Ganswein, de 56 anos, considerado por alguns como a eminência parda do sumo pontífice, era a única testemunha citada com nome e sobrenome nos documentos processuais. O mordomo Paolo Gabriele, de 46 anos, comparece ante três juízes laicos, a princípio junto a seu cúmplice, o técnico em informática Claudio Sciarpelletti, mas, a pedido de um dos advogados, os magistrados aceitaram separar os processos dos dois réus.
O processo é aberto à imprensa, um fato inédito na história do Estado Pontifício, conhecido por seus segredos. A duração do julgamento, que acontece quatro meses depois de sua prisão, é incerta, mas por ele vão passar diferentes testemunhas que devem contar sua versão sobre este o caso.
A investigação confirmou que o mordomo não agiu sozinho. Além do técnico em informática, a identidade de seus possíveis cúmplices são ocultadas. "Gabriele já admitiu sua culpa. Portanto, acho que será condenado. Mas pelo quê? Ninguém sabe. Ninguém sabe também se no final receberá a absolvição do Papa, o que é possível", diz um jornalista do Vaticano. "Este julgamento começa muito rápido", ressaltou, "o que indica provavelmente uma vontade do papa, e também do cardeal Tarcisio Bertone (secretário de Estado e número dois da Santa Sé), de encerrar esta história o quanto antes", acredita.
O escândalo do vazamento de documentos do papa e da Santa Sé, conhecido como "Vatileak", veio à tona no início deste ano, quando uma televisão italiana revelou cartas enviadas a Bento XVI pelo núncio nos Estados Unidos, o arcebispo Carlo Maria Viganó, nas quais ele denunciava a "corrupção, prevaricação e má gestão" na administração do Vaticano. Em 19 de maio foi publicado um livro com uma centena de novos documentos secretos do Vaticano que revelam supostas tramas e intrigas no pequeno Estado, e no dia 24 de maio Gabriele foi detido. Após 53 dias, ele foi colocado em prisão domiciliar.
A hipótese mais comum sobre a origem dos vazamentos é que se trata de uma rebelião contra a falta de transparência e gestão do cardeal Bertone (uma espécie de chefe de Governo do papa), com o objetivo, até agora frustrado, de provocar sua demissão. Para os céticos, o julgamento do mordomo seria uma forma de sufocar o caso processando um homem provavelmente culpado, mas manipulado. Outros pensam que este julgamento é apenas o início de uma operação verdadeiramente transparente, que teria recebido a autorização de Bento XVI.