Polícia

Facção responsável por movimentar R$ 25 milhões ao mês no Vale do Sinos é alvo de operação

Alvos da Operação Tríade chegavam a traficar até uma tonelada de crack e cocaína mensalmente; 20 pessoas foram presas

Operação Tríade mira esquema de tráfico no Vale do Sinos
Operação Tríade mira esquema de tráfico no Vale do Sinos Foto : Polícia Civil / CP

Uma facção com base no Vale do Sinos é alvo do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc). Nesta quinta-feira, cerca de 200 policiais civis cumprem 24 mandados de prisão preventiva e 47 buscas contra o grupo, que teria movimentado R$ 25 milhões por mês através de um complexo esquema de venda e distribuição de drogas. Até o momento, 20 pessoas foram presas.

A chamada Operação Tríade ocorre em Novo Hamburgo, Esteio, Sapucaia do Sul, Viamão, Parobé, Canoas, Porto Alegre, São Sebastião do Caí e Sapiranga. O comando é da 3ª Delegacia de Investigações do Narcotráfico (Din).

O delegado titular da 3ª Din, Joel Wagner explica que lideranças do tráfico coordenavam o transporte de drogas a solo gaúcho através de conexões internacionais.

"As drogas vinham de países vizinhos, provavelmente por aviões. A suspeita é que as aeronaves pousavam em propriedades rurais na fronteira Oeste. Depois, os ilícitos eram transportados por veículos a outras regiões do Estado”, destaca o delegado Joel Wagner.

Bunker do tráfico em Novo Hamburgo

A ação foi precedida por mais de um ano de apurações. Os trabalhos começaram no dia 3 de julho de 2023, quando foi localizado um bunker da quadrilha, em um sítio de alto padrão, no bairro Lomba Grande, em Novo Hamburgo.

O esconderijo ficava no interior de um imóvel, em um cômodo com decoração infantil. No chão do quarto, ao lado de uma cama, um tapete ocultava o compartimento. Uma escada acessava o lugar, que continha instalações elétricas, como luzes de emergência e tomadas. A finalidade seria armazenar drogas e armas, além de servir como abrigo para membros da facção.

Ainda na mesma data, um homem foi preso e houve apreensões de armas, drogas, R$ 46 mil, celulares e até de um morteiro de uso militar. Também na ocasião, um segundo suspeito conseguiu fugir após romper uma tornozeleira eletrônica, mas o telefone dele foi apreendido.

Entenda como funcionava o esquema

A análise dos equipamentos confiscados no último ano revelou que o grupo criminoso funcionava de maneira hierarquizada. O esquema era dividido em quatro núcleos principais:

Fornecedores de drogas: grupo formado por líderes do alto escalão da quadrilha. A partir de conexões em outros países e estados, eles controlavam o envio de narcóticos ao Vale do Sinos.

Consórcio de traficantes: um sistema organizado para distribuição de drogas. Os ilícitos eram entregues individualmente para traficantes no RS que, por sua vez, tinham gerenciamento financeiro próprio.

Revendedores locais: etapa com operadores menores, os subordinados, que faziam a venda direta das drogas aos usuários. Eram os traficantes com atuação em pontos de tráfico e telentregas.

Núcleo de suporte: comparsas que atuavam na falsificação de documentos e com lavagem de dinheiro. Seriam os laranjas e operadores financeiros da facção.

A estimativa é que, nos últimos dois anos, os suspeitos tenham traficado cerca de uma tonelada de drogas por mês. Os ilícitos, principalmente cocaína e crack, eram vendidos por R$ 25 mil o quilo. Isso equivale ao montante mensal de R$ 25 milhões.

O lucro ilícito era ocultado com mecanismos para lavagem de dinheiro, como empresas de fachada e transações em dinheiro vivo. Também foi constatado que a facção negociava armas de fogo, com suspeitas recaindo sobre um clube de tiro que facilitava as aquisições ilegais.

“A operação de hoje é mais um recado para a organização criminosa com origem no Vale dos Sinos de que a Polícia Civil, através do Denarc, está atenta às ações deles Estado”, afirma o diretor de investigações do Denarc, delegado Alencar Carraro.

Já o diretor-geral do Denarc, delegado Carlos Wendt, reforça o comprometimento do órgão no combate incessante ao narcotráfico. “As investigações objetivam responsabilizar indivíduos que estejam na cadeia de comando de grupos criminosos e a respectiva descapitalização de tais grupos.”

Lideranças do esquema

Um traficante conhecido como Benhur, 39 anos, seria um dos líderes do esquema. As condenações dele somam 176 anos de reclusão, mas isso não o impediu de receber, em julho deste ano, o benefício de cumprir pena em regime domiciliar. O criminoso fugiu dois dias após sair da Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc).

Benhur é apontado como mentor de um plano de fuga em massa do antigo Presídio Central, em 2017. Ele teria financiado a construção de um túnel de quase 50 metros, que ligava o subsolo da presídio a casas na vizinhança. A obra custou R$ 1 milhão, mas foi descoberta por policiais antes de ser concluída.

O paradeiro de Benhur ainda é desconhecido, mas outros dois homens, ambos também apontados como lideranças, foram detidos na Operação Tríade. A prisão deles ocorreu em Novo Hamburgo.

Veja Também