O PP gaúcho tem um histórico de rusgas ao longo das eleições no Rio Grande do Sul. Acontece que, cada nova fissura impacta e reflete no pleito adiante. E, em 2026, as coisas não são diferentes. E é neste clima de divisão que está marcada para esta terça-feira, 20, uma reunião do diretório gaúcho para deliberar sobre três questões.
São elas: a permanência ou a saída do governo de Eduardo Leite (PSD), com o qual o PP colaborou durante os dois mandatos, possui dois secretários e o líder do governo; quais dos dois nomes postos será o pré-candidato ao Piratini do partido, se o deputado federal e presidente estadual, Covatti Filho ou o deputado estadual Ernani Polo. E, ainda, se o partido manterá a aliança com Leite na disputa do fim do ano, integrando uma chapa com o provável candidato governista, Gabriel Souza (MDB); ou se irá ingressar na campanha com o PL, que tem como pré-candidato o deputado federal Luciano Zucco.
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O impasse é que o encontro, convocado por Covatti, é considerado ilegítimo, segundo acusam um grupo de lideranças. O argumento é de que o tempo para tomar tais decisões é pouco, visto que Ernani recém deixou a secretaria de Desenvolvimento Econômico e, por isso, não conseguiu avançar nas articulações; e o encontro ocorre cedo demais, tendo em vista às articulações nacionais que devem reverberar no Estado.
Os impasses atuais também têm parte de suas raízes em articulações em eleições passadas. Relembre as estratégias do partido nas quatro disputas pelo governo gaúcho anteriores.
- Em 2010 - A briga para o vice
Diante do cenário atual, está feito o racha. Racha que, há 16 anos atrás, também deu as caras. Durante as eleições de 2010, o PP, que estava no governo, decidiu compor a chapa da então governadora Yeda Crusius (PSDB) que disputava a reeleição. Nas articulações, o partido ficaria com a vaga de vice, mas diferentes quadros queriam o posto – entre secretários de Estado, deputados federais e vereadores. O pai de Covattinho, Vilson Covatti, hoje secretário de Desenvolvimento Agrário, alegava unanimidade em torno de seu nome, mas encontrava resistências dentro do partido. Na outra ponta, Yeda tinha preferência pelos seus secretários, como Otomar Vivian.
"Integrantes da bancada estadual criticaram o prazo estabelecido pela cúpula partidária. Líder do PP na Assembleia, Francisco Appio, afirmou que a legenda foi imprudente e perdeu a oportunidade de aprofundar o debate", diz trecho de matéria publicada no Correio do Povo, na edição do dia 1 de junho de 2010.
Sem chegar a um consenso, a sigla trocou a estratégia: ao invés do vice, investiu na candidatura ao Senado. A escolhida para capitanear esse projeto foi Ana Amélia Lemos, que conquistou uma cadeira ao lado do senador Paulo Paim, do PT.
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Em 2014 - Após despontar, Ana Amélia termina em terceiro lugar
O desempenho alcançado por Ana Amélia cacifou a senadora a concorrer para o governo do Estado pelo partido quatro anos depois. Mas como o PP tem imã para dissidências, o problema foi nacional. Isso porque o comando maior do partido decidiu apoiar e integrar a chapa liderada pela ex-presidente Dilma Rousseff (PT), que tentava reeleição. A decisão foi tomada de supetão pelo presidente, Ciro Nogueira, que colocou a votação às pressas durante reunião.
O PP gaúcho, porém, era frontalmente contrário à aliança com a petista e Ana Amélia garantiu que seu palanque seria para Aécio Neves, então candidato do PSDB à presidência, reforçando a aliança com os tucanos no Estado.
Mas o problema real veio um pouco depois: a notícia de que a então candidata teria ocupado um cargo de comissão no gabinete do marido, o senador Octávio Cardoso, em 1986, enquanto enquanto exercia atividade privada em Brasília. A informação repercutiu mal entre os eleitores e Ana Amélia terminou a disputa em terceiro lugar, com 21% dos votos.
- Em 2018 - O apoio a Eduardo Leite e a eleição de Heinze
Olhando para trás, a visão de alguns dirigentes partidários é de que as eleições de 2018 eram do PP. O partido iniciou as articulações para a disputa com a convicção da candidatura própria, liderada pelo então deputado federal Luis Carlos Heinze e com Ana Amélia Lemos na disputa à reeleição para o Senado.
As discussões, entretanto, acabaram tomando outro rumo. Em acordos entre a cúpula nacional do PP e dirigentes no Estado, a senadora abriu mão de concorrer à reeleição e ocupou a vaga de vice na chapa de Geraldo Alckmin (então no PSDB), à presidência da República. A decisão acabou implodindo a candidatura de Heinze, que ficou enfraquecido.
Com isso, Heinze acabou empurrado para uma candidatura ao Senado e o PP homologou a aliança com os tucanos, que lançaram Eduardo Leite (PSDB). A resolução, entretanto, não pacificou o partido. Pelo contrário. Um mês após a convenção partidária progressista que confirmou sua candidatura, o hoje senador chamou a imprensa para anunciar o seu apoio à Jair Bolsonaro (há época PSL), que concorria à presidência da República – à despeito da sua colega de partido integrar a chapa de Alckmin e das convenções estaduais e nacionais terem validado a aliança com os tucanos.
Foram poucos os dissidentes que acompanharam Heinze, mas a fratura já estava exposta e, há quem diga, ainda não foi fechada. Apesar disso – ou talvez por isso – o deputado federal foi eleito senador com quase 22% dos votos.
- Em 2022 - O resultado aquém e dissidências
O desempenho de Heinze na disputa ao Senado, quatro anos antes, cacifou seu nome para, em 2022, seguir com o sonho da sua candidatura ao governo do Estado. Contando com o apoio de Bolsonaro para liderar o projeto da direita no RS, o PP foi o primeiro a anunciar um nome para o Piratini, ainda em em 2021.
O senador começou a articular as alianças com outras siglas do mesmo espectro e todos que integravam a gestão de Leite, ainda que alguns o fizessem a contragosto, deixaram o governo.
O que Heinze e lideranças do PP não contavam era que o ex-ministro Onyx Lorenzoni, hoje no PP mas, à época, no PL, seria ungido por Bolsonaro como seu candidato no Estado. O movimento “dividiu” a direita e enfraqueceu o nome do senador, segundo a avaliação de dirigentes.
Soma-se a isso o fato de que os laços criados ao longo dos três anos de governo Leite entre o ex-tucano e alguns progressistas fez com que nomes importantes do partido, nos bastidores, viessem a apoiar a candidatura de Leite à reeleição – anunciada de forma tardia, após sua desistência de concorrer à presidente.
O resultado foi inversamente proporcional àquela que levou Heinze à Câmara Alta, e o senador não conseguiu chegar nem ao terceiro lugar, ficando atrás do petista Edegar Pretto, fazendo pífios 4,28% dos votos. E é com esse histórico que o partido chega, dia 20 de janeiro, para discutir os rumos nas eleições deste ano.