O que começou como uma mobilização de estudantes do ensino médio contra a falta de professores e as condições precárias das escolas na França se transformou, em pouco mais de um mês, em uma onda de protestos que agora atravessa a Europa. A repressão policial ampliou a revolta e levou trabalhadores, sindicatos e famílias às ruas para protestar também contra o aumento do custo de vida, os baixos salários e a deterioração dos serviços públicos.
As manifestações francesas integram um cenário mais amplo de mobilizações na Europa, que inclui protestos estudantis na Bélgica e atos na Itália e na Albânia. Na Espanha e em Portugal, milhares de pessoas também foram às ruas contra a dificuldade de encontrar moradia a preços acessíveis.
Embora tenham origens e exigências diferentes, os movimentos compartilham uma insatisfação geral com as condições de vida, a qualidade dos serviços públicos e a falta de perspectivas para o futuro, especialmente entre os mais jovens. Entenda mais a seguir:
Como começaram os protestos na França?
A mobilização francesa começou em setembro, em uma escola de ensino médio de Créteil, na região de Paris, onde estudantes se manifestaram em apoio aos professores em greve. Desde então, alunos, em sua maioria entre 15 e 18 anos, passaram a bloquear centenas de escolas para protestar contra a falta de professores, a carga horária excessiva e os prédios deteriorados.
Em poucas semanas, o movimento ganhou dimensão nacional. No dia 6 de outubro, cerca de 256 mil pessoas participaram de manifestações em todo o país, segundo o Ministério do Interior francês. Àquela altura, quase 900 escolas já haviam sido afetadas por bloqueios, enquanto o número acumulado de detenções ultrapassava 5 mil, a maioria de menores de idade, 87% delas de menores de idade
A atuação das forças de segurança passou então ao centro dos protestos. Estudantes e organizações de direitos humanos denunciaram uso excessivo da força, incluindo gás lacrimogêneo e granadas. Em Lens, no norte do país, um adolescente de 15 anos perdeu uma mão após a explosão de uma granada durante um ato em 5 de outubro. Outros jovens relataram ferimentos graves em confrontos com policiais.
A gravidade dos episódios levou o governo francês a suspender, em 7 de outubro, o uso de bombas de efeito moral durante as manifestações estudantis, enquanto as circunstâncias do caso de Lens são investigadas.
No entanto, a repressão ampliou as críticas ao governo do presidente Emmanuel Macron e atraiu o apoio de professores, sindicatos e outros setores da sociedade. Aos poucos, as reivindicações deixaram de se concentrar apenas na educação e passaram a incluir salários, inflação e a qualidade dos serviços públicos.
A escalada no último fim de semana
A tensão chegou a um novo patamar neste sábado, 17, quando uma manifestação nacional contra o custo de vida terminou em saques e confrontos que se repetiram no domingo, 18. Cerca de 550 mil pessoas participaram dos atos em todo o país, segundo o governo francês, citado pela AFP. Os organizadores estimaram 800 mil participantes.
Parte das manifestações ocorreu de forma pacífica, mas grupos de pessoas mascaradas entraram em confronto com policiais, incendiaram veículos e saquearam estabelecimentos comerciais. Em Limoges, manifestantes atearam fogo à prefeitura. Em Marselha, depredaram a sede do governo municipal. A vice-prefeita de Paris, Lamia El Aaraje, disse nunca ter visto tamanho nível de violência na cidade.
Os atos de sábado terminaram com 1,8 mil detidos, 855 deles em Paris, segundo as autoridades. As ruas da capital amanheceram cobertas de restos carbonizados de barricadas erguidas pelos manifestantes com bicicletas, lixeiras e outros materiais. Ao menos 1,5 mil estabelecimentos comerciais foram danificados, segundo a Federação de Comércio e Distribuição.
Nesta segunda-feira, 19, Macron admitiu “falhas” na gestão policial, um dia depois de pedir firmeza em pronunciamento na TV. As autoridades francesas anunciaram toques de recolher nas noites desta segunda e terça-feira em Lille, Douai, Wattignies e Denain, no norte do país. Os moradores dessas cidades não poderão circular pelas ruas entre 20h e 6h (15h e 1h no horário de Brasília), por decisão do prefeito local, informou o gabinete do primeiro-ministro, Sébastien Lecornu. São as primeiras restrições do tipo desde que Lecornu defendeu a medida após os saques do fim de semana.
Mesmo diante do reforço das medidas de segurança, os protestos continuaram. Também nesta segunda-feira, estudantes bloquearam o acesso ao Museu do Louvre, em Paris, em apoio ao movimento do ensino médio e contra a repressão policial.
Como os protestos ganharam força em outros países?
A mobilização francesa teve acolhimento na Bélgica, onde estudantes da comunidade francófona também passaram a protestar contra problemas na educação. Entre as reivindicações estão os cortes orçamentários, o aumento das mensalidades do ensino superior, o custo do transporte público e a superlotação das salas de aula.
O primeiro-ministro belga, Bart De Wever, pretende implementar cortes que podem chegar a 10 bilhões de euros nos próximos anos, na tentativa de reduzir o déficit público. As medidas provocaram resistência de estudantes, sindicatos e trabalhadores.
