O ataque que causou a morte de uma criança e deixou outros três feridos em Estação, no Norte gaúcho, nesta terça-feira, 8, traz à discussão a crescente dos casos de violência em escolas do País. Este já é o segundo registrado no Rio Grande do Sul neste ano. Buscando prevenir agressões e evitar que novos episódios terminem em tragédia, o Ministério Público do Rio Grande do Sul criou, em outubro de 2024, o Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve).
Desde então, a atuação do MPRS tem se mostrado decisiva: 107 atentados foram investigados, dos quais 37 foram evitados, graças à ação conjunta entre promotores, rede de ensino e órgãos de proteção social. Em um desses casos, um adolescente do Interior do Estado havia planejado um ato violento e estava sendo monitorado. A partir da articulação entre Ministério Público, escola, conselho tutelar e serviços de assistência, a família foi incluída em acompanhamento psicológico e social — o que impediu que a situação evoluísse para um ato extremo.
Segundo o procurador de Justiça Fábio Costa Pereira, coordenador do Nupve, os autores desses ataques costumam apresentar perfil semelhante: idades entre 10 e 26 anos, vínculos sociais frágeis, histórico de violência doméstica e bullying, além de exposição a conteúdos extremistas na internet e, em alguns casos, acesso não supervisionado a armas.
“Não existe uma fórmula pronta, mas é preciso atenção ao comportamento desses jovens — como o afastamento da família, a defesa de valores extremistas, o preconceito, o racismo e a intolerância. Se ele faz ameaças, isso deve ser entendido como um pedido de socorro”
Fábio Costa Pereira – procurador
Projeto Sinais: rede de proteção e monitoramento
Um dos eixos mais importantes do trabalho do Núcleo é o Projeto Sinais, criado para identificar precocemente comportamentos de risco e oferecer apoio antes que a violência se concretize. O projeto articula uma rede de monitoramento socioeducacional formada por escolas, conselhos tutelares, órgãos de segurança, profissionais de saúde mental e instituições de assistência social, todos com apoio técnico e jurídico do MPRS.
Na prática, o Projeto Sinais promove capacitações e protocolos de observação que ajudam educadores e profissionais da rede pública a reconhecer sinais de alerta — como isolamento, discurso de ódio ou postagens violentas — e acionar a rede de apoio de forma coordenada.
“O Projeto Sinais cria canais permanentes de comunicação entre a sociedade civil e o poder público, fortalecendo a prevenção e evitando que nossos jovens se radicalizem. O objetivo é tornar os ambientes escolares e comunitários mais seguros”, explica o procurador Fábio Costa Pereira.
O Nupve também atua orientando famílias e capacitando profissionais dos conselhos tutelares, da assistência social e da segurança pública para lidar com situações de risco e acolher jovens em sofrimento emocional.
Prevenção contínua e resultados concretos
Para o procurador-geral de Justiça, Alexandre Saltz, o trabalho é permanente e precisa ser ampliado.
“Precisamos de uma atuação contínua de prevenção, que evite o pior e, ao mesmo tempo, ofereça a estes jovens atendimento especializado, capaz de afastá-los da violência”
Alexandre Saltz – procurador-geral de Justiça
Para isso, o Ministério Público gaúcho também está atento ao ambiente digital, onde muitas vezes os adolescentes têm contato com aliciadores que potencializam o ódio, os estimulam e até mesmo fornecem meios para a prática de atos violentos extremos. E o monitoramento da internet também é ferramenta de monitoramento e prevenção de crimes.
“Muitas vezes o adolescente deixa pegadas claras no mundo digital. Daí a importância maior de que pais, escolas e poder público estejam unidos e atentos”, afirmou o procurador Fábio Pereira.
Também integram o Nupve o promotor de Justiça Marcio Abreu Ferreira da Cunha e a servidora Thais Menezes Pacheco.
Investimento em tecnologia é indispensável
Para o delegado de Polícia e coordenador do Laboratório de Operações Cibernéticas da Secretaria Nacional de Segurança Pública do Ministério da Justiça, Alesandro Barreto, o ódio é um fenômeno antigo, mas potencializado pela internet.
“O ódio sempre existiu e sempre vai existir. Qual é a diferença na internet? Ele é propagado de maneira mais rápida”, explicou, citando o anonimato como fator agravante.
O delegado destaca que a sensação de pertencimento e a busca por identidade são fatores que também impulsionam crimes de ódio.
