A relação entre Estados Unidos e Venezuela se deteriorou rapidamente com a mobilização de militares americanos para o Caribe. O presidente Donald Trump enviou milhares de soldados, navios de guerra e aviões espiões para a região, citando o combate ao narcotráfico como justificativa. O cenário evoca a invasão do Panamá em 1989, a última intervenção direta dos EUA na América Latina. No entanto, analistas apontam que, apesar das semelhanças, uma nova operação como a de 1989 é improvável.
Por que uma nova invasão é improvável?
Poder de mobilização da Venezuela: A Venezuela conta com uma Milícia Bolivariana capaz de mobilizar milhares de pessoas, o que tornaria um ataque direto uma operação de alto risco. O diretor de pesquisa do Instituto Igarapé, Robert Muggah, aponta que o país, embora enfraquecido economicamente, não é um alvo fácil.
Extensão territorial e contexto político: A grande extensão territorial da Venezuela e o atual contexto político da América Latina, que se tornou menos dependente de Washington desde a década de 1980, dificultam uma intervenção.
Estratégia dos EUA: A mobilização dos EUA é vista por analistas como uma "diplomacia coercitiva". Em vez de uma invasão direta, o objetivo seria aumentar a pressão sobre o regime de Nicolás Maduro.
A política histórica dos EUA na América Latina
Doutrina Monroe: A ação de Trump se alinha à Doutrina Monroe, uma política de longa data dos EUA para manter sua influência na região e afastar potências estrangeiras. No século 20, essa política foi marcada por intervenções contra governos não alinhados, muitas vezes resultando em golpes de Estado e ditaduras.
Ascensão de governos de esquerda: A chegada de governos de esquerda, como o de Hugo Chávez na Venezuela em 1998, mudou a dinâmica política da região. Chávez, que sofreu uma tentativa de golpe em 2002, criou a Milícia Bolivariana para se preparar para uma possível intervenção americana. Essa desconfiança se espalhou, levando países como a Nicarágua a buscar laços militares com a Rússia.
Foco no narcotráfico: Mesmo com a ascensão de governos de esquerda e o aumento da influência da China, os EUA mantiveram sua presença na América Latina através de operações antidrogas. Essa estratégia permitiu a Washington manter uma estrutura militar e de inteligência na região.
Acelerando a crise
Apesar das justificativas de combate às drogas, analistas como Muggah questionam a real intenção da Casa Branca. A Venezuela, segundo o Escritório da ONU sobre Drogas e Crime, é responsável por apenas cerca de 7% das remessas de cocaína para os EUA, enquanto outros países como Equador e Colômbia têm um papel logístico maior sem sofrer a mesma pressão.
Para os analistas, Trump tem pressa em mostrar resultados a seus eleitores e interesse em uma mudança de regime na Venezuela. O centro de estudos Crisis Group acrescenta que a mobilização também poderia pressionar a economia venezuelana e afetar o comércio de petróleo com a China.