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"Não vou decepcionar os gaúchos", diz Papagaio

Presidiário Cláudio Adriano Ribeiro foi contratado pela Cerâmica Vogel

Não vou decepcionar os gaúchos, diz Papagaio
Não vou decepcionar os gaúchos, diz Papagaio Foto : Paulo Nunes
O ex-assaltante de bancos e carros-fortes Cláudio Adriano Ribeiro, o Papagaio, de 43 anos, tranquilizou a sociedade em entrevista na tarde desta quarta-feira, quando sua contratação para a exportadora de telhas Vogel, de Bom Princípio, foi concretizada. Adriano, como prefere ser chamado, cumpre pena em regime semiaberto no Albergue de Montenegro e pretende, com esta oportunidade, se livrar do estigma de criminoso fujão.

“Não vou decepcionar os gaúchos. Não vou decepcionar o Judiciário. Não vou decepcionar o empresário Cláudio Vogel, meu futuro patrão”, prometeu Adriano que, no ato, usava terno risca de giz.

Em sua ficha criminal constam pelo menos cinco fugas de estabelecimentos penais do Rio Grande do Sul. Ele foi o único a conseguir escapar da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas. A intenção de Vogel é que, no máximo em 15 dias, Adriano possa iniciar as atividades profissionais em sua empresa, como assessor do Departamento de Assistência Social, sob supervisão da técnica em Segurança do Trabalho Nair Ledur.

"Anjo da guarda"

Adriano definiu Vogel como um “anjo da guarda”. Adriano afirmou que os ex-presidiários devem lutar para reconquistar as oportunidades desperdiçadas. "Vou aproveitar esta oportunidade para progredir e também para servir de exemplo a outros detentos”, disse.

Além dos seis detentos que atuam na unidade de Bom Princípio, um ex-presidiário foi efetivado em 18 de agosto, sete dias depois de ser beneficiado com a liberdade condicional.

“Trabalhei em regime especial por cinco meses e hoje sou funcionário, com carteira assinada. O empresário Cláudio Vogel é mais do que um patrão. Eu lhe devo muito”, disse o ex-detento Valmir da Rocha, 25, que foi condenado a cumprir dois anos de reclusão em regime semiaberto por furtos praticados para sustentar o vício do crack.

“Fiquei somente nove meses preso. Tempo suficiente para descobrir que não é esta a vida que desejo para o meu futuro”, comentou. Ontem Rocha conheceu Adriano pessoalmente e fez uma importante declaração: “Fugir do Albergue de Montenegro é muito fácil. Se ele não fugiu é porque realmente decidiu mudar de vida”. A assistente social da Susepe, Rosane Lazzarotto, elogiou a atitude do empresário. “Não temos prisão perpétua e nem pena de morte no Brasil. A ressocialização é o caminho e a sociedade precisa compreender”, enfatizou.

Segundo o diretor do Albergue de Montenegro, Leandro Luis Schmitt, dos 79 albergados sob seu controle, 50 exercem atividade remunerada.

Projeto


Cláudio Vogel contou que, há pelo menos 20 anos, planejava incluir mão de obra prisional entre os colaboradores de sua empresa.  “Cumprir pena de reclusão é desumano. Os detentos querem se redimir, ter uma vida nova. Infelizmente, o empresariado não proporciona a eles uma chance”, lamentou.

Vogel afirmou que tem admiração por Adriano há bastante tempo. “Sempre acompanhei com tristeza, por meio da imprensa, a vida de Adriano, sem conseguir encontrar uma explicação que justificasse um homem tão inteligente, como ele, ter tomado o rumo errado”, frisou. O empresário acredita e aposta que Adriano está recuperado e em plenas condições de ser reinserido ao convívio social.

“Nasci de novo em 22 de dezembro de 2008, aos 54 anos, quando me submeti a um transplante hepático em Medellín, na Colômbia, depois de ser condenado à morte no Brasil”, observou o empresário. Com este renascimento, Vogel decidiu completar sua felicidade estendendo a mão para egressos do sistema penitenciário. O desejo amadurecido por duas décadas foi fortalecido depois que conheceu um juiz colombiano, de 70 anos, - também portador de Hepatite C e transplantado -, jurado de morte pelo narcotraficante Pablo Escobar. “Mesmo acuado por um criminoso, ele procura ajudar quem deseja ser ajudado, mesmo que seja um ex-detento”, comentou.

Os 13 primeiros detentos foram contratados em março, via Protocolo de Ação Conjunta (PAC) estabelecido com a Susepe. Desses, restam seis. A meta é contratar outros 14 para a unidade de Bom Princípio e outros 80 para a unidade, ainda em construção, em São Sebastião do Caí. Os apenados recebem salário fixo e prêmio assiduidade de R$ 200. O projeto de ressocialização mantido pela empresa começou em janeiro, com a preparação dos demais funcionários para receberem os novos colegas.

Adriano também vai auxiliar na seleção de presos que vão atuar na empresa e também em palestras ao grupo contratado. O salário a ser pago a ele ainda não foi definido, assim como a contratação, que aguarda aval do Judiciário. Vogel assinalou que o custo de um apenado é 25% inferior ao de um outro empregado. A remuneração é repassada à Susepe, que encaminha o benefício ao preso. Vogel lamenta a inexistência de legislação no país que incentive os empresários a contratarem egressos. “Quando eles saem em liberdade, o contratante precisa pagar os encargos que não são cobrados pelo governo enquanto estão na prisão”, argumenta.

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