A Brigada Militar negou ter afastado os policiais envolvidos na ocorrência em que um homem em surto morreu, na zona Norte de Porto Alegre. Nenhum deles foi indiciado, conforme a Polícia Civil, que trata a situação como legítima defesa. O fato aconteceu na última segunda-feira.
Dois PMs atuaram no caso, sendo um homem e uma mulher. Ela, de acordo com o 20° Batalhão de Polícia Militar (BPM), foi transferida para funções administrativas na unidade. O outro entrou em período de recesso, que já estaria agendado para começar na segunda quinzena de setembro.
Ainda segundo a corporação, a decisão de retirá-los do policiamento ostensivo foi tomada com o objetivo de preservar a saúde mental de ambos e, também, para garantir o atendimento dos moradores da zona Norte. Eles recebem acompanhamento psicológico após o ocorrido.
"Eles não foram afastados, apenas encaminhados para o setor de atendimento biopsicossocial da BM, como é de praxe em ocorrências dessa natureza. Além disso, enquanto recebem atendimento, permanecem realizando serviço administrativo. Esse é um protocolo padrão para ocorrências onde há o uso da arma de fogo”, afirmou o comandante do 20º BPM, tenente-coronel Tales Américo Osório.
Dinâmica da ocorrência
Os PMs foram acionados para atender um caso de violência doméstica no bairro Parque Santa Fé. Ali, uma mulher relatou que o filho era esquizofrênico, estava agressivo e teria usado cocaína, também agredindo-a e ameaçando atentar contra si. Ele foi identificado como Hérick Cristian da Silva Vargas, de 29 anos.
A BM diz que os policiais foram atacados enquanto tentavam dialogar com o homem. Na sequência, foram lançados dardos elétricos de um dispositivo não-letal contra ele, mas a tentativa de incapacitação neuromuscular não surtiu efeito.
A corporação também sustenta que houve luta corporal à beira de uma sacada, onde um dos policiais era empurrado e poderia sofrer queda de aproximadamente três metros. Após o uso do taser, foi efetuado um disparo de pistola na perna, mas a investida teria continuado. Então, outros dois tiros atingiram o tórax. O ataque foi interrompido com um quarto disparo, que teria transfixado a mão e atingido o rosto.
A família do rapaz alega que ele estava desarmado e que houve excesso na ação dos PMs. Um Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado para esclarecer o ocorrido, com prazo de conclusão em até 40 dias.
Análise de câmeras corporais
O delegado Carlos Eduardo de Assis, plantonista do Departamento de Homicídios (DHPP), aponta que os militares agiram em legítima defesa. Ele tem como base o registro das câmeras corporais dos PMs.
"É óbvio que lamento a fatalidade e me solidarizo com a família. Porém, uma análise técnica das imagens mostra que os policiais agiram dentro do protocolo de segurança. Primeiro, eles tentaram dialogar. Depois, quando o homem em surto avançou, utilizaram o taser não letal. A arma de fogo foi empregada como último recurso, somente após o ataque não cessar. Além disso, não há como afirmar que o disparo no rosto foi intencional, porque a munição era do tipo transfixante. Isso será esclarecido na perícia”, afirmou o delegado.
Carlos Assis também pontua que a arma do PM poderia ter sido tomada. "Entendo que a maioria das pessoas relativize o perigo oferecido por alguém desarmado. Muitos não compreendem que esse homem, além de ser alto e forte, havia consumido cocaína e estava com ímpeto descomunal. As câmeras corporais mostram que ele poderia ter tomado a arma do PM durante o ataque. Se isso tivesse ocorrido, não tenho dúvidas que dispararia nos policiais ou contra si.”
O delegado adiciona que o morador já havia protagonizado outros episódios do tipo. “A ocorrência mais grave foi em abril, quando esse homem ameaçou o pai com uma faca. Infelizmente, nessa segunda-feira, a situação saiu do controle e os policiais tiveram que usar armas para se defender.”
Nenhum dos PMs foi indiciado, sendo o boletim registrado como morte decorrente de intervenção em ação policial. O caso foi remetido à 3ª Delegacia de Homicídios, que continuará a investigação.