Política

Eduardo Cunha passa do ataque à defesa

Presidente da Câmara articula formas de sair ileso das acusações no Supremo e na Casa

Apontado como o grande vencedor no episódio da aprovação do impeachment da presidente Dilma Rousseff pela Câmara, o presidente da Casa, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), deixou o papel de algoz do governo para cuidar da própria defesa. Réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, investigado por contas milionárias fora do país e recebimento de propina, nome constante nas delações e documentos da Operação Lava Jato, acusado de obstruir investigações, Cunha enfrenta altos índices de rejeição nas ruas, que reivindicam sua saída da presidência da Câmara e seu julgamento. Apesar disso, permanece no comando da Casa e assegura que participará da elaboração de uma nova agenda para o país, como havia anunciado logo após a votação do impeachment.

Deputados gaúchos que votaram sim para o impeachment assinalam que Cunha se mostra confiante, tem estofo para resistir à “pressão das ruas” e trabalha no sentido de emplacar nomes para o ministério que o vice-presidente da República, Michel Temer (PMDB), tenta montar, mesmo que o afastamento de Dilma ainda dependa do Senado. “O Eduardo é destemido e inteligente. Parece que engoliu o regimento e foi tudo para o cérebro. É inegável que, com ele, o Legislativo cumpriu seu papel”, elogia o gaúcho Jerônimo Goergen (PP). Apesar da admiração, o deputado se diz favorável à saída de Cunha da presidência da Câmara. “A impressão que eu tenho é de que ele vai matar o processo no Conselho de Ética e depois renuncia à presidência para salvar o mandato. É melhor para o Temer também, que não vai precisar ficar respondendo por essa aliança”, resume.

Do “acordão” para salvar Cunha e poupar Temer de constrangimentos fazem parte a estratégia de esvaziar as investigações, manobras dos aliados para acabar com o processo no conselho e afirmações de que o STF ainda não julgou Cunha porque a peça apresentada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) não conteria provas suficientes dos crimes. “Isso é um deboche. Sobram provas na denúncia apresentada pela PGR. E, como se não bastasse, toda semana aparece mais uma denúncia. Por muito menos, o André Vargas foi cassado”, compara o deputado Paulo Pimenta (PT).

Gaúchos tentam evitar vínculo

Entre deputados federais gaúchos, mesmo do PMDB, é difícil encontrar quem admita proximidade ou afinidade com o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Cientes da rejeição que o deputado enfrenta entre a população e do tamanho das acusações e denúncias que pesam contra ele, seus pares no RS preferem, em público, anunciar que não integram o “grupo do Eduardo”. De fato, não há gaúchos na chamada “tropa de choque” de Cunha, formada por peemedebistas e por deputados de PP, PSD, PSC e Solidariedade, que atua para fazer valer a vontade do presidente nas comissões e no plenário.

Com influência sobre dois terços dos deputados, Cunha tem simpatizantes na bancada gaúcha. Eles são denominados de “albergados” nos domínios de Cunha, porque a simpatia é de conveniência. Entre eles, além de alguns integrantes do PP, estão os deputados Sérgio Moraes e Luiz Carlos Busato, do PTB, e Giovani Cherini (PDT). No PMDB, os mais próximos são Darcísio Perondi e Osmar Terra. Mesmo fora da “tropa de choque”, eles trabalham ao lado do ex-ministro Eliseu Padilha para tecer, entre gaúchos, a tese de que Cunha deixe a presidência e assim permaneça com o mandato e se livre do STF.

Enquanto Perondi faz defesas explícitas de Cunha entre os colegas, Terra opta por uma distância pública. “O Eduardo tem que ser julgado o mais rápido possível e, se ficar algo comprovado, se afastar. Se ele sair da presidência e tentar preservar o mandato, é uma coisa. Mas se insistir em ficar na presidência, vamos resolver de outra forma: o próprio Congresso pode tirá-lo. Ele precisa ter noção. Não pode pairar desconfiança sobre o governo do Michel”, resume Terra.

Governo pressiona por condenação

A partir desta semana, deputados governistas vão intensificar os movimentos para que o Supremo julgue o processo envolvendo Eduardo Cunha. Ele se tornou réu no tribunal no início de março, mas a Procuradoria Geral da República (PGR) solicitou seu afastamento da presidência da Câmara em dezembro de 2015. Seus adversários lembram que há 130 dias a decisão está “pendurada” na Corte.

Os governistas prometem tentar obstruir as votações e o funcionamento das comissões na Câmara. “Não vamos mais participar desta farsa. Sozinhos não temos como fazer essa obstrução, mas vamos chamar outros partidos. Se ninguém concorda com o Cunha, que mostre isso publicamente”, desafia o deputado gaúcho Paulo Pimenta (PT).

Na sexta-feira pela manhã o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, disse, nos Estados Unidos, que a PGR em breve apresentará mais denúncias contra Cunha. Há uma segunda denúncia contra o peemedebista em vias de ser apreciada pelo STF. E, segundo Janot, outros seis inquéritos estão instaurados, todos com “fatos ilícitos” diferentes envolvendo Cunha.