Polícia

Inquérito descreve PM no dia em que Polícia Civil diz ter rastreado celular de mulher desaparecida em Cachoeirinha

Registro detalha nervosismo e desconfiança com carros vermelhos no turno de serviço de Cristiano Domingues Francisco, em Canoas

PM Cristiano Domingues Francisco, suspeito do desaparecimento da família Aguiar
PM Cristiano Domingues Francisco, suspeito do desaparecimento da família Aguiar Foto : Rodrigo Thiel / Especial / CP

O policial militar Cristiano Domingues Francisco, 39 anos, aparentava nervosismo após o sumiço da ex-esposa Silvana Germann de Aguiar, 48, e dos pais dela, Isail e Dalmira Aguiar, 69 e 70, respectivamente, desaparecidos entre 24 e 25 de janeiro em Cachoeirinha. Ele também estranhou a movimentação de carros vermelhos durante serviço, sem explicar a razão da desconfiança. Os fatos então no inquérito que trata o PM como suspeito, mas ele nega participação no crime.

A 2ª DP de Cachoeirinha ouviu um colega de trabalho do PM em 5 de fevereiro, cinco dias antes da prisão dele. O relato descreve o plantão da dupla na 3ª Companhia do 15º Batalhão de Polícia Militar (BPM) em Canoas, ao longo de 12 horas, entre 26 e 27 de janeiro.

A investigação teria rastreado o celular de Silvana no mesmo período, também em Canoas, supostamente enquanto Cristiano trabalhava no município. Em março, houve levantamento de área na cidade, próximo à avenida Antônio Frederico Ozanan, mas nenhum elemento foi encontrado.

O depoimento indica que Cristiano entrou no trabalho às 18h30min, em 26 de janeiro. Disperso, tinha comportamento atípico, aparentando inquietação.

"Ele estava muito nervoso, meio cabisbaixo, falava bastante ao telefone e ouvia áudios", diz um trecho.

Também segundo o registro, a testemunha não sabia do desaparecimento das vítimas nem prestou atenção no teor das conversas de Cristiano ao telefone. O colega, entretanto, percebeu que Domingues "não estava bem", assumindo a direção da viatura em seu lugar.

Ainda conforme a oitiva, Domingues falou que "iria tomar um remédio" e que precisava "dar uma descansada". Em seguida, já medicado, "apagava com o celular na mão" dentro da viatura. Não se sabe se o telefone era de Cristiano ou seria o aparelho de Silvana.

Carros vermelhos

Por volta das 5h de 27 de janeiro, a dupla parou em um posto de combustíveis entre as ruas Ernesto da Silva Rocha e Arpoador, no bairro Estância Velha. Dois carros vermelhos teriam passado no local, tendo o passageiro de um desses encarado a viatura, afrontosamente.

Cristiano ficou inquieto com a afronta, chegando a expressar isso ao colega, mas sem especificar o motivo da preocupação. Eles não foram atrás desse carro devido ao fato de Domingues "não estar bem", saindo do expediente às 6h30min.

Ainda em 27 de janeiro, às 15h41min, Cristiano Domingues registrou boletim do desaparecimento de Silvana, dizendo ter sido alertado da situação por seus ex-sogros. Os idosos também sumiram pouco depois.

"O comunicante registra o desaparecimento da sua ex-esposa, a qual foi vista pela última vez pelos seus genitores, que informaram ao comunicante e após não foi mais vista”, informa a ocorrência.

Domingues foi ouvido em 3 de fevereiro, como testemunha, mas já era investigado desde 30 de janeiro. Preso temporariamente, no dia 10 de fevereiro, ele segue no Batalhão de Polícia de Guarda (BPG), em Porto Alegre. Está afastado de suas funções como soldado no 15º BPM, onde atuou por cerca de um ano.

Cristiano já havia solicitado seu afastamento da unidade, antes de ser preso, sob a justificativa de questões médicas. Tal alegação acabou sendo citada no pedido da Polícia Civil para extensão da prisão temporária dele, que foi deferido na Justiça.

Em 24 de março, no Palácio da Polícia, a reportagem do Correio do Povo questionou o titular da 1ª Delegacia de Polícia Regional Metropolitana (DPRM), Anderson Spier, em relação ao testemunho de carros vermelhos em Canoas, teoricamente vistos na mesma ocasião em que o celular de Silvana foi rastreado ali. Teriam aparência semelhante ao veículo que aparece em imagens na casa dela, na data em que ela sumiu.

"Há carros vermelhos em qualquer lugar e hora. Esse argumento não é prova de absolutamente nada”, rebateu Spier. O delegado regional enfatizou que a perícia indica o celular de Silvana com o PM. “Sabemos que ele esteve em posse do telefone da vítima durante o trabalho. Não há qualquer dúvida sobre isso. Está comprovado em laudo pericial.”