Com 406.467 votos, o equivalente a 61,53% dos votos válidos, o emedebista Sebastião Melo foi reeleito neste domingo prefeito de Porto Alegre por mais quatro anos. A recondução ao cargo, e a vitória expressiva, o alçam a uma nova condição de liderança dentro do MDB gaúcho, aumentam a influência do prefeito na definição da estratégia partidária e na articulação de alianças para as eleições gerais de 2026, e abrem a ele um leque de possibilidades. Entre elas, a do fortalecimento de seu nome como representante da legenda para a disputa ao governo do Estado daqui a dois anos, alternativa que apoiadores mais entusiasmados já não fazem nenhuma questão de esconder.
O “tamanho” da vitória de Melo, que já havia demonstrado sua capacidade de fôlego no primeiro turno, quando por muito pouco não liquidou a eleição, surpreendeu adversários e até parte dos aliados. Mas não analistas e especialistas em marketing. Porque ele foi buscado dentro de uma estratégia tradicional de campanhas, adaptada para a era das redes sociais, e calcada em um trabalho minucioso de marketing político e psicologia social.
As duas diretrizes incluem cinco ingredientes básicos: o estabelecimento de vínculos com parcelas diferentes – e expressivas – do eleitorado, a criação de uma marca que caia no gosto popular, a confecção de bordões que as pessoas achem engraçados, a produção de conteúdo que gere bem-estar e a divulgação de informações fáceis de serem assimiladas.
A campanha reuniu todos eles já no primeiro turno. Investiu muito nas pesquisas qualitativas com grupos focais, método no qual eleitores de diferentes graus de escolaridade e renda são chamados a opinar sobre a administração, a propaganda, o candidato e suas próprias demandas. De posse dos relatórios, não apenas priorizou o que a população queria receber, mas incrementou até quase o limite a imagem do prefeito como “homem do povo”.
A equipe consolidou o chapéu de palha e o chinelo de dedo como as marcas do candidato, espalhando imagens dos dois objetos em diferentes contextos, desde as atividades de rua até animações, passando por peças nas redes, jingles