Quarto dia de julgamento da Kiss expõe luta de sobreviventes para deixar casa noturna

Quarto dia de julgamento da Kiss expõe luta de sobreviventes para deixar casa noturna

Testemunha de defesa revelou que uso de artefato já tinha sido vetado uma vez na boate

Paulo Tavares e Christian Bueller

Quarto dia de julgamento da Kiss expõe luta de sobreviventes para deixar casa noturna

publicidade

O quarto dia de julgamento do caso da Boate Kiss, tragédia ocorrida em 2013 em Santa Maria e que terminou com a morte de 242 pessoas, ocorreu neste sábado com o depoimento de três pessoas. A exemplo das sessões anteriores, a de hoje teve depoimentos contundentes e carregados de emoção, principalmente quando os depoentes Maike Adriel dos Santos e Cristiane dos Santos assumiram a palavra em frente ao juiz Orlando Faccini Neto. A luta para sair da casa noturna foi exposta nas duas manifestações, enquanto a testemunha de defesa Alexandre Marques recordou que o uso de artefato de fogo já havia sido vetado uma vez no local. 

O sábado no julgamento da Boate Kiss começou com a testemunha de defesa Alexandre Marques sendo questionado diante do júri. Pouco depois das 9h, Marques, arrolado pelos representantes de Elissandro Spohr, iniciou um depoimento que duraria cinco horas. 

À época da tragédia, Marques era produtor de uma banda chamada Multiplay, que já atuou dentro da Kiss. Nos shows do grupo, segundo informou, eram usados artefatos, como sputnik e chuva de prata. Ele explicou como eram feitos  testes para o uso de pirotecnia, o que era levado em conta. "O teste era feito durante a passagem de som, levando em conta o pé direito do imóvel", disse a testemunha. Ele também informou onde comprava o produto de pirotecnia."Como sei o que preciso, chego no local e peço o determinado produto. No caso de show externo é um tipo de artefato, interno é outro", afirmou, ressaltando que na banda que ele produzia era ele quem mexia com os artefatos, os músicos nunca se envolveram com os elementos pirotécnicos. Os artefatos eram usados, segundo a testemunha, para dar "mais glamour aos shows".

Alexandre disse que, na época (antes de 2013), não era costume informar ao estabelecimento em que alguma banda faria show se usaria artefatos. "Quando eu chegava em um lugar onde a banda faria show, eu inspecionava o local e, se não fosse seguro, eu não colocava o artefato. Tinha que pensar na segurança dos músicos e do público". Alexandre recordou que um vez, antes da reforma da boate Kiss, em um show que a banda Multiplay foi fazer um show na casa, ele pediu para colocar um banner no palco e tinha começado a instalar o artefato sputnik quando um funcionário da Kiss disse que ele teria que pedir a Elissandro. "Pedi ao Kiko (Elissandro) e ele me respondeu que era melhor não usar o banner nem o sputnik. Ele me falou 'bah, velho, não. Já coloquei uma cortina no palco, deixei bonitinho para vocês'". Alexandre recordou que a banda Multiplay fez mais um show, desta vez após a reforma na boate, mas não cogitou usar elementos pirotécnicos.

Desmaio e resgate 

A segunda pessoa a falar em frente ao júri foi o sobrevivente Maike Adriel dos Santos. Com 29 anos, ele contou ao juiz Orlando Faccini Neto como conseguiu sair da casa noturna em meio ao incêndio. Recordou ainda que desmaiou no meio do caminho. 

"Eu olhei pra cima e vi uma fumaça que confundi com gelo seco", mas achou que estava longe do palco pra ser isso. Então ouviu um "sai, sai, sai" e "é fogo!", contou. Ele afirmou que tentou sair do local com os amigos, mas o deslocamento no interior da boate era lento, por causa da aglomeração. Lembrou que passou a sentir a fumaça e que parecia estar respirando fogo. Foi o momento que perdeu a visão por causa da fumaça. "Creio que desmaiei e alguém posteriormente me tirou. Teve um momento que apaguei". Quando recuperou os sentidos, estava fora da Kiss.

O incêndio da Kiss provocou sequelas em Santos, que logo depois do ocorrido precisou ficar em coma induzido por uma semana. Além disso, adquiriu problemas de memória e nos pulmões, depois de inalar a fumaça tóxica. Santos teve inúmeras queimaduras, inclusive nos dedos. "Senti, literalmente, na pele. Mas muita gente colocou a culpa em nós, que estávamos lá dentro da Kiss", lamentou.

Santos contou ainda que memorizou o trajeto de entrada, o que beneficiou a saída da boate. "Mas em algum momento, fiquei sem referência alguma. Caminhava devagar pela aglomeração. Uma sinalização facilitaria, com certeza".

Amigos perdidos 

O dia de depoimentos foi encerrado com a sobrevivente Cristiane dos Santos, de 34 anos. Ela perdeu 15 amigos na tragédia de Santa Maria. Em relato ao juiz Faccini Neto, contou os momentos que antecederam o incêndio e disse que conseguiu sair porque conhecia a boate Kiss. 

"Começou a lotar muito rápido. Fomos para perto do palco. Depois de ir ao banheiro, começou um movimento, achamos que era briga. Quando vi, havia um rapaz com um extintor na mão, no palco", disse Cristiane. Ao juiz, Cristiane disse não ter ouvido nenhum aviso de que havia um incêndio. "Eu mesma avisei sobre a existência do fogo a uma funcionária, que acabou morrendo também", explicou. "Muita gente morreu sem saber o que estava acontecendo", acrescentou Cristiane.

Sem visão e enfrentando o calor do fogo, Cristiane disse que a fumaça se deslocou rapidamente, enquanto ela e outras pessoas precisavam caminhar devagar. "A fumaça chegou primeiro que eu na frente da boate, parecia fogo de panela. Fechei boca e olhos, botei a mão na parede e fui. O que me salvou foi encontrar a mesa que ficava ao lado da saída. Então, caí em cima do capô de um táxi", conta a vítima.  

Cristiane recordou que observou os artefatos presos no palco antes do show da banda Gurizada Fandangueira. "Se o dono não sabia (que haveria fogos), alguém sabia. Já estavam presos (preparados) no palco antes do show", afirma a depoente. 

Domingo 

A nova sessão do julgamento do caso da boate Kiss irá recomeçar às 10h deste domingo. Serão ouvidos  Thiago Mutti, testemunha do réu Mauro Hoffmann, e Delvani Brondani Rosso, vítima e assistenta da acusação. 

Até o momento, do total de 29 oitivas (16 testemunhas, 12 vítimas e um informante), 13 já foram ouvidas. Faltam 16 (12 testemunhas e 4 vítimas).

Veja Também


Mais Lidas


Correio do Povo
DESDE 1º DE OUTUBRO 1895