é a nossa casa comum, é a casa de todos. Não existe Planeta B! Esta casa, a qual nos cabe cuidar e preservar as suas raízes e sua natureza de bem público. Mas, como sempre eles tentam calar a Universidade! Seus nomes não aparecem, mas sabemos quem são! Ela não se cala! E continua o seu fazer cotidiano de origem, produzindo conhecimento, formando profissionais qualificados, pesquisando e mantendo a sua relação extensiva ao território em que está inserida.

Sua dimensão enquanto bem público social se expressa ativamente, como podemos de forma rápida, aqui lembrar:

1) O papel que a Universidade Pública teve durante a pandemia de Covid- 19, mobilizando estudantes, professores, técnicos e toda sua estrutura e o seu saber ao atendimento da população através de seus hospitais universitários e da produção de insumos como álcool gel e máscaras. Ao mesmo tempo em que acolhiam, via seus serviços sociais, aqueles que de diferentes formas foram atingidos pela brutalidade deste ataque a saúde e a vida.

2) A maior "catástrofe climática" dos últimos 80 anos que atingiu o Rio Grande do Sul, onde, afetando mais de dois milhões de gaúchos e 471 munícipios. Momento em que, a universidade também se fez presente de diversas maneiras, seja, fornecendo dados, seja auxiliando na elaboração de estratégias de contenção e redução de danos.

E ainda é bom lembrar um fato recente que o Brasil inteiro festeja o trabalho de pesquisa da cientista brasileira Tatiana Coelho de Sampaio, mulher, professora e pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Laboratório de Biologia da Matriz Extracelular. Tatiana, ganhou destaque mundial pela criação da polilaminina, um biofármaco inovador que demonstrou potencial para regenerar tecidos nervosos e reverter lesões na medula espinhal. Pesquisa essa que poderá, em alguns anos, ajudar a muitos a também hacer el camino al caminar...

É ISSO QUE A UNIVERSIDADE FAZ.

ESSA É NOSSA UNIVERSIDADE PÚBLICA!

Universidade que eu diria ser uma das últimas astúcias da história porque um dos últimos refúgios de liberdade. Universidade essa que merece o apoio da sociedade e o respeito dos

governos! E, aí reside a importância de lutar por ela e defendê-la! Assim, como vimos, a universidade pública tem reagido a essas políticas e as críticas ideológicas...

E como sempre...

Tem sido: GRANDE e ALTIVA.

E, agora, volto aos meus afetos e, como o colibri, plano para trás… Sou, fui e nunca deixarei de ser uma professora que por aqui passou... mas não passei por aqui sozinha, pois estive sempre compartilhar o meu dia-a-dia e as minhas experiências de vida com muitos daqueles que aqui estão. Por isso, hoje divido com vocês esse reconhecimento e essa homenagem. Homenagem que não é só minha! É nossa! E, lembro que só cheguei aqui por causa de vocês.

VOCÊS ME FIZERAM CHEGAR ATÉ AQUI!

Meus colegas professores, meus colegas técnico-administrativos, meus queridos estudantes, meus caros e caríssimos amigos, a todos o meu abraço e o meu reconhecimento.

MAS, EU NÃO POSSO AINDA IR EMBORA...

Sem antes dizer o que tantas vezes aqui repeti:

VIVA A UNIVERSIDADE PÚBLICA, GRATUITA E DE QUALIDADE!

Agora sim, eu posso sair!