A prisão do presidente Nicolás Maduro e o ataque dos Estados Unidos à Venezuela é um capítulo importante para muitos que saíram do país de origem e vieram reconstruir sua vida longe de casa. Nas palavras da refugiada Lisbeth Del Valle García Olivares, que mora há quase três anos em Esteio, na região metropolitana, os últimos acontecimentos são motivo de celebração, mas também de preocupação. O presidente venezuelano e a esposa Cilia Flores foram capturados neste sábado, dia 3, e explosões atingiram a capital Caracas.
“A captura de Maduro representa a liberdade do povo venezuelano, mas a partir disso também representa um luto para nós. Por todas essas perdas de pessoas inocentes que perderam sua vida”, disse Lisbeth, que pertence à Casa dos Imigrantes e Refugiados do RS, ONG que oferece acolhimento e suporte para imigrantes e refugiados no Rio Grande do Sul.
A principal preocupação é relacionada aos ataques que atingiram a população. O ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino López, afirmou que os bombardeios, ocorridos em várias regiões do país, incluindo a capital Caracas, atingiram populações civis.
“Uma bomba não vai saber se tu és uma pessoa boa, ou uma pessoa ruim. É liberdade, mas também é um luto para nós’, ela diz.
A refugiada afirmou que está buscando contato com seus familiares, que moram em Caracas, onde ocorreu o ataque. “Não estou conseguindo me comunicar com eles, porque cortaram a comunicação de muitos lugares”, afirma.
Em conversas com outros venezuelanos, Lisbeth afirmou que a maioria está comemorando a prisão do presidente venezuelano. “Tem pessoas que falaram para mim: ‘agora a gente vai fazer festa, chegou a liberdade para os venezuelanos, agora a Venezuela vai ser um país livre de novo’. Eu falei: mas tu estás sabendo a magnitude do do assunto?”, diz. “Eu sei o que é sair de um país sem nenhuma roupa posta. Só penso na quantidade de pessoas que estão sendo afetadas diretamente”, completa. Para ela, o momento é de felicidade pela expectativa de melhoria da situação humanitária do país após passar pelo regime bolivariano. Porém, é uma situação com lados bons e ruins.
Lisbeth morava em Guayana, cidade mais povoada do estado Bolívar, e saiu de casa com seu marido, Reneil Javier Moreno Pérez, e seus quatro filhos pequenos em 4 de fevereiro de 2023. Chegou ao Brasil em 31 de março, em busca de condições melhores, assim como muitos venezuelanos que viveram a onda de migração, intensificada desde 2018. Hoje, mora em Esteio, na região Metropolitana e trabalha como pedreira. Após, a família do seu marido também chegou ao Brasil para morar na mesma cidade.
Para ela, ainda é difícil lembrar por que saiu de seu país de origem. “Foi por ver as minhas crianças passando muita fome. A gente conseguia para comer um dia um quilo de arroz. Não estou falando de frango, carne, só arroz. Arroz puro. Eu não aguentava mais a situação”, lembra. “Também, não ter uma boa educação para as crianças, não ter hospitais com boa atenção para eles”.
Para Gregoria Rodriguez, moradora de Esteio, a prisão de Maduro foi recebida como "uma ótima notícia", principalmente por conta da situação política e econômica do país após o início da sua gestão. "Estou aguardando ele sair do governo, porque foi eleito em 2013, mas acabou com a economia da Venezuela em menos de 1 ano", afirma. "A gente sonhou esse momento por tanto tempo, e a gente nunca imaginou que isso ia acontecer na verdade", diz. Em contato com parentes e conhecidos do local bombardeado, os relatos são de tensão. "Estão colocando militares nas ruas, e a maioria dos comércio estão fechando", relata.
Em 2018, ela saiu de San Félix, seção oriental da cidade de Guayana, e chegou a morar em Manaus e Roraima. Desde 2020, mora no Rio Grande do Sul. "Eu saí porque estava estudando, fazendo faculdade, mas o dinheiro não dava mais. Eu trabalhava, me parei porque o dinheiro não valia nada. A gente não tinha economia, tu não achavas nada nos mercados. Eu estava vendo minha vida passar. Na Venezuela a gente não tem futuro", disse.
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Apesar das dificuldades, principalmente por conta do idioma e para conseguir boas condições de trabalho, Lisbeth afirma que, no Brasil, conseguiu ser acolhida e construir uma vida. “A gente sempre pensa em voltar para nosso país. Mas eu falo para meu marido, passamos por muita coisa. Temos as crianças, e nós temos que pensar mais nelas”, diz.
“Eu sinto saudade, fiquei em depressão porque estou sem minha família, sem minha mãe, meus irmãos, meu pai. Falei, agora a gente não pode pensar em nós. A gente tem que pensar neles, em uma boa educação para eles, que consigam se formar, que consigam um emprego”, completa.
A refugiada acredita que daqui para frente a situação na Venezuela pode mudar. “Antes que começasse a ditadura de Maduro, havia um monte de empregos. O dinheiro dava para você comer, comprar roupa para os filhos, sair. Mas depois a gente não conseguiu o dinheiro nem para comer”, diz. “Ainda quero voltar, mas falo para a minha mãe que estou aqui para dar melhoria para meus filhos. Porque o que a gente passou lá, eu não quero que eles voltem a passar”, conclui.