Uma estratégia inovadora e surpreendente para aplicar na área prisonal: inteligência substituindo a força. Na segunda visita da Comitiva Gaúcha a um presídio na Inglaterra, as inovações tecnológicas aliadas a uma mudança de filosofia na área prisional chamaram a atenção dos integrantes do grupo, constituído por membros do Executivo, do Ministério Público e do Poder Judiciário.
Ideias complexas – como a instalação, nas alas, de uma espécie de computador monitorado, onde os presos podem acessar dados sobre sua agenda, fazer compras e adquirir créditos para realizar ligações telefônicas – e outras nem tanto - como a construção de prédios pequenos, em forma de “x” , em vez de pavilhões enfileirados um ao lado do outro, o que facilita o controle dos apenados, diminuindo gastos. Esse formato de prisão inovador foi apresentado na Penitenciária de Lowdham Grange, que é gerida pelo grupo Serco e fica localizada na cidade de Nottingham.
A unidade prisional tem capacidade para 628 presos, mas somava, hoje 690 pessoas cumprindo pena. Para tomar conta desses apenados, há 404 funcionários: uma proporção de 1,7 preso para cada. No Rio Grande do Sul, atualmente, essa média é de sete presos para cada funcionário. Na penitenciária inglesa, há celas individuais e duplas e, também, alguns quartos equipados com sanitário, pia e duchas individuais.
Um dos projetos mais emocionantes encontrado em Lowdham Grange é uma ideia simples, que já foi premiada pela realeza da Inglaterra, e que trouxe resultados profundos: uma oficina para contar histórias infantis. Em uma sala repleta de livros para crianças, colorida e com bonecos utilizados para fazer teatro, os apenados são convidados a gravar CDs e DVDs, contando e interpretando as histórias para os filhos. O material é entregue às famílias e é uma forma de manter o vínculo dos pais, encarcerados.
O idealizador do projeto, Ron Patterson, explica que os presos também aprendem a gravar e editar o material e, assim, ganham mais uma qualificação. “Este é um projeto muito tocante porque envolve família, sentimentos e mudança. Às vezes, os presos estão gravando e nós temos que parar tudo porque eles se emocionam, começam a chorar, mas é a forma que encontramos de poder manter um vinculo entre o apenado e sua família”, relata.
Uma história para contar
Sameo, 35 anos, está detido há três por ter cometido crime de estelionato. Ele ainda tem mais cinco anos de pena a cumprir e foi transferido de uma penitenciária pública para Lowdham Grange. É o preso que explica à Comitiva Gaúcha como funciona o sistema de tecnologia onde os presos podem controlar as finanças, fazer compras e organizar a agenda através de um aparelho instalado na ala em que fica a cela.
O quarto de Sameo está na área nova da penitenciária – que é destinada aos presos com bom comportamento. Ele é considerado um preso exemplar: conversa desenvolto com os integrantes do grupo e brinca, fazendo piadas. Depois da demonstração sobre como funciona o aparelho, ele leva os gaúchos para a cela dele: uma cama, um rádio, uma televisão, uma ducha individual, computador com acesso controlado à Internet e telefone (que tem ligações controladas e cujos créditos para fazer chamdas são adquiridos pelos presos com o próprio trabalho). Sameo mostra ao grupo todos os recursos dos quais pode usufruir e destaca: “Sabendo explorar o que esse lugar tem para nos dar, podemos criar oportunidades aqui dentro. Eu estive em outra cadeia, mas, aqui, eles te tratam diferente”.
Ele resume uma mudança que vai além da inovação tecnológica: trata-se de uma inovação filosofica para o sistema carcerário. Quando Sameo termina de mostrar ao grupo a cela em que vive, ele começa a falar dos cinco filhos e mostra a foto de uma das filhas. Ele garante que poder falar com a família por telefone é o que o mantém com esperança de sair e poder recomeçar. Chorando, afirma: “Todos nós cometemos erros. Se você tratar as pessoas como animais, você vai ter de volta um comportamento irracional. Mas, se você as tratar com respeito, vai recebe humanidade, dignidade”.
Quando conclui, é cercado por quatro homens chorando – integrantes da Comitiva que concluem que a alteração do sistema prisional vai além de práticas caras e arrojadas. Passa por uma mudança de filosofia que pode tornar idéias simples em resultados positivos, só que, para isso,é necessário mudar a forma de enxergar o sistema.
O fiscal do Governo que atua na penitenciária de Lowdham Grange, John Carman, explicou que são muitos os critérios avaliados pelo Ministério da Justiça para classificar o Parceiro Privado. No entanto, uma mudança de comportamento é notável. “Quatro ou cinco anos atrás, o principal item avaliado era a segurança. Hoje, é a decência”, enfatiza.
Comitiva gaúcha conhece novas formas de enxergar o sistema carcerário na Inglaterra
Inovações tecnológicas aliadas a uma nova filosofia na área prisional chamaram a atenção dos integrantes do grupo