Polícia

"Cada morte precisa ter consequências", diz diretor do DHPP sobre guerra entre facções

De asfixia financeira e isolamento de líderes, protocolo de sete medidas potencializa a pressão sobre grupos criminosos e desestimula execuções

Onda de violência colocou a Capital em alerta no fim de junho
Onda de violência colocou a Capital em alerta no fim de junho Foto : Guilherme Sperafico / Especial / CP

O delegado Mario Souza, diretor do Departamento Estadual de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), detalhou nesta quarta-feira os esforços para estancar a sequência de execuções entre facções em Porto Alegre, desencadeada a partir de 23 de junho. As forças de segurança do Rio Grande do Sul adotaram uma resposta imediata baseada no Protocolo das Sete Medidas de Enfrentamento aos Homicídios, implementado após a onda de violência que colocou a Capital em alerta no fim de junho.

O protocolo, realizado de forma integrada entre Polícia Civil, Brigada Militar, Polícia Penal, Ministério Público e Judiciário, baseia-se na teoria da dissuasão focada. O princípio desta metodologia é concentrar os esforços do Estado sobre o pequeno grupo de criminosos responsável pela maior parte das mortes violentas no território.

Um estudo desenvolvido pelo próprio diretor aponta que cerca de 80% dos homicídios dolosos registrados em Porto Alegre estão diretamente ligados à atuação de organizações criminosas. Segundo Souza, as execuções ocorrem por motivações econômicas e disputas de poder, com o objetivo de impor medo aos rivais. Esses crimes geram os chamados "repiques", assassinatos cometidos em resposta a outros, fazendo com que a violência se multiplique.

"A situação sai do controle. Por isso, cada morte precisa ter consequências para eles, para que saibam que não vale a pena", afirma o diretor.

Veja Também

Como funciona o protocolo?

De acordo com o delegado, o protocolo funciona como um recado claro aos criminosos: "se acontecer homicídio, a repressão vai aumentar de forma ininterrupta". “O criminoso tem que entender que, se ele puxar ou mandar puxae o gatilho, terá todas as forças de segurança atrás dele”, resume.

Na prática, a estratégia é acionada imediatamente após um homicídio ligado ao narcotráfico, operando em uma força-tarefa dividida em várias frentes, que começa com a saturação policial na região afetada para evitar represálias imediatas. Aliada à esta medida, a investigação rápida da Polícia Civil, com suporte da inteligência da Brigada Militar, serve para identificar os autores e a facção envolvida.

Paralelamente, o plano foca em neutralizar a cadeia de comando, responsabilizando criminalmente as lideranças, mesmo as que já estão presas, por meio de revistas minuciosas no sistema prisional para apreender celulares e anotações. Por fim, a estratégia asfixia o poder financeiro das facções por meio de investigações de lavagem de dinheiro e isola os principais chefes do crime já presos em módulos de segurança máxima ou mediante transferência para penitenciárias federais.

Ainda de acordo com o delegado, a aplicação dessas medidas fez com que as facções recuassem, pois percebem que cada morte cometida gera um prejuízo operacional e financeiro muito alto para a própria estrutura criminosa. Por fim, Souza esclarece que o protocolo não substitui o policiamento e a repressão diária ao crime, já que ambos ocorrem de forma paralela. A ferramenta serve, na verdade, para potencializar a pressão sobre os grupos organizados e desestimular os assassinatos devido à gravidade que representam para a sociedade.

Relembre a sequência de homicídios

A série de assassinatos que mobilizou as forças de segurança começou no dia 23 de junho, quando Gabriel Becker de Farias, de 30 anos, e Therick Eduardo da Cruz Melo, de 25, foram mortos a tiros dentro de uma Range Rover na rua Berlim, na vila Pedreira, no bairro Cristal, na Zona Sul da Capital.

Conforme a investigação, Gabriel teria ido ao local para cobrar dívidas de aluguel e estava acompanhado de Therick, sobrinho de um ex-líder da facção V7. Ainda no mesmo dia, a Brigada Militar prendeu um homem, duas mulheres e apreendeu um adolescente suspeitos de participação na emboscada, apontada como uma ação da facção Bala na Cara.

Dois dias depois, na noite de 25 de junho, a violência se espalhou para a zona Norte. Na rua Seis de Novembro, no bairro Mário Quintana, três homens desceram de um Renault Captur branco e abriram fogo contra um grupo de jovens. João Vittor Veiga Silveira, de 16 anos, morreu no local. Paulo Fernando Oliveira Rodrigues, de 19 anos, chegou a ser socorrido, mas não resistiu aos ferimentos e morreu durante a madrugada. Um terceiro jovem, de 22 anos, sobreviveu e foi hospitalizado. Conforme informações apuradas pela investigação, os dois mortos eram cunhados e o crime teria sido uma retaliação ao duplo homicídio no Cristal.

Horas depois, já na madrugada do dia 26 de junho, uma chacina foi registrada no bairro Passo das Pedras. Lauren Eduarda Rodrigues Borba, de 20 anos, Luiz Fernando Figueiredo de Souza e um terceiro homem, que ainda não havia sido identificado oficialmente, foram encontrados mortos com marcas de tiros em uma residência. A principal linha investigativa aponta que as vítimas eram ligadas à facção Família do Sul, aliada aos grupos V7 e Anti-Bala, e que o triplo homicídio teria ocorrido como represália ao ataque registrado horas antes no Mário Quintana.

Ainda na manhã do dia 26 de junho, a violência fez outra vítima. Eduarda da Graça Machado, de 33 anos, foi morta a tiros na Praça Doutor Baltazar de Bem, no bairro Vila Jardim. Conforme a investigação, ela teria ligação com a facção Bala na Cara, mas a Polícia Civil ainda apura se o caso integra a mesma sequência de homicídios.

Na noite do mesmo dia, a sequência de mortes continuou no bairro Coronel Aparício Borges. Diogo Silva das Neves, de 24 anos, foi perseguido, baleado e atingido com pedradas na região da cabeça na Travessa das Camélias.

Na manhã de 29 de junho, Jaider Torrão Ferreira Júnior, de 36 anos, foi executado com dezenas de disparos quando chegava a uma clínica de fisioterapia, no bairro Santana. Natural de Canoas, ele utilizava tornozeleira eletrônica, possuía antecedentes criminais e já havia sobrevivido a uma tentativa de homicídio. Conforme a Polícia Civil, porém, as investigações indicam que esse crime tem relação com o histórico criminoso da vítima na Região Metropolitana, e não com a sequência de represálias investigada na Capital.

Veja Também