O braço, onde Gabriela afirma ter sido segurada pelo segurança, ficou roxo. A estudante acredita que o homem queria que ela mostrasse a comanda, provando que tinha pago a conta. "O irônico de tudo isso é que eu só bebi uma água mineral. Ele não pediu explicitamente a comanda, mas tenho certeza de que era isso que ele queria", declarou.
Gabriela disse que foi pega pelo segurança pouco antes de chegar à porta da boate. A estudante lembra que estava próxima à saída. Um pouco mais atrás estava o namorado Luiz Eduardo Viegas Flores, de 24 anos, oficial escrevente do foro de Três Passos – um dos 235 mortos na tragédia.
A jovem contou que a fumaça começou de repente, gerando correria e pânico. Com as chamas já altas, Gabriela correu e se perdeu do namorado."Corri muito e consegui passar por uma abertura mínima, que separava o salão da porta de saída. Até agora, não sei como consegui fazer isso", relatou.
Na rua, Gabriela não encontrou mais o namorado. Mais tarde ficou sabendo que ele havia morrido. Com lágrimas nos olhos, lembrou que o namoro já durava dois anos e que o casal fazia planos de ficar noivo. "Ele era tão branquinho, mas muito bonito. Não sei o que vou fazer agora, os planos que tínhamos acabaram de uma hora para outra", lamentou.
Acompanhada pelo pai, o policial militar aposentado Wanderlei Oliveira Borba, Gabriela se emocionou ao lembrar dos momentos de terror pelos quais passou na boate.
O incêndio na boate Kiss começou por volta das 2h30min de domingo. Cerca de 1,5 mil pessoas estariam no local, a maioria participando de uma festa organizada por estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Segundo testemunhas, o fogo teria começado quando um dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira lançou um sinalizador. O comandante do Corpo de Bombeiros, Coronel Guido Pedroso de Melo, afirmou que o objeto teria enconstado na forração de isopor.
As pessoas não teriam percebido o fogo de imediato, mas assim que o incêndio se espalhou, a correria teve início. Testemunhas relataram que, a princípio, parecia uma briga e os seguranças fizeram um cordão de bloqueio. Mas, quando viram que era um incêndio, liberaram a passagem.
Conforme relatos, os extintores posicionados na frente do palco não funcionaram e a pessoas tiveram que recorrer a equipamentos que ficavam mais distantes. Em pânico, muitos não conseguiram encontrar a única porta de saída do local e correram para os banheiros. Aqueles que conseguiram fugir em direção à saída, ficaram presos nos corrimões, usados para organizar as filas. A boate foi tomada por uma fumaça preta e as pessoas não conseguiam enxergar nada.
De acordo com o Corpo de Bombeiros, a maioria morreu asfixiada dentro dos banheiros ou na parte dos fundos da boate. Os próprios socorristas passaram mal em razão da fuligem. Muita gente que conseguiu escapar voltou para ajudar os outros.