O apagão que teve início nessa segunda-feira em Portugal e Espanha afetou grandemente a rotina dos moradores. Hoje a energia elétrica já foi restabelecida em grande parte do território dos dois países.
"Após uma noite intensa, foi possível restabelecer 99,95% da demanda energética", escreveu na rede social X na manhã desta terça o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que agradeceu a "responsabilidade e civismo" da população durante o inédito corte de energia. Em Portugal, a rede elétrica estava "perfeitamente estabilizada", anunciou o operador REN.
Em menor magnitude, o apagão também afetou França e Itália. Em contato com a reportagem do Correio do Povo, dois gaúchos que estão na Europa relataram como foram afetados pelo problema.
O jornalista e analista de dados, Marco Aurélio Ruas, estava em Lisboa, em Portugal, quando o apagão teve início por volta das 11h locais. De começo, ele não estava entendendo a situação, permanecendo trabalhando na empresa enquanto a bateria do notebook ainda funcionava.
Ele foi liberado por volta das 14h, pois a empresa estava com receio de que os funcionários fossem para casa perto de anoitecer, levando em consideração questões de segurança. "Logo na saída do trabalho já percebi um contingente bem anormal de pessoas circulando pela rua", diz.
Lisboa também teve problemas com o transporte público de bondes e metrô, pois eles dependem da energia elétrica. O jornalista mora no outro lado do rio Tejo e precisava pegar um barco para atravessar. "O barco ainda estava disponível, mas com um fluxo gigantesco de pessoas ", afirma.
Água no mercado chegou a acabar
Ao chegar em casa, Ruas foi ao mercado e se deparou com um cenário de caos. "No mercado estava extremamente caótico. Quando cheguei já tinha acabado a água. Me concentrei em pegar mantimentos que não dependiam de cozinhar porque o gás e o fogão de casa são elétricos", destaca.
A luz voltou por volta das 22h na casa do jornalista. "Quando voltou parecia que Portugal tinha ganhado a Copa", conta. "No final das contas foi tranquilo e acho que as pessoas tiveram uma reação meio exagerada no mercado", acrescenta.
"Até em guerra falaram"
A publicitária gaúcha, Mariana Fonseca Vieira, estava em Madri, na Espanha, quando notou os efeitos do apagão às 12h30min locais. "A internet ficou um pouco ainda, mas em seguida perdemos todo o sinal. Saímos de casa e vimos todo mundo na rua feito barata tonta, falando que foi em muitos países, até de guerra falaram", enfatiza.
Assim como o jornalista que mora em Portugal, a publicitária também não podia cozinhar nada por conta dos eletrodomésticos dependerem de energia elétrica. "Na cidade, todos os semáforos estavam apagados, o metrô estava sendo evacuado, trens parados, aeroporto fechado, nenhuma ideia de nada. Soube da mãe de uma amiga que ficou três horas presa no elevador, uma senhora de 80 anos", diz.
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De acordo com o relato da publicitária, parte das pessoas também não conseguia entrar ou sair de casa quando a chave era elétrica. "O governo propôs que todas as casas tivessem um pack de emergência com água, lanterna, comida e um rádio. No fim do dia estava uma velhinha sentada no banco da rua com o rádio bem alto e umas dez pessoas na volta ouvindo pra tentar se atualizar?", conta. Na faixa das 22h a luz já tinha voltado na casa de Vieira, mas a internet ainda estava instável.
Qual é a origem possível?
Por enquanto, várias hipóteses foram levantadas, entre elas a de um ciberataque. Nesta terça-feira, a justiça espanhola anunciou ter aberto uma investigação para determinar se o apagão "pôde ter sido um ato de sabotagem informática", tornando-o suscetível de ser um "crime de terrorismo".
"Com as análises que conseguimos realizar até este momento, podemos descartar um incidente de cibersegurança", afirmou, nesta terça, Eduardo Prieto, diretor do REE, destacando que não foi detectado "nenhum tipo de intrusão nos sistemas de controle".
As redes sociais amplificaram um boato de um falso comunicado atribuído ao gestor da rede portuguesa REN, que supostamente fazia referência a um "raro fenômeno atmosférico" como origem do apagão. Esta possibilidade também foi descartada.
"Durante o dia de 28 de abril não foi detectado na Espanha nenhum fenômeno meteorológico ou atmosférico incomum", afirmou a Agência Estatal de Meteorologia espanhola (Aemet).
Para tentar esclarecer a origem do corte, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, anunciou a criação de uma comissão investigadora e pediu aos cidadãos para não caírem em especulações.
"Não (se pode) descartar nenhuma hipótese até que tenhamos os resultados destas análises", reiterou nesta terça. Uma mensagem de prudência similar à de Eduardo Prieto. "Estamos pendentes de receber ainda informação de alguns agentes do setor (...), que nos permita ter toda a informação, uma foto completa dos dados e, portanto, depurar as análises.
*Com informações do editor Luiz Felipe Mello