“Hoje, todo mundo quer pertencer a algum grupo. Eu vi garotos do interior de estados do Nordeste se autointitulando neonazistas — e não sabem nem o que é isso”
Alesandro Barreto – delegado de Polícia e coordenador do Laboratório de Operações Cibernéticas - Ministério da Justiça
Independentemente da motivação, a saída, de acordo com o especialista, passa pelo investimento em tecnologia. Pesquisador da evolução tecnológica e de seu impacto na criminalidade, ele defende esforços coletivos para o desenvolvimento e a aplicação de novas estratégias de investigação e prevenção de delitos cometidos no ambiente digital.
“Se, por um lado, as redes sociais ampliaram o alcance do ódio, por outro, aumentam a rastreabilidade dos crimes”, compara.
Nesse contexto, Barreto trabalha no Ministério da Justiça focado em estabelecer cooperações com polícias e outras esferas públicas para a formação de novos policiais e agentes do Poder Judiciário, com foco especial na proteção de crianças e adolescentes.
“Quando comecei na polícia, era com máquina de datilografar. A delegacia regional em que fui trabalhar, o banco da entrada, onde as pessoas ficavam esperando, era o banco de um jipe. Hoje temos uma infinidade de recursos que podem ser usados a nosso favor”, relembrou.
Além de referência nacional no tema, Barreto é autor de livros sobre crimes cibernéticos e já ministrou treinamentos para forças de segurança em diferentes estados brasileiros.
“A atuação conjunta reforça uma política integrada de proteção, que une prevenção, educação e responsabilização. A estratégia é agir antes que o ódio se transforme em violência — seja nas escolas, nas redes ou nas ruas”, finaliza.
Leia:
Prefeitura de Estação suspende aulas após ataque à escola
Relembre casos de violência escolar no RS
Em abril deste ano, uma professora de inglês foi esfaqueada por alunos na Escola Estadual de Ensino Fundamental João de Zorzi, em Caxias do Sul, na Serra. A educadora foi atacada pelas costas por três adolescentes – dois meninos e uma menina – entre 13 e 15 anos quando entrava na sala.
Uma menina de 15 anos foi esfaqueada durante o horário do recreio em Montenegro, no Vale do Caí, em abril de 2024. O agressor, também de 15 anos, desferiu ao menos cinco golpes, mas a jovem não foi ferida com gravidade.
Em agosto de 2019, um adolescente de 17 anos invadiu uma sala de aula em Charqueadas, na região Metropolitana, e atacou três estudantes com uma machadinha. O agressor era ex-aluno da instituição de ensino. Um professor interferiu, evitando que os ferimentos fossem mais graves.
Casos marcantes no Brasil
Em abril de 2023, quatro crianças e uma professora morreram após um homem invadir a creche Centro de Educação Infantil Cantinho Bom Pastor, em Blumenau (SC). O autor, com 25 anos à época, invadiu o lugar armado com uma machadinha.
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu em março de 2019, em Suzano (SP). Um adolescente e um homem encapuzados invadiram a Escola Estadual Raul Brasil e mataram sete pessoas – cinco alunos e duas funcionárias do colégio. Em seguida, um dos assassinos atirou no comparsa e, então, se suicidou. Pouco antes do massacre, a dupla havia matado o proprietário de uma loja da região.
Violência extrema
- Conforme dados da associação civil sem fins lucrativos Dados para um Debate Democrático na Educação (D³e), de janeiro de 2001 a dezembro de 2024, ocorreram 42 ataques de violência extrema em instituições de ensino do Brasil. E 27 deles (64,2%) foram registrados entre março de 2022 e dezembro de 2024.
- O relatório, contudo, mostra que o ano passado tem o menor número de casos de todo o período anterior; 5.
- Segundo a pesquisa, houve 44 mortos (32 alunos, seis funcionários e seis suicídios dos atiradores) e 113 feridos.
- Dos 42 ataques, 33 (78,57%) foram ativos, com intenção de atingir o maior número possível de pessoas, e nove (21,42%) tiveram um alvo em específico.
- Em 81,39% dos casos, os episódios ocorreram em locais em que a famílias dos estudantes têm nível socioeconômico declarado como médio, médio-alto e alto.
- São Paulo lidera o número de ataques, com 10 casos, seguido pelo Rio de Janeiro e pela Bahia, ambos com cinco.
- Cerca de 78% dos autores eram menores de 18 anos.
- Dos 45 autores de ataques (três episódios foram cometidos em dupla), apenas uma pessoa envolvida era do sexo feminino. Foi um caso de Natal, em dezembro de 2024, quando uma estudante de 19 anos baleou um colega dentro da escola. Não houve mortes, e ela respondeu criminalmente como adulta.
- Foram 43 escolas atingidas, sendo que um único autor invadiu duas delas (em Aracruz-ES). Desse total, são: 23 escolas estaduais, 13 municipais e sete particulares.
Fonte: Ataques de violência extrema em escolas no Brasil (2025)
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