Polícia

"Sobrevivi a um tiro e querem me enterrar vivo", diz diretor de Esportes de Sentinela do Sul indiciado por racismo

Sem ouvir Airton Stein, que nega acusações, Polícia Civil encerrou inquérito com base em sete testemunhas

Ataque a tiros em frente ao ginásio municipal de Sentinela do Sul deixa um morto e um secretário ferido
Ataque a tiros em frente ao ginásio municipal de Sentinela do Sul deixa um morto e um secretário ferido Foto : Camila Cunha

Foi indiciado por injúria racial o diretor de Turismo, Desporto e Cultura de Sentinela do Sul, Airton Pedro Stein. De acordo com a Polícia Civil, ele teria recusado atendimento de um socorrista negro após ser baleado em um campeonato de futsal no município, em 14 de novembro. Stein nega ter cometido qualquer ato racista, alegando que teve sua defesa cerceada ao não ser ouvido no inquérito.

A vítima de racismo teria sido um profissional do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). O socorrista não quis registrar boletim de ocorrência, sendo a investigação aberta de ofício. Conforme a Delegacia de Tapes, à frente dos trabalhos, ele não teria feito denúncia por medo de retaliações.

Airton Stein recebeu alta hospitalar no dia 18 de novembro, mas segue com um projétil de revólver alojado na nuca. À reportagem do Correio do Povo, afirmou sentir-se injustiçado, pois seu indiciamento ocorreu sem que ele fosse prestar depoimento.

"Não fui ouvido na delegacia. Me sinto desolado e injustiçado com essa situação. A minha família quer sair da cidade. Sobrevivi a um tiro de bala perdida e, agora, querem me enterrar vivo”, desabafou Stein.

O diretor de Esportes acredita que as alegações de racismo tiveram motivação política. “Tudo isso não passa de ataque político da oposição", disse.

Também enfatizou que jamais teve comportamento racista. “Há coisas que a gente fala que até podem ser mal interpretadas, mas nunca fui racista. Basta vir na minha casa e olhar meus álbuns com fotos de família e amigos. Tenho muito respeito e admiração pela população negra. Minha história é prova disso. Fui condenado na opinião pública, sem ter direito de defesa”.

Delegado ouviu sete testemunhas

Segundo o titular da DP de Tapes, Luciano Rodrigues, o indiciamento ocorreu com base no depoimento de sete testemunhas. O delegado explicou ainda que a legislação não prevê obrigatoriedade em ouvir suspeitos para conclusão de inquérito.

“A legislação processual penal não prevê direito a contraditório e ampla defesa no inquérito policial. Esse indiciamento foi realizado com análise técnica e jurídica dos elementos probatórios colhidos. O investigado proferiu expressões discriminatórias contra um servidor público, ofendendo sua dignidade em razão da cor de pele. As testemunhas confirmaram que isso constrangeu a vítima e outros profissionais da equipe”, sublinhou Luciano Rodrigues.

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O delegado acrescentou que, em 2021, Stein já havia sido investigado por outro episódio de suposto racismo em Sentinela do Sul, mas esse caso acabou sendo arquivado por falta de provas. Stein rebateu: “à época, a pessoa que me denunciou nem foi dar depoimento. Era, novamente, tudo mentira”.

Luciano Rodrigues já enviou o inquérito ao Ministério Público do Rio Grande do Sul (MPRS), que vai decidir se fará, ou não, denúncia ao Judiciário. O delito de injúria racial tem pena de até cinco anos de reclusão, além de multa.

Relembre o ataque a tiros

O crime aconteceu em 14 de novembro, por volta das 21h30min, na parte externa do Ginásio de Esportes Laranjão, onde ocorria o 22º Campeonato Citadino de Futsal de Sentinela do Sul. O verdadeiro alvo era um motoboy, que foi morto com quatro disparos em frente ao ginásio.

Acontece que um dos tiros transfixou o portão de alumínio do estabelecimento, acertando o diretor de Esportes. O atirador fugiu a pé por um matagal. Ninguém havia sido preso até o momento desta publicação.

O homem que morreu foi identificado como Kauã de Sousa Mello, de 19 anos, natural de Guaíba. Ele trabalhava como motoboy, fazendo entregas para uma lancheria em Sentinela do Sul. Tinha antecedentes como menor infrator.