Em 9 de outubro, cerca de 30 mil pessoas participaram de uma jornada nacional de mobilização em Bruxelas, segundo a polícia. A greve afetou escolas, transportes públicos e o tráfego aéreo. O protesto terminou em confrontos entre grupos de jovens e as forças de segurança, que utilizaram gás lacrimogêneo e jatos de água para dispersar manifestantes.
Na Itália, a alta do custo de vida, os baixos salários e a deterioração dos serviços públicos levaram milhares de pessoas às ruas de Milão, Turim e Bolonha. Os atos também reúnem críticas ao governo da primeira-ministra Giorgia Meloni.
Em Milão, mais de 5 mil pessoas participaram de um protesto convocado pelo movimento Itália na Praça, segundo informações da Agência Estado. O ato começou de forma pacífica, mas terminou em confrontos quando grupos encapuzados lançaram pedras, garrafas e fogos de artifício contra policiais.
“O que aconteceu aqui é o que estamos vendo em muitas cidades do mundo”, declarou o prefeito de Milão, Giuseppe Sala. “Estou muito preocupado porque se trata de um fenômeno novo, que também tem origem em um contexto internacional e se alimenta dele”.
No domingo, 18, houve saques e depredações nos arredores da Praça do Duomo, uma das principais áreas turísticas da cidade. Bolonha e Turim registraram cenas semelhantes. Segundo a agência italiana ANSA, dezenas de pessoas foram detidas, incluindo menores de idade. Meloni condenou os ataques e convocou uma reunião de segurança.
Na Albânia, os estudantes também assumiram o protagonismo, mas com foco no ensino superior. De acordo com a CNN, na terça-feira, 13, jovens lançaram tijolos e blocos de concreto contra o Ministério da Educação, em Tirana, durante um protesto nacional. A polícia respondeu com gás lacrimogêneo e jatos de água.
Os manifestantes reivindicam melhores condições nas universidades, redução dos custos dos estudos, mais apoio financeiro e oportunidades de emprego após a formatura. Os atos também expressam insatisfação com a desigualdade social e o governo, somando-se a protestos que já ocorriam no país por outras razões.
E o que acontece na Espanha e em Portugal?
Embora também tenham forte participação de jovens, os protestos na Espanha e em Portugal seguem outra dinâmica. Nos dois países, a crise habitacional é o principal motor das mobilizações.
Em 3 de outubro, dezenas de milhares de pessoas foram às ruas de Madri e de outras 50 cidades espanholas para reivindicar o direito à moradia. Na capital, cerca de 70 mil participaram dos atos, segundo a representação do governo. Os organizadores estimaram 500 mil.
Um dos episódios que impulsionaram a mobilização foi o despejo de Maricarmen Abascal, de 87 anos, do apartamento onde vivia havia sete décadas, em Madri. Uma empresa imobiliária comprou o imóvel e tentou aumentar o aluguel em 275%. O episódio virou símbolo da crise habitacional espanhola, marcada pela alta dos aluguéis e pela dificuldade de acesso à moradia, sobretudo entre os jovens.
Parte dos manifestantes montou um acampamento na Praça do Sol, no centro da capital, para pressionar por medidas de controle dos aluguéis e ampliação do acesso à habitação.
Já em Portugal, milhares de pessoas protestaram contra o preço da moradia, os baixos salários e o custo de vida. Em Lisboa, após uma passeata, centenas de manifestantes, em sua maioria jovens, montaram barracas na Praça do Rossio, no centro da cidade. A ocupação ampliou uma mobilização iniciada anteriormente no Porto.
Entre 2015 e 2024, os preços dos imóveis no país subiram 124%, o dobro da média europeia, segundo dados oficiais. A alta pesa sobretudo sobre os jovens, que enfrentam dificuldades para sair da casa dos pais ou encontrar imóveis compatíveis com seus salários.
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O que os protestos têm em comum?
Apesar das diferenças entre os países, os protestos revelam um descontentamento que vai além de uma única reivindicação. Longe de formar um movimento único e organizado em escala europeia, os atos têm lideranças, pautas e contextos políticos próprios, ainda que algumas mobilizações influenciem umas às outras.
Os jovens aparecem como protagonistas de boa parte dos protestos, mas não estão sozinhos. Trabalhadores, sindicatos, professores e famílias também participam das manifestações, que expõem dificuldades enfrentadas por diferentes parcelas da população para estudar, trabalhar e construir uma vida independente.
Além da Europa, países da Ásia e da África também registraram grandes mobilizações nas últimas semanas. Na Índia, forças de segurança detiveram milhares de pessoas em Nova Délhi, em 10 de outubro, durante um protesto contra a revisão das listas eleitorais que, segundo críticos, exclui minorias e eleitores vulneráveis.
Na Tunísia, milhares de pessoas foram às ruas no sábado, 17, contra a piora das condições econômicas e as restrições às liberdades políticas no governo de Kais Saied, segundo o jornal Folha de S. Paulo.
*Com informações da AFP