“Desabilitei o áudio dos microfones, eu errei”, afirma testemunha do Caso Kiss

“Desabilitei o áudio dos microfones, eu errei”, afirma testemunha do Caso Kiss

Venâncio da Silva Anschau era técnico de som e operador de áudio da banda Gurizada Fandangueira

Henrique Massaro

Venâncio da Silva Anschau era técnico de som e operador de áudio da banda Gurizada Fandangueira

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O ex-operador de áudio e técnico de som Venâncio da Silva Anschau, de 40 anos, primeiro depoente ouvido no júri do Caso Kiss nesta terça-feira, disse que, no momento do início do incêndio que terminou com a morte de 242 pessoas, desabilitou o áudio dos microfones da banda Gurizada Fandangueira, o que teria impedido a comunicação dos músicos com o público. A testemunha, arrolada pela defesa do vocalista Marcelo de Jesus dos Santos, relatou que não visualizou as chamas no teto da boate e que viu apenas uma pessoa subindo no palco, sem identificar que ela tinha em mãos um extintor de incêndio. Acreditando ser uma invasão por parte da plateia, Anschau fechou o som dos microfones.

“Quando o rapaz sobre no palco, eu não tenho a dimensão, não imagino o que esteja acontecendo e eu desabilito o áudio dos microfones. Eu desabilitei. Errei, errei, mas desabilitei o áudio”, disse a testemunha, chorando. A testemunha, que se emocionou diversas vezes, narrou que estava programando um efeito sonoro para a próxima música, de cabeça baixa, olhando para os equipamentos, quando percebeu que a banda parou de tocar. Após revisar os aparelhos e não perceber nada de anormal, olhou para o palco e viu os músicos olhado para cima, gesticulando com garrafas d’água, até que o homem em questão subiu no palco.

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“Quando essa pessoa sobe no palco, ela tem um extintor, e eu fecho o áudio da banda porque eu não sabia o que estava acontecendo, não tinha visão do que tava acontecendo. Eles manuseiam o extintor para cima e eu mal percebo uma circunferência de fogo, um princípio de incêndio, pequeno, questão de menos de um palmo”, relatou. O ex-técnico de som ainda disse que observou que as pessoas em cima do palco não conseguem combater as chamas utilizando o extintor. Foi quando chamou um colega e decidiu sair de onde estavam, no intuito de retornar depois que o fogo fosse controlado, o que nunca aconteceu.

Anschau, atualmente agente legislativo da Câmara de Santa Maria, disse que trabalhava eventualmente com a banda desde 1999, mas que passou a prestar serviços exclusivos para o grupo a partir de 2010. Segundo ele, era comum o uso de artefatos pirotécnicos. Disse que, pelo que se recorda, shows assim ocorreram, inclusive, na Kiss. A testemunha ainda afirmou que não se considera vítima da tragédia. “Não entendo da tentativa de homicídio dos quatro réus para comigo.”

Apesar disso, Anschau contou que precisou ficar cinco dias internado no hospital por causa da exposição à fumaça, e que acabou perdendo o nascimento da filha. Relatou ainda que chegou a ter contato com algumas famílias de vítimas, mas que em outras ocasiões não teve coragem. Chegou a procurar atendimento psicológico em um mutirão no Hospital Universitário de Santa Maria, mas acabou deixando o local quando foi identificado por uma pessoa como integrante da banda.


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