A entrada de ajuda humanitária na Venezuela se transformou no novo foco do conflito de crise que afeta o afeta o país. O governo de Nicolás Maduro ordenou o fechamento da fronteira com o Brasil na quinta-feira e estremeceu as historicamente complicadas relações com a Colômbia ao ameaçar fazer o mesmo com os limites territorias entre as duas nações. Este tenso capítulo começou com o pedido de Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino e líder da Assembleia Nacional, de que os países que apoiam a saída do bolivariano do poder enviassem ajuda humanitária.
Nos primeiros dias de fevereiro, os Estados Unidos enviaram um carregamento de ajuda humanitária para a Venezuela, mas Maduro se recusou a permitir a entrada dos mantimentos que ficaram retidos na fronteira com a Colômbia. No final de semana, uma nova carga norte-americana chegou à cidade colombiana de Cúcuta. Na quinta, uma caravana de deputados, liderada por Guaidó, se dirigiu até a fronteira para liberar a entrada da ajuda humanitária. Ele possui uma ordem de restrição e não pode sair do território venezuelano, então não se sabe como ele fará para receber a ajuda.
A forma como os mantimentos chegarão na Venezuela é desconhecida. Guaidó apenas informou que será por ar e por terra. Porém a fronteira marítima com o Caribe está fechada por ordem de Maduro desde o início da semana. A imprensa local especula que a oposição possa usar rotas alternativas ou ilegais para transportar a ajuda humanitária. Para tentar garantir o apoio da população, o presidente anunciou que comprou 7,5 toneladas de medicamentos e insumos médico "pagos com o dinheiro da República para o benefício do povo". Ele defende que o país não é mendigo para receber "comida podre" dos outros.
Caravana e voluntários
Além da caravana de políticos opositores, centenas de cidadãos também estão viajando para a região de fronteira para atuar como voluntários no transporte dos mantimentos enviados. A extensão da crise é tão grande que até mesmo a população está dividida. Parte deseja a entrada da ajuda humanitária, enquanto outros venezuelanos têm medo da chegada de militares estrangeiros no país. Um ônibus com integrantes da Assembleia Nacional foi atacado com pedras, atiradas, afirmam os deputados que estavam no coletivo, por membros do Exército Nacional, leal a Maduro.
O governo brasileiro, que reconhece a legitimidade de Guaidó, anunciou a criação de uma força-tarefa de ajuda humanitária para os venezuelanos. Um avião da Força Aérea Brasileira (FAB) saiu de Brasília na manhã desta sexta-feira em direção a Roraima. Segundo informações da FAB, a aeronave está carregada com 23 toneladas de leite em pó e 500 kits de primeiros socorros. O pouso será feito em Boa Vista e depois os itens serão transportados até a cidade de Pacaraima, cidade que fica no Norte de Roraima e que faz fronteira com a Venezuela.
Disputa de shows
A oposição liderada por Guaidó planeja transformar o recebimento da ajuda humanitária em um símbolo de sua força, transformando-a em um grande evento. Para isso, conta com a realização de um grande show na cidade de Cúcuta, no lado colombiano da fronteira. O Venezuela Live Aid está sendo organizado pelo milionário britânico Richard Branson, que pretende arrecadar US$ 100 milhões (cerca de R$ 376 milhões). No dia do show em Cúcuta, os presidentes do Chile, Sebastián Piñera, e do Paraguai, Mario Abdo Benítez, estarão na cidade junto com seu homólogo colombiano, Iván Duque.
A organização da apresentação oposicionista espera receber 250 mil pessoas. Artistas como Alejandro Sanz, Miguel Bosé, Luis Fonsi, Paulina Rubio, Maluma, Carlos Vives, Juanes e a banda mexicana Maná já foram confirmados. Segundo a Associação Hoteleira e Turística da Colômbia (Cotelco) todos os principais hotéis da cidade de Cúcuta estão sem vagas. Porém a ideia não agradou Maduro, que já afirmou que irá fazer de todo o possível para que o show não aconteça, além de anunciar a realização de seu próprio show, na Venezuela.
O cantor venezuelano Carlos Baute é um dos confirmados no Venezuela Aid Live | Foto: Raul Arboleda / AFP / CP
Risco de conflitos
Maduro alega que a entrada da ajuda humanitária no país pode favorecer uma “invasão estrangeira”, e a insegurança do presidente é tanta que ele reforçou o número de militares na fronteira com o Brasil e com a Colômbia. O Exército venezuelano já está de prontidão na área da fronteira. O acúmulo de pessoas em função dos grandes shows aumenta ainda mais o perigo de que, em caso de confrontos, haja vítimas. sso faz com que a região da fronteira possa se transformar em um olho de furacão nos próximos dias.