Francisco José Barbero Liébana, 32 anos, trabalhava em Madri e estava viajando à Andaluzia para passar alguns dias com seus pais. Mas a tragédia acabou com os planos e ele se tornou uma das 69 vítimas do acidente ferroviário de Urda.
"Estamos destruídos", descreve seu tio Cecilio, na saída do centro para familiares instalado em Toledo, capital da região de Castilla-La Mancha, no centro da Espanha. Ele foi até o local com sua irmã Marisa, tia de Francisco José, que não consegue conter as lágrimas por trás de seus óculos escuros.
Desde que dois trens de alta velocidade colidiram na manhã de quarta-feira (28), na altura do município de Urda, esta família passou longas horas sem notícias de Francisco José, como tantas outras. O balanço da tragédia chega, até o momento, a 69 mortos.
As autoridades receberam cerca de 70 denúncias de desaparecimento, sem que se saiba quantas dessas pessoas correspondem aos corpos encontrados, que os legistas tentam identificar. Neste edifício do bispado de Toledo, os agentes da Guarda Civil confirmaram à família de Francisco José a notícia que tanto temiam há dois dias.
"O desfecho foi muito duro e muito triste", suspira Marisa, que afirma sentir "muita impotência". "Estava no auge da vida", diz sobre o sobrinho. Sua irmã, mãe do jovem, está devastada: "Está com psicólogos, em tratamento e está muito mal", explica Marisa, que se junta ao irmão para pedir que "isso nunca mais volte a acontecer".
Muito difícil
A tragédia ferroviária de Urda é a pior nas ferrovias espanholas desde 2013 e a segunda em menos de um ano após a de Adamuz, na qual morreram 46 pessoas em janeiro. Dois dias depois deste último acidente, as famílias das vítimas - das quais apenas 12 foram formalmente identificadas até agora - estão tomadas pela dor e pelo desamparo.
Javier Barrio perdeu a esposa, Carmen de Santana, que fazia sua última viagem de trabalho a Sevilha antes da aposentadoria. Ele ainda não recebeu a confirmação oficial nem certidão de óbito, mas admite que as "possibilidades" de encontrá-la com vida são "ínfimas".
Barrio conta que não parou "de chorar" desde o ocorrido e sente raiva do "capitalismo apressado". "Temos que mudar este mundo, temos que mudá-lo todos juntos", pede.
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Outras famílias, com o rosto marcado pela dor, o olhar perdido e cheio de lágrimas, preferem permanecer em silêncio, abatidas por essa tragédia que voltou a comover a Espanha. Ricardo, amigo da família de uma das vítimas, resume o sofrimento que estão enfrentando. "Os pais, três dias esperando para saber onde está o filho, e agora ele está dentro de um saco. É muito difícil", afirma.
Medo
Desde quarta-feira, familiares acumulam noites em claro e horas intermináveis à espera de qualquer ligação das autoridades, que trabalham contra o tempo em um contexto político especialmente delicado a um mês das eleições gerais antecipadas de 29 de novembro.
Para Esther San Emeterio, que continua sem notícias de seu irmão Pepe, a espera é insuportável. "Essa angústia em que estamos vivendo, eu acho que já está passando para outro limite", denuncia.
"Ontem à noite fui dormir muito frustrada, indignada, envergonhada porque ninguém nos conta nada", acrescenta.
Além da dor, este segundo acidente ferroviário em apenas nove meses também levanta inúmeras questões, ressalta Cecilio. "Quem é que pegaria um trem agora? Você já vai com medo", diz, lembrando também a tragédia de Adamuz, ocorrida em 18 de janeiro.
Para ele, essa nova catástrofe nas vias espanholas deve servir de choque de realidade. "Em nove meses muitas vidas foram perdidas, e acho que isso deveria fazer com que todos refletissem. Cada um na sociedade, os políticos, sobre por que isso acontece em pleno século XXI", considera.