Psicóloga relata falta de atenção familiar a Bernardo
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Psicóloga relata falta de atenção familiar a Bernardo

Ariane Schmitt solicitou para depor sem os quatro acusados presentes no salão do júri popular

Por
Henrique Massaro

Ariane Schmitt solicitou para depor sem os quatro acusados presentes no salão do júri popular

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O depoimento de Ariane Schmitt, que foi psicóloga de Bernardo Boldrini, seguiu a linha do testemunho de Juçara Petry, dando conta dos problemas de falta de atenção familiar em que o menino se encontrava antes de ser morto, em abril de 2014. “Um filho-problema, aos 9 anos, não é um problema da criança. É um problema familiar”, comentou. Ela também solicitou para depor sem os quatro acusados presentes no salão do júri popular.

No seu relato, a psicóloga falou sobre os medicamentos de uso controlado que Bernardo costumava carregar e que administrava por conta própria. Disse que questionou o pai e a madrasta sobre a situação, e que o menino chegou a aparecer “dopado e febril”. Uma das promotoras encarregadas, Silvia Jappe, perguntou a ela se o problema do seu paciente seria carência. “Provavelmente. E autoridade com violência”, respondeu.

Momentos marcantes do depoimento foram registrados quando o Ministério Público reproduziu vídeos mostrando brigas de Leandro Boldrini com o filho. Registradas pelo próprio Boldrini, as imagens, que foram amplamente divulgadas anteriormente, mostravam Bernardo pegando uma faca para impedir a gravação, enquanto o pai o provocava. Também exibiam o garoto chorando dentro de um armário. “Que pai gravaria uma criança numa situação extrema de provocação”, questionou a psicóloga.

Ariane ainda disse que seu paciente era uma criança que costumava receber roupas porque andava malvestida e que por vezes era vista usando um tênis de cada pé, para se mostrar grato e não desagradar as pessoas que deram os presentes a ele. “Esse menino é aquele que estava com a faca na mão”, indagou, dado a entender que, a não ser naquelas situações, Bernardo não era revoltado.

Defesa tenta descontruir relatos de pai desatencioso

A maior parte dos questionamentos de defesa às duas primeiras testemunhas de ontem vieram dos advogados de Leandro Boldrini. Assim como no dia anterior, os advogados do pai de Bernardo investiram no sentido de desconstruir opiniões que depreciavam a responsabilidade de seu cliente enquanto pai. Em um momento, um deles, Ezequiel Vetoretti, perguntou por quanto tempo a psicóloga Ariane Schmitt atendeu o menino e ela disse que foram “meia dúzia de vezes”. Ele, então, questionou se o que as informações que foram noticiadas após o crime lhe ajudaram a formar o diagnóstico que estava apresentando. Ela respondeu que auxiliou a compreender melhor o caso.

À Juçara Petry, tida como “mãe afetiva” de Bernardo e primeira testemunha ouvida ontem no julgamento, Rodrigo tentou, inicialmente, desqualificar as afirmações de que Leandro Boldrini não ligava para o filho, afirmando que se tratava de uma percepção da testemunha. “Ele (Bernardo) nunca me falou ‘o pai me ligou’”, explicou Juçara. “Pai que não dá roupa, não dá comida, não tem amor”, afirmou ainda.

Outra tentativa da defesa foi com relação aos uniformes escolares que Bernardo usava. Juçara, proprietária de uma malharia que confeccionava as roupas do colégio, disse que nunca viu Leandro comprando no estabelecimento e que era a família dela que dava a Bernardo o que ele vestia. Vetoretti, que chamou a testemunha de “Tia Ju”, então, perguntou se somente a sua loja comercializava os itens em Três Passos. Ela confirmou que havia outro local. “Mas ele (Bernardo) nunca tinha uniforme de lá, era sempre da nossa”, contrapôs.

Os advogados de Edelvânia Wirganovicz e os de Evandro Wirganovicz não chegaram a questionar as duas testemunhas. O representante de Graciele Ugulini, Vanderlei Pompeo de Mattos, fez questionamentos pontuais. Em um deles, no entanto, perguntou sobre a quantidade de famílias que teriam abrigado Bernardo por longos períodos. Segundo ele, faltavam dias para fechar essa conta. “Ele era bem nômade”, sugeriu o advogado. “Era a vida do Bernardo”, afirmou Juçara.