A expressão “plantas alimentícias não convencionais” parece estranha no primeiro momento. Comemos, afinal de contas, uma infinidade de verduras e legumes e não pensamos se são convencionais ou não. Entretanto, se prestarmos mais atenção, as Pancs, abreviatura pela qual são mais conhecidas, nos levam a um mundo de flores e folhas que muitos de nós ainda não têm o costume de colocar no prato. Ainda assim, elas se popularizam mais do que se imagina, tanto que já são vendidas regularmente nas feiras ecológicas de Porto Alegre, em lojas e em restaurantes.
São alimentos diferentes daqueles ao qual estamos habituados: alface, couve, repolho etc. Estão pelo chão porque, em alguns casos, nem precisariam ser cultivadas e acabam sendo classificadas como “mato”. Entretanto, há produtores hoje investindo nessas folhas e flores. Diante de uma polêmica que vem se estabelecendo nas últimas décadas sobre a produção de alimentos não ser suficiente para saciar a população mundial, vegetais mais alternativos vão ganhando espaço na mesa, quase sempre vindos da agricultura familiar e orgânica.
Segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) são conhecidas apenas 4% das 250 mil a 300 mil espécies de plantas comestíveis. Deste percentual, somente 150 a 200 são utilizadas pela espécie humana e apenas três - arroz, milho e trigo - contribuem com aproximadamente 60% das calorias e proteínas obtidas das plantas por seres humanos. A entidade também aponta, em estudo de 1999, que 75% da diversidade genética de plantas foi perdida desde os anos 1900 quando os agricultores mundiais abandonaram as suas múltiplas variedades locais e “raças da terra” por variedades geneticamente uniformes de alto rendimento.
A restrição do plantio a algumas qualidades facilita o trabalho e a colocação de produtos para venda em escala macro. Pequenos agricultores, no entanto, normalmente atuam distantes dessa lógica, plantam de tudo e em menores quantidades. E trabalham bastante.
Em 1991, foram estimadas 75 mil espécies de Pancs conhecidas no mundo, número apurado pelos ambientalistas Kenton Miller e Laura Tangley, autores do livro “Trees of Life: Saving Tropical Forests and Their Biological Wealth”. Mesmo sendo grande o número de espécies apurado em um catálogo com quase 30 anos, as chamadas Pancs são muitas vezes consideradas “pragas” e acabam sendo descartadas. No comércio tradicional e nos grandes supermercados não é fácil encontrar esses produtos. Feiras de orgânicos e lojas especializadas são os locais mais certos para comprá-las. Exemplos de Pancs há muitos. O livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc), guia de identificação, aspectos nutricionais e receitas ilustradas”, de Valdely Kinupp e Harri Lorenzi, cataloga 351 espécies com fotos.
Plantas comestíveis não convencionais ganham cada vez mais espaço na gastronomia
Alimentos diferentes daqueles aos quais estamos habituados abrem o leque de opções nutritivas