A Polícia Civil deflagrou a Operação Rapta, com foco em esclarecer o homicídio de um militar que recém havia entrado na Força Aérea Brasileira (FAB). As diligências ocorreram nesta quinta-feira em Canoas, Porto Alegre, Viamão, Charqueadas e Osório. Cinco pessoas foram presas.
Na madrugada de 25 de fevereiro, o corpo de Leonardo Machado de Menezes, 20 anos, foi encontrado na rua São Miguel, no bairro Igara, em Canoas. A ocorrência foi atendida por policiais da 2ª DP de Sapucaia do Sul e a vítima tinha sinais de extrema violência: múltiplas agressões e mais de 20 perfurações por arma de fogo calibre 9 milímetros, indicando uma execução sumária. O local, próximo à RS 118, não dispunha de câmeras de segurança, o que inicialmente dificultou a investigação.
Leonardo não tinha qualquer registro de antecedentes criminais ou envolvimento com o submundo do crime. Ele vivia com os pais e era descrito por amigos e até mesmo por membros de grupos criminosos como uma pessoa sem inimigos ou participação em atividades ilícitas.
De acordo com apuração policial, na madrugada do crime, ele havia marcado um encontro com uma mulher na sua própria casa. Ocorre que a moça, que já havia se relacionado com ele em festas, foi identificada como integrante de uma organização criminosa. Além disso, todos os ex-namorados dela também eram membros da mesma organização. Ficou claro aos policiais que ela foi a "isca" para atraí-lo para uma emboscada.
Mais um ponto sensível da investigação é o fato dele manter amizades de infância com indivíduos vinculados a outro grupo criminoso, rival ao da companheira. Isso foi interpretado como sinal de afiliação criminosa por alguns traficantes, que começaram a ver o militar como se fosse um infiltrado.
De acordo com o delegado regional Cristiano Reschke, o jovem se relacionava com diversas mulheres, inclusive as vinculadas ao tráfico, fossem elas aliadas ou rivais de seus amigos. “Ele frequentava festas onde grupos rivais se encontravam, o que gerava ameaças e conflitos, e acabou sendo taxado por um grupo criminoso como membro ou apoiador de uma organização rival. Essa percepção equivocada de seu perfil social e o contexto de guerra entre facções foram cruciais para a tragédia”, disse.
Ainda segundo o delegado, imagens de câmeras de segurança mostraram o veículo utilizado no crime, um Fiat Argo prata. O carro foi localizado em um condomínio em Canoas, local conhecido como reduto de uma facção.
Durante a observação do residencial, os policiais visualizaram a companheira da vítima, chegando em um Ford Ka vermelho, que tinha vidros quebrados, acompanhada de um homem. Os vizinhos, sob condição de anonimato devido ao medo, informaram que esse veículo e o carro que aparece nas filmagens pertenciam a um criminoso.
A abordagem ao Fiat Argo revelou respingos de sangue no porta-malas (local onde a vítima foi colocada) e um chinelo arrebentado no assoalho do banco traseiro, semelhante ao perdido por um dos suspeitos no vídeo do sequestro. Estilhaços no banco do carona também chamaram a atenção, relacionando-se ao vidro quebrado do Ford Ka.
Na sequência, uma denúncia anônima apontou o dono dos veículos como envolvido no assassinato. O relato também dava conta que ele utilizava tornozeleira eletrônica e tinha dezenas de registros policiais, incluindo roubo, furto, ameaça, lesão corporal, e adulteração de sinal de veículo. Também foi confirmado que ele era membro da organização criminosa que atua na região.
Novas imagens de monitoramento, datadas da madrugada do homicídio, mostraram o Fiat Argo sendo estacionado no condomínio. Nas imagens, o suspeito e mais dois comparsas analisavam o veículo, principalmente o porta-malas, utilizando lanternas e tirando fotos, indicando preocupação com possíveis avarias ou vestígios.
O avanço crucial para o esclarecimento total do caso veio com a captura da mulher, companheira do militar, em Cachoeirinha, no dia 5 de maio. Durante interrogatório, ela afirmou ter sido obrigada a participar do crime pelo seu ex-namorado.
Presa preventivamente, a mulher ainda forneceu detalhes sobre outros envolvidos. Somado a isso uma segunda denúncia anônima, recebida em maio, mencionou que alguns dos suspeitos residiam em um apartamento no bairro Guajuviras e que o lugar era usado como base do tráfico.
O delegado regional Cristiano Reschke afirma que a investigação apontou duas motivações principais para o brutal homicídio: ciúmes e rivalidade. “O ex-namorado da mulher foi o principal motivador por ciúmes. A relação da vítima com a namorada, uma mulher vinculada à organização criminosa e o fato da vítima circular com amigos de grupo rival geraram um forte atrito”, explica.
Ainda segundo Reschke, havia busca por informações de rivais. A organização criminosa tinha interesse em obter informações da vítima sobre membros de outra facção. O jovem, por suas amizades e por frequentar ambientes onde os grupos criminosos se encontravam, era vista como uma fonte potencial de dados.
“Mesmo sem real envolvimento com o crime, sua presença em festas onde grupos criminosos rivais frequentemente entravam em conflito contribuiu para que ele fosse percebido como um "inimigo" ou "informante". O crime foi um ato de extrema crueldade e premeditação, refletindo a dinâmica violenta das guerras do tráfico”, concluiu o delegado regional.