A vitória contundente do Partido Democrata nas eleições de meio de mandato de terça-feira (3) sobre o Partido Republicano entrega o controle do Congresso à esquerda dos Estados Unidos, o que representa um freio considerável para Donald Trump nos dois anos que lhe restam de mandato.
A partir do momento em que os novos representantes eleitos prestarem juramento em janeiro, os democratas poderão definir a agenda legislativa, influenciar o orçamento federal e abrir investigações parlamentares sobre o presidente republicano e seus aliados. Apesar da derrota nas urnas, Trump conservará ampla margem de manobra em vários temas.
Confira uma lista das principais consequências do novo equilíbrio de poderes em Washington:
Desmantelamento do legado de Trump
O líder democrata na Câmara dos Representantes, Hakeem Jeffries, advertiu antes das eleições que, se o partido recuperasse o controle da instância legislativa, estabeleceria como prioridade a luta contra o custo de vida elevado. Para isso, Jeffries quer "lutar para reverter os cortes no Medicaid", um programa de seguro de saúde para americanos de baixa renda que foi reduzido por uma lei emblemática de Trump em 2025.
O líder democrata também afirmou que deseja fazer todo o possível para acabar com a guerra contra o Irã, "que provocou a disparada dos preços dos combustíveis para os americanos", ao mesmo tempo que reafirmou a prerrogativa constitucional do Congresso, único órgão habilitado a declarar guerra. Outra prioridade é acabar com as tarifas impostas por Trump sem a aprovação do Congresso. O programa será colocado em prática nas primeiras 100 horas de sua maioria, no início de janeiro, garantiu Jeffries.
Investigações legislativas
Após dois anos acusando Trump, seu governo e os aliados de corrupção em uma escala sem precedentes na história do país, uma das prioridades da nova maioria democrata também será abrir investigações para examinar estes casos. "Vamos exigir a prestação de contas daqueles que infligiram uma corrupção sem precedentes a este país", disse na terça-feira Jeffries, o favorito para assumir a presidência da Câmara dos Representantes.
"Liguem para os seus advogados", advertiu na rede social X o representante democrata Robert García, que pode assumir o comando de uma importante comissão de inquérito. As investigações conduzidas por comissões legislativas podem resultar em convocações de comparecimento e, em última instância, a processos de impeachment, que podem culminar em uma destituição. Mas estes teriam poucas chances de sucesso, devido à maioria de dois terços exigida no Senado.
"A vida vai ficar bastante desagradável para os membros mais polêmicos do governo Trump, como o secretário de Defesa, Pete Hegseth; o de Segurança Interna, Markwayne Mullin, e o secretário do Tesouro, Scott Bessent", opinou Ross Baker, professor de Ciência Política na Universidade Rutgers. No entanto, após dois processos de impeachment contra Trump durante seu primeiro mandato, os líderes democratas parecem relutantes em iniciar uma terceira tentativa, que poderia mobilizar sua base partidária.
Nomeações em suspenso
Uma particularidade dos Estados Unidos é que as nomeações para os cargos cruciais do governo, assim como as de juízes federais, devem ser aprovadas pelo Senado. A reconquista da maioria na Câmara Alta permite aos democratas, portanto, bloquear as indicações de Trump para estas posições importantes.
A maioria pode se revelar ainda mais decisiva em caso de renúncia ou morte de um juiz da Suprema Corte. A margem de manobra do presidente republicano para escolher um sucessor ficaria então amplamente limitada.
Limite
Apesar da mudança na correlação de forças no Congresso, Trump preserva importantes ferramentas de poder. Ele poderá usar seu poder de veto para bloquear qualquer lei aprovada pelas duas câmaras. O mecanismo só poderá ser superado com uma votação que obtenha maioria de dois terços nas duas casas legislativas, algo de que os democratas estão muito longe, apesar de sua vitória.
O presidente republicano conserva, além disso, várias prerrogativas do Poder Executivo, em particular sua política migratória, que é alvo de fortes críticas. Assim como tem feito desde o início de seu segundo mandato, ele deve continuar governando por meio de decretos.