Há um ano, em meio aos festejos natalinos, o crime do bolo envenenado com arsênio, em Torres, no litoral Norte, chocou o Rio Grande do Sul. Três pessoas da mesma família morreram em questão de poucos dias, de um total de seis pessoas contaminadas, e a principal suspeita do caso, Deise Moura dos Anjos, 42 anos, foi encontrada morta na prisão, meses depois.
Uma quarta morte, do sogro de Deise, Paulo Luiz dos Santos, no mês de agosto anterior, em Arroio do Sal, também por ingestão de arsênio, foi incluída no inquérito pelas similaridades com os outros três óbitos. Um caso brutal, que, muito além dos desdobramentos policiais e periciais, modificou protocolos da segurança pública e suscita até hoje repercussões, inclusive na esfera política.
A investigação gerou ainda dois inquéritos na Polícia Civil; um para apurar os crimes em si, e outro sobre a compra em si do arsênio. Há ao menos dois projetos de lei que tratam do assunto em tramitação no Congresso Nacional. O projeto 985/2025, do deputado Lula da Fonte (PP-PE), “proíbe a venda a pessoas naturais de arsênio e de venenos de qualquer espécie sem identificação e comprovação da necessidade de uso”. Já o 1.381/2025, de Gilson Daniel (Podemos-ES), “regulamenta a comercialização, o transporte, o armazenamento e o controle do arsênio e seus compostos”.
Em comum, buscam regular a manipulação indevida desta substância química, base do veneno arsênico, tóxico e letal. O primeiro dos inquéritos na Polícia Civil gaúcha foi concluído antes da morte da Deise, enquanto o segundo foi finalizado na última segunda-feira, de acordo com a delegada Milena Simioli, titular da Delegacia de Polícia de Proteção aos Direitos do Consumidor (Decon).
Como as mortes ocorreram
Era 23 de dezembro de 2024, data em que ocorria uma confraternização familiar em um apartamento na rua Alexandrino de Aguiar, em Torres. Por volta das 18h, um bolo de reis, tradicional da família, feito por Zeli Teresinha Silva dos Anjos, 61 anos, sogra de Deise, começou a ser consumido pelos familiares no local. Zeli também passou mal e, assim como os demais integrantes, foi internada na UTI do Hospital Nossa Senhora dos Navegantes (HNSN), em Torres, porém recebeu alta em 6 de janeiro.
A primeira vítima fatal foi Maida Berenice Flores da Silva, 58 anos, irmã de Zeli, que faleceu no pronto-atendimento na madrugada seguinte, véspera de Natal. No mesmo dia, morreram Neuza Denize Silva dos Anjos, 65 anos, irmã de Zeli e Maida, e a filha de Neuza, Tatiana Denize Silva dos Santos, 43 anos. O marido de Maida, de 60 anos e o filho de Tatiana, de dez anos, se recuperaram do envenenamento. No decorrer da investigação, a Polícia Civil e o Instituto-Geral de Perícias (IGP) concentraram seus esforços na motivação do crime e na origem do arsênio, que, por si só, gerou mais um capítulo longo e intrincado nesta história.
Primeiro, o IGP descobriu que a farinha de trigo estava contaminada com altos níveis da substância. Na farinha, havia 65 gramas por quilograma, cerca de 2,7 mil vezes mais do que a concentração localizada no bolo. "Este resultado não deixa dúvidas da intenção de causar a morte e elimina qualquer possibilidade de contaminação acidental", disse, na época, a diretora-geral do IGP, Marguet Mittmann.
Nota fiscal e pesquisas na Internet
A polícia descobriu ainda que, em um intervalo de quatro meses, Deise teria comprado arsênio pela Internet ao menos quatro vezes, e recebido as encomendas pelos Correios. Uma nota fiscal de compra da substância, com Deise como destinatária, foi localizada no celular da suspeita. Ela também teria feito pesquisas na Internet de temas como “veneno para matar humano” e “veneno para o coração”. Conforme a delegada Milena, a empresa vendedora da substância é do Rio de Janeiro, mas ela ou seu responsável não serão responsabilizados criminalmente, já que a venda do arsênio não é proibida, e ainda está pendente de regulamentações.
"Há uma possível violação administrativa em relação a controle da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), algo que deve ser tratado com este órgão. Em que pese ser um produto de risco à saúde, não há enquadramento a nenhum tipo penal", informou a delegada. Detida em prisão temporária em 5 de janeiro, Deise disse em depoimento que visitou os sogros em Arroio do Sal em 31 de agosto, a fim de buscar uma reconciliação depois de décadas de brigas com Zeli, supostamente motivadas por um saque bancário.
Na visita, ela e o companheiro teriam levado bananas e leite em pó. Dois dias depois, Paulo morreu, e a família inicialmente acreditou que a causa foi o consumo das frutas, supostamente com resquícios contaminantes das enchentes de 2024. Somente após a exumação do corpo do sogro de Deise, o IGP descobriu o arsênio no cadáver. A polícia disse também acreditar que o crime foi motivado justamente pelas desavenças entre Zeli e a nora.
Suspeita encontrada morta dentro do presídio
Deise foi inicialmente levada para o Presídio Feminino de Torres. No entanto, cerca de um mês depois, em fevereiro, transferida para a Penitenciária Estadual Feminina de Guaíba, na região Metropolitana, por ameaças de outras detentas. Em 13 de fevereiro, Deise foi encontrada morta dentro da cela onde ela estava, na ala de triagem da unidade prisional, com suspeita de que tenha provocado a própria morte.
No local, ela deixou recados em uma carta e em uma camiseta, afirmando sofrer de depressão e com alegações de inocência, e abordando questões conjugais, já que passava por um processo de divórcio a pedido do ex-companheiro. Ainda, assumiu ter adquirido o arsênio, mas para consumo próprio. A série de crimes foi enquadrada como triplo homicídio triplamente qualificado, uma tripla tentativa de homicídio, além do homicídio triplamente qualificado do sogro, com qualificadoras de motivo fútil, dissimulação e emprego de veneno.