A Polícia Civil apresentou, nesta sexta-feira, as conclusões de dois inquéritos sobre as mortes de quatro pessoas da mesma família por intoxicação de arsênio, no Litoral Norte, no ano passado. Três vítimas morreram após ingerir um bolo às vésperas do Natal, em Torres. Outra faleceu em setembro, em Arroio do Sal.
Os dois inquéritos foram remetidos ao Poder Judiciário na quinta-feira. Juntos, os documentos somam mais de mil páginas, resultado de 25 depoimentos e mais de 30 perícias.
De acordo com as investigações, a responsável em todos os casos seria Deise Moura dos Anjos, 42 anos. Ela foi encontrada morta no último dia 13 deste mês, na Penitenciária Feminina de Guaíba, onde estava recolhida em prisão temporária.
Se estivesse viva, Deise seria indiciada por quádruplo homicídio qualificado, além de outras três tentativas de homicídio triplamente qualificadas. No entanto, o Código Penal prevê a extinção da punibilidade em caso de morte.
“A Deise não era uma criminosa igual as que estamos acostumados a lidar. Foi um caso emblemática e que vai entrar nos anais da história policial do Rio Grande do Sul”, sublinhou o diretor do Departamento de Polícia do Interior (DPI), delegado Cleber Lima.
Foi descartada uma possível motivação financeira para os crimes. De acordo com a delegada regional do Litoral Norte, Sabrina Deffente, a explicação para os casos seria “uma grave perturbação” da investigada.
A tese é sustentada pelo envenenamento, sem aparente motivo, do marido e do filho de Deise. No início de dezembro, os dois teriam ingerido um suco oferecido por ela, e que também estaria contaminado com arsênio.
“A única motivação que encontramos para o crime foi uma grave perturbação mental. Chegamos a cogitar uma motivação financeira, mas isso foi descartado quando comprovamos que ela também tinha envenenado o marido e o filho”, ponderou a delegada Sabrina Deffente.
Deise foi presa em 5 de janeiro, após uma perícia no celular dela encontrar pesquisas sobre o efeito do uso de arsênio. As pesquisas ainda continham assuntos como "veneno para matar humanos". Ela também encomendou arsênico em pó via internet.
A investigada fez quatro compras de arsênio em um período de quatro meses. O veneno teria sido recebido pelos Correios, e um comprovante da aquisição foi encontrado no celular dela. A Delegacia do Consumidor do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) vai apurar como Deise conseguiu adquirir os venenos, com foco na empresa que fez as vendas.
Deise era suspeita de ter envenenado as irmãs Neuza Denize Silva dos Anjos, 65 anos, e Maida Berenice Flores da Silva, 59, e a filha de Neuza, Tatiana Denize Silva dos Anjos, 47 anos. As três morreram após consumir um bolo de Natal, em Torres, no dia 23 de dezembro.
Outras três pessoas que consumiram a sobremesa foram hospitalizadas, mas sobreviveram. Uma delas era a sogra de Deise, Zeli Teresinha Silva dos Anjos, 61 anos. Ela seria o principal alvo do envenenamento.
O Instituto-Geral de Perícias (IGP) constatou que a farinha do bolo havia sido contaminada com arsênio. A suspeita dos investigadores é que a contaminação tenha ocorrido no final de novembro, quando Deise visitou a casa em que a sogra morava, em Arroio do Sal.
Deise ainda era investigada pela morte do sogro, Paulo Luiz dos Anjos, morto em setembro do ano passado, também após receber a visita dela. Na ocasião, a causa do óbito foi dada como “intoxicação alimentar”. O corpo dele foi exumado no dia 8 de janeiro. Um exame pericial encontrou arsênio no cadáver.
O chefe de Polícia, Fernando Sodré, acredita que Deise, após não ter sido investigada na época da morte do sogro, pensou que poderia sair impune caso cometesse outros envenenamentos. Ele avalia que, no último Natal, Deise pretendia envenenar apenas a sogra, mas o plano saiu do controle quando outras pessoas provaram o bolo contaminado.
"Não temos a menor dúvida sobre a autoria dos crimes. A Deise pesquisou diversos tipos de veneno, além de formas para sair impune. Ocorre que o plano de envenenar o bolo saiu do controle, por causa da grande quantidade de pessoas que foram intoxicadas, e ela acabou sendo descoberta”, afirmou o delegado Fernando Sodré.