Cinco meses após assumir o governo do Nepal como desdobramento da revolta juvenil que derrubou KP Sharma Oli em 2025, o primeiro-ministro Balendra Shah enfrenta agora uma nova emergência. O país, que ainda lida com as consequências da turbulência política que levou uma nova geração ao poder, registra mais de 300 mortes após uma devastadora avalanche no norte do território.
A crise política
A instabilidade que marcou o Nepal começou em setembro de 2025, quando manifestações lideradas por jovens da Geração Z tomaram as ruas. Os protestos foram desencadeados pela proibição de plataformas de redes sociais e logo se ampliaram para denúncias de corrupção, desigualdade e falta de oportunidades para os jovens.
Ao menos 77 pessoas morreram e mais de mil ficaram feridas nos dois dias de confronto, segundo balanço divulgado pela AFP. A violência se espalhou por Katmandu, capital do Nepal, onde manifestantes incendiaram o Parlamento e as dependências do governo, além de atacarem residências de políticos. Diante da pressão, o então primeiro-ministro KP Sharma Oli renunciou em 9 de setembro.
O levante abriu caminho para um governo interino liderado por Sushila Karki, ex-presidente da Suprema Corte e primeira mulher a chefiar o Executivo nepalês. Ela assumiu a missão de restaurar a ordem e garantir a realização das eleições legislativas, que ocorreram em 5 de março deste ano e deram maioria absoluta ao Partido Nacional Independente (RSP). O partido conquistou 182 das 275 cadeiras da Câmara dos Representantes e levou ao poder um nome que até então habitava a periferia da política nepalesa.
Conhecido como “Balen”, Shah tem 36 anos e chegou ao cargo apresentando-se como representante de uma nova geração. Formado em Engenharia Civil, ganhou notoriedade na cena hip-hop underground do país ao denunciar a corrupção das elites e as desigualdades. Sua popularidade se espalhou em 2022, quando venceu, para surpresa geral, a eleição para prefeito da capital nepalesa.
A identificação com Shah passa também pela imagem. Os óculos escuros retangulares e o blazer preto o acompanham desde a campanha municipal, e ele raramente aparece sem eles, seja em comícios, em atos oficiais ou no retrato oficial feito após a posse. Lojas nepalesas passaram a vender imitações dos "óculos Balen" a clientes que querem adotar o estilo do primeiro-ministro.
O acessório chegou a render um episódio institucional. Neste mês, o presidente do Parlamento, Dol Prasad Aryal, desaconselhou o uso no plenário sob o argumento de que parte da população considera a prática inadequada. Shah obteve exceção. Ananta Prasad Koirala, porta-voz adjunto da secretaria do Parlamento, disse à AFP no dia 25 que a casa recebeu um atestado com justificativa médica, o que autoriza o uso em situações de luminosidade intensa.
Shah tomou posse em 27 de março, e no dia seguinte a polícia prendeu Oli e o ex-ministro do Interior Ramesh Lekhak por suposto envolvimento na repressão aos protestos, conforme informou à AFP o porta-voz da polícia do Vale de Katmandu, Om Adhikari.
Um relatório respaldado pelo governo nepalês sobre o levante recomendou o indiciamento de Oli, de 74 anos, e de outros funcionários. "Ninguém está acima da lei [...] Isto não é uma vingança contra ninguém, apenas o começo da justiça. Acredito que o país tomará agora um novo rumo", publicou no Instagram o recém-nomeado ministro do Interior, Sudan Gurung, que foi figura-chave nos protestos.
Depois de manter silêncio desde as eleições, Shah reapareceu nas redes sociais na véspera da posse com um vídeo em que faz um apelo à unidade por meio de uma música. "Nepaleses unidos, a história está em marcha", cantava, sobre imagens da campanha eleitoral.
Tragédia
Agora, o mesmo canal serve a outro propósito. Em publicação nas redes, Shah comunicou a resposta oficial à enxurrada de quarta-feira, 26. Dirigindo-se aos nepaleses como pais, irmãs e irmãos, o primeiro-ministro afirmou que o Estado mobilizou todo o seu aparato e pediu “paciência e serenidade” a quem ainda aguarda socorro.
Ele também detalhou os resgates em andamento. Os voos recomeçaram às 6h30, com prioridade para feridos graves, idosos, mulheres e crianças. O Exército retirou 116 pessoas de Timure, no distrito de Rasuwa, entre elas 95 nepaleses e 21 indianos, além de outras sete resgatadas de um túnel.
O comunicado listou ainda o que o governo tenta levar às áreas isoladas: geradores, torres móveis portáteis, material médico, barracas e máquinas de corte. Shah prometeu instalar redes provisórias de telefonia e pontos de recarga de celular para restabelecer o contato entre famílias e informou que um abrigo temporário já funciona em Nuwakot. “Com esperança e confiança, precisamos enfrentar este desastre unidos”, escreveu.
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O que provocou o desastre
Enquanto o resgate avança, as causas seguem sob investigação. A principal hipótese é o desabamento de uma geleira nas montanhas do Nepal, perto do Tibete chinês. "Um grande pedaço de geleira se desprendeu a cerca de 5.200 metros e caiu em um vale", explicou Simon Cox, do instituto neozelandês GNS Science.
A massa avassaladora de detritos arrastou rochas, sedimentos, árvores e tudo o que estava em seu caminho, lançando os elementos a grande velocidade pelo desfiladeiro. A parede de água atingiu primeiro um posto fronteiriço, segundo imagens de uma câmera de segurança.
Imagens mostram uma massa de lama soterrando a área enquanto as pessoas fogem diante de seu avanço. Depois, a inundação seguiu rio abaixo em direção ao Nepal, destruindo povoados, derrubando pontes e edifícios.