Polícia

Casal de influenciadores acessava boletins de ocorrência e placas de carros, diz Polícia de Canoas

Investigação aponta que os dois presos tinham auxílio de agentes públicos para acessar o banco de dados de instituições e obter informações sigilosas

Delegados Luciane Bertoletti e Cristiano Reschke em coletiva da Polícia Civil em Canoas
Delegados Luciane Bertoletti e Cristiano Reschke em coletiva da Polícia Civil em Canoas Foto : Marcel Horowitz / CP

O casal de influenciadores suspeito de aplicar golpes online em Canoas, na Região Metropolitana, tinha acesso a sistemas de segurança. A dupla contava com a cumplicidade de agentes públicos para acessar o banco de dados de instituições e obter informações sigilosas. Nesta quinta-feira, o caso foi abordado em coletiva da Polícia Civil.

Segundo apuração policial, os investigados tinham facilidades para consultar boletins de ocorrência. Além disso, também através de comparsas, obtinham informações sobre placas de veículos e, assim, podiam descobrir quem era o proprietário.

A dupla foi presa preventivamente nessa quarta-feira, mas já havia sido detida em agosto de 2024 no contexto da Operação Dubai, que teve como alvo um esquema de rifas forjadas. Os dois respondiam em liberdade.

Ainda na época, o casal chegou a admitir em depoimentos que trabalhava diretamente com ao menos um policial militar, que prestava serviços de segurança. Entretanto, novas diligências identificaram uma espécie de rede de proteção no entorno dos influenciadores.

O relacionamento deles com os agentes públicos era pautado em lealdade e amizade. Alguns chegaram a participar ativamente de eventos sociais ao lado dos suspeitos, como festas, e foram convidados até para o casamento dos dois.

Descumprimento de medidas judiciais

O casal, após firmar Acordo de Não Persecução Penal (ANPP) com o Ministério Público, respondia em liberdade. As decisões judiciais, no entanto, não foram cumpridas.

A delegada titular da 3ª DP de Canoas, Luciane Bertoletti, aponta que os sorteios ilegais continuaram em voga mesmo depois da Operação Dubai. Dessa vez, o esquema era mantido por meio de terceiros, ou seja, os chamados “laranjas”.

"Embora estivessem proibidos judicialmente de promover jogos de apostas online, os influenciadores continuaram operando o esquema criminoso. Para este fim, eles utilizavam pessoas próximas, como amigos e ex-funcionários”, afirmou a delegada titular da 3ª DP de Canoas.

Segundo o delegado regional Cristiano Reschke, a suspeita é de lavagem de dinheiro. Desde o ano passado, já foram bloqueados cerca de R$ 50 milhões em bens dos influenciadores.

“Os valores movimentados nas contas do suspeitos eram incompatíveis. Eles tinham lucros exorbitantes, em pouquíssimo tempo. Ao longo da investigação apreendemos veículos de luxo, passaportes e dinheiro em espécie”, destacou Cristiano Reschke.

Entenda como funcionava o esquema

O casal utilizava as redes sociais para rifar apartamentos, casas, motos, jet skis, e carros no valor de até R$ 1 milhão. As cotas dos sorteios, entretanto, eram vendidas por valores irrisórios. Em um dos casos, a participação nas rifas chegou a ser oferecida por 10 centavos.

A Polícia Civil constatou que os prêmios até podiam ser entregues aos vencedores das rifas. O problema é que, na maioria das vezes, os sorteados eram amigos ou familiares do casal. Em outras palavras, o resultado dos bolões seria predeterminado para garantir a circulação do lucro sem procedência.

Os valores das rifas eram misturados com montantes vindos de outras empresas ligadas ao casal, mas os bens não estariam registrados em nome de nenhum deles. A suspeita é que a mescla de capitais e a ocultação de ativos das rifas eram uma das táticas utilizadas pelos influenciadores digitais para maquiar dinheiro ilícito sem deixar lastros.

Vida de luxo e ostentação

O casal ostenta vida de luxo nas redes sociais, com viagens ao exterior e compra de imóveis de alto padrão. Ambos mantinham sites e contas para divulgação dos sorteios que ultrapassam 2 milhões de seguidores.

A conta particular do homem o descreve como “criador de conteúdo automotivo”. Ele também diz ser proprietário de uma loja de suspensões para carros. Já a mulher, se define como dona de boutique, além de embaixadora de uma marca de produtos de beleza.

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