Uma organização criminosa com atuação estruturada no Vale do Sinos, responsável por articular o transporte interestadual de drogas e o comércio ilegal de armas, foi alvo de uma grande ofensiva da Polícia Civil na manhã desta quinta-feira. A Operação Elo Bélico resultou na prisão de 20 investigados e no cumprimento de dezenas de ordens judiciais.
Ao todo, foram expedidos 29 mandados de prisão preventiva e 31 de busca e apreensão. A ação, coordenada pela 4ª Delegacia de Investigações do Narcotráfico (4ª DIN/DENARC), é resultado de uma investigação que identificou uma rede criminosa com divisão de tarefas, forte estrutura logística e atuação permanente, inclusive com articulação de integrantes de dentro do sistema prisional.
Um dos pontos que mais chamou a atenção da polícia foi a logística interestadual do grupo. Conforme apurado, os criminosos mantinham conexões no Paraná, próximo à fronteira, de onde partiam carregamentos de drogas com destino ao Rio Grande do Sul. As conversas interceptadas mostram detalhes da operação, como contratação de motoristas, definição de rotas, uso de caminhões, pagamento de fretes e até a atuação de batedores para monitorar possíveis barreiras policiais.
A investigação teve início após a identificação de imóveis usados como pontos de apoio no bairro Santo Afonso, em Novo Hamburgo. Durante monitoramento, policiais flagraram a movimentação de um dos principais investigados transportando uma sacola pesada para um depósito, em situação compatível com tráfico de entorpecentes.
Na abordagem, o suspeito reagiu e efetuou disparos contra os agentes antes de fugir por telhados de residências vizinhas. Nos locais investigados, foram apreendidos carregador de pistola calibre 9mm, munições, balança de precisão, celulares, anotações do tráfico e cerca de 4,3 quilos de maconha.
A partir da análise dos celulares apreendidos, a Polícia Civil conseguiu mapear a estrutura da organização. Os diálogos revelaram negociações envolvendo maconha, haxixe, cocaína, armas de fogo, munições e até tratativas para aquisição de armamento de maior poder ofensivo. Os investigados discutiam valores, qualidade da droga, formas de pagamento e logística de entrega.
Para driblar a fiscalização, o grupo utilizava métodos de ocultação, como esconder drogas dentro de equipamentos eletrônicos, incluindo caixas de som, mantendo o funcionamento dos aparelhos para dificultar a detecção. Vídeos analisados mostram o processo de acondicionamento dos entorpecentes.
Outro ponto identificado foi o monitoramento em tempo real das ações policiais. Os investigados trocavam informações sobre operações, barreiras em rodovias e movimentação de viaturas, demonstrando alto grau de organização e preocupação com a repressão.
A investigação também revelou a existência de um controle contábil paralelo, com registros de entrada e saída de drogas e distribuição de grandes quantidades entre integrantes. Fotos e vídeos dos entorpecentes, chamadas de “mídias”, eram utilizadas para demonstrar a qualidade da mercadoria aos compradores.
Além do tráfico, foi identificada intensa circulação de armas e munições, com negociações envolvendo diversos calibres. Mesmo presos, alguns integrantes continuavam atuando no esquema, repassando ordens e articulando negociações por meio de aplicativos de mensagens e intermediários.
Há ainda indícios de envolvimento do grupo em crimes violentos. Conversas analisadas apontam coordenação de ações com restrição de liberdade de vítima e possível ligação com homicídio ocorrido em Novo Hamburgo.
Segundo a Delegada Ana Flávia Leite, a investigação demonstrou que o grupo atuava de forma organizada, armada e permanente, com capacidade de movimentar drogas entre Estados, negociar armas e munições, utilizar intermediários financeiros, empregar linguagem codificada e manter articulação criminosa mesmo a partir do sistema prisional.
A Operação Elo Bélico integra a Operação Narke, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública em âmbito nacional, voltada ao combate ao tráfico de drogas e às organizações criminosas. As investigações seguem para identificar outros envolvidos e dimensionar a extensão total da atuação do grupo.