Há duas semanas, o padre prestou depoimento à Polícia Civil depois de um pedido da Associação de Familiares de Vitimas e Sobreviventes da Tragédia de Santa Maria (AVTSM). No livro, o autor teria relatado que dois ou três jovens foram transportados vivos no caminhão frigorífico para serem identificados. Trevisan escreveu: “No auge da balada celestial, o Pai perguntou se alguém queria voltar. Dois ou três disseram que sim e foram encontrados vivos no caminhão frigorífico que transportava os corpos ao Ginásio de Esportes.”
Na ocasião, Trevisan disse que a frase foi uma "alegoria". O delegado de polícia Sandro Minerz, que coordena a segunda etapa do inquérito policial para esclarecer os responsáveis pela tragédia, afirmou que o padre não cometeu crime com o texto. O escritor retirou do livro o trecho e uma segunda ediçãoda obra foi lançada sem o relato.
A Polícia Civil de Santa Maria também analisa um texto publicado no jornal "A Razão", de autoria da jornalista e escritora Celina Fleig Mayer. No dia 17 de abril, ela publicou uma defesa do livro e conta que ouviu relatos semelhantes aos descritos pelo padre na obra. A jornalista disse qter ouvido falar em pessoas vivas amontoadas no caminhão e questiona "se havia algum médico no local para atestar a morte".
A tragédia
O incêndio na boate Kiss – que fica na Rua dos Andradas, Centro de Santa Maria – começou por volta das 2h30min da madrugada de 27 de janeiro. O público participava de uma festa organizada por estudantes da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). A tragédia deixou 241 pessoas mortas.
Segundo testemunhas, o fogo teria começado quando um dos integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que acabara de subir ao palco, lançou um sinalizador. O objeto teria encostado na forração da casa noturna. As pessoas não teriam percebido o fogo de imediato, mas assim que o incêndio se espalhou, a correria teve início. Conforme relatos, os extintores posicionados na frente do palco não funcionaram.
Em pânico, muitos não conseguiram encontrar a única porta de saída do local e correram para os banheiros. Aqueles que conseguiram fugir em direção à saída, ficaram presos nos corrimãos usados para organizar as filas. A boate foi tomada por uma fumaça preta e as pessoas não conseguiam enxergar nada. A maioria morreu asfixiada dentro dos banheiros ou na parte dos fundos da boate.