Política

Chico Paiva: Precisamos mostrar como país que condenamos a ditadura

Neto de Rubens Paiva, ex-deputado assassinado no regime militar e peça central do vencedor do Oscar “Ainda Estou Aqui”, concedeu entrevista exclusiva ao Correio do Povo

Chico Paiva esteve em Porto Alegre para receber homenagem da Câmara de Vereadores
Chico Paiva esteve em Porto Alegre para receber homenagem da Câmara de Vereadores Foto : Mauro Schaefer

Lento e gradual: assim foi o fim da ditadura militar que, ao longo de 21 anos após o golpe de estado de 1964, provocou a tortura, morte e desaparecimento de centenas de brasileiros. Os crimes cometidos durante a vigência do estado de exceção que aboliu os direitos políticos do povo, censurou a liberdade de imprensa e de expressão e perseguiu adversários jamais foram punidos. Agora, na visão do neto de um dos assassinados desaparecidos, o Brasil tem a chance de remediar a história.

O filme “Ainda Estou Aqui” (2024), de Walter Salles, retrata a ruína da família do ex-deputado Rubens Paiva, raptado de forma abrupta em sua casa e posteriormente morto e desaparecido durante o Anos de Chumbo, o período mais obscuro e de maior repressão durante a ditadura. Lançado em novembro do ano passado, o longa-metragem permanece em cartaz em diversos cinemas espalhados pelo país, que também assiste aos desdobramentos de uma suposta tentativa de novo golpe de estado entre o final de 2022 e o início de 2023. Para Chico Paiva, neto de Rubens, é a chance de o Brasil provar, mais de 60 anos depois, que é capaz de condenar ditaduras.

“Precisamos traçar a linha e, como o país, mostrar que condenamos isso, que não queremos que isso se repita. É importante para o país demarcar e oficializar, falar que foi um crime que foi cometido contra o país. É fundamental que a gente puna, porque se a gente não punir eles vão fazer isso de novo”, declarou.

João Francisco Paiva Avelino é filho de Vera Paiva, a Veroca de “Ainda Estou Aqui”, e neto de Rubens e Eunice. Não chegou a conhecer o avô, que foi sequestrado quando ainda não tinha netos, mas cresceu em uma família marcada pelo vazio deixado por um patriarca que nunca pôde ser velado. Atual diretor de Descarbonização e Finanças Verdes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Chico esteve em Porto Alegre para ser condecorado com a Comenda Porto do Sol, uma das maiores honrarias concedidas pela Câmara de Vereadores da cidade.

“Na história do Brasil, após as tentativas de golpe que não foram punidas, os mesmos deram golpe ou tentaram dar golpe mais adiante. São sempre os mesmos grupos que estavam tentando tomar o poder e, quando não foram punidos, tentaram novamente. O Bolsonaro não é diferente, porque ele deriva de uma geração que era da ditadura, que não foi punida pelo que fizeram no regime militar e ele, há 30 anos, defende o retorno desse regime”, afirmou, em entrevista exclusiva ao Correio do Povo.

O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) é um dos réus no âmbito Supremo Tribunal Federal (STF) por coordenar uma suposta tentativa de golpe de Estado, a fim de evitar a posse do então presidente-eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teria culminado no atentado do 8 de Janeiro.

Chico estava em Brasília naquele dia. “Foi um momento muito assustador, mas não necessariamente surpreendente. Para quem viu a ascensão do Bolsonaro, que defende abertamente a sua admiração pelo regime militar, não é uma surpresa que ele ia tentar fazer igual quem ele admira fez. (...) O Bolsonaro faz exaltação pública desse período da ditadura, a ponto de dizer que o coronel Brilhante Ustra, que era o chefe da tortura, foi um herói nacional”.

O neto de Rubens Paiva foi homenageado por um Legislativo que tem em seu plenário um parlamentar que é primo de Brilhante Ustra: Marcelo Ustra da Silva Soares (PL), o Coronel Ustra (PL), como dizia seu nome de urna. Quando questionado sobre este fato, ficou surpreso.

“Eu não sabia disso. Para ver o quanto a gente ainda precisa avançar. O Brilhante Ustra é conhecido por ser um torturador. É um absurdo. Acho que mostra o quanto a gente falhou em mostrar pra sociedade brasileira o quão deplorável é o que representa o Brilhante Ustra, o regime militar. Mostra o quanto ainda precisamos caminhar e a punição à tentativa de golpe que ocorreu em 2022 e começo de 2023 é o primeiro passo fundamental para isso”, afirmou Chico Paiva.

Além da cerimônia na Câmara de Vereadores, organizada por integrantes do PSol como a deputada federal Fernanda Melchionna, a estadual Luciana Genro e o vereador Roberto Robaina, ele participou de outras atividades na capital gaúcha como palestras e exibição comentada do filme de Walter Salles. O objetivo foi de “furar a bolha”, algo que o longa, premiado com o Oscar de Melhor Filme Internacional e sucesso de bilheteria, parece ter alcançado.

“Com um público de mais de 6 milhões de pessoas no Brasil, já não dá para dizer que está na bolha. É um dos maiores públicos da história do cinema nacional. (Com o filme) fica mais fácil de ligar os pontos. Você conectar a tentativa de golpe com um filme que retrata de forma muito crua e muito humana o que era aquele período facilita para que as pessoas consigam realmente entender o risco que a gente estava correndo”, disse Chico.

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