Mais de 200 policiais civis cumprem, na manhã desta quarta-feira, 17 ordens de prisão preventiva e 48 mandados de busca no Rio Grande do Sul, Paraná, Tocantins e Mato Grosso do Sul. Intitulada Operação Beatus, a ofensiva tem como alvo uma facção com base no Vale do Sinos, que movimentou, em seis meses, R$ 500 milhões do tráfico, através da compra de fazendas, imóveis, estabelecimentos comerciais, entre outros. Oito pessoas foram presas até o momento.
A ação é do Departamento Estadual de Investigações do Narcotráfico (Denarc), e decorre de apurações que começaram em julho, por meio da Delegacia de Repressão à Lavagem de Dinheiro. Não é descartado que, desde o final de 2022, o grupo criminoso tenha movimentado mais de R$ 1 bilhão.
Nesta manhã, o cumprimento dos mandados ocorre em Porto Alegre, Canoas, Alvorada, Cachoeirinha, Novo Hamburgo, Parobé, Charqueadas, Montenegro, Capão da Canoa, Imbé, Gravataí, Gramado e em Palmares do Sul, além de Curitiba (PR), Paraíso (TO) e Corumbá (MS). Também houve o decreto judicial de 132 quebras de sigilos bancários, financeiros, fiscais e telemáticos, e de mais outros 131 sequestros de bens e imóveis.
Pelo menos 34 pessoas são investigadas. Foram confiscadas 17 fazendas no interior do Rio Grande do Sul. Em duas das propriedades, sendo uma em Garruchos e outra em Santo Antônio das Missões, há pistas de pouso. A suspeita é que as estruturas serviam para o transporte aéreo de drogas de países vizinhos, principalmente cocaína, da Bolívia. Além disso, os terrenos também eram utilizados para a criação de gado, que seria uma das formas de ocultar o dinheiro do tráfico.
As apreensões incluem ainda 11 imóveis de alto padrão na Região Metropolitana de Porto Alegre, Serra gaúcha e em Santa Catarina, bem como veículos de luxo. Entre os automóveis, foram confiscados caminhões, dois Land Rovers, um BMW e Volkswagens Tiguan e Nivus.
Transações discretas e empresas de fachada
O delegado Adriano Nonnenmacher, que coordenou a ação, explica que o modus operandi da quadrilha consistia em efetuar centenas de operações dissimuladas no sistema financeiro, incluindo uma rede de laranjas para pulverizar o lucro ilícito diariamente. Outros métodos eram a mescla do dinheiro sujo com os lucros de empresas reais, empreendimentos de fachada, inserção de dados falsos em declarações à Receita Federal e investimentos difusos na economia, como em cooperativas, fundos, fintechs e aquisição de criptoativos.
“A organização atuava como um emaranhado doloso no sistema financeiro, com centenas de transações trianguladas e fracionadas, mediante inúmeras falsidades junto a bancos. Para burlar os serviços de controle das instituições, os investigados combinavam valores em transações discretas, demonstrando que tinham elevado conhecimento das rotinas de prevenção do sistema bancário e das empresas com as quais mantinham negócios”, afirmou o delegado Adriano Nonnenmacher.
Os suspeitos utilizavam códigos, ao invés de nomes, quando conversavam entre si, tudo para evitar a identificação. Havia divisão de tarefas e hierarquia, como em uma grande empresa, em que o líder do esquema determinava para três “gerentes” a administração dos ativos ilícitos, em coautoria com os demais operadores financeiros e laranjas. Alguns dos comparsas atuavam como empresários, comerciantes e profissionais liberais, e muitos deles não tinham antecedentes.
Em Porto Alegre, por exemplo, um homem de 31 anos foi preso em um loft na rua 24 de Outubro. Ele é proprietário de uma conhecida casa noturna no bairro Cidade Baixa. O estabelecimento seria utilizado para “esquentar” os lucros da facção.
O diretor de investigações do Denarc, delegado Alencar Carraro, classifica a operação como exitosa e fruto de intensos trabalhos de análise. Ele destaca que a ação é a maior da história da Polícia Civil gaúcha em sequestros de ativos oriundos da distribuição de drogas.
Já o delegado Carlos Wendt, diretor-geral do Denarc, ressalta que a estratégia de prender e descapitalizar grandes lideranças e seus operadores vem sendo intensificada pelo departamento nos últimos anos. O objetivo é reprimir delitos com investigações especializadas, propiciando ações penais com céleres condenações.
Quem é o líder do grupo criminoso
O esquema seria comandado por um homem de 42 anos, conhecido como Biron, que está foragido. Ele foi condenado, em 2020, a 20 anos e oito meses de prisão pelo homicídio do fotógrafo José Gustavo Bertuol Gargioni, 22 anos, em Canoas.
Biron estava preso pelo assassinato desde 2016. No ano seguinte, ele foi enviado à Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte, mas retornou a solo gaúcho após dois anos, em 2019.
O criminoso ficou recolhido na Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas até janeira 2022, quando recebeu benefício de prisão domiciliar humanitária.
Biron conseguiu autorização para cumprir a pena em Cascavel, no Paraná. Após passar por cirurgias, ele também ganhou aval para não utilizar tornozeleira eletrônica.
Em outubro deste ano, Biron foi condenado novamente, agora por tráfico e lavagem de dinheiro. O paradeiro dele é desconhecido desde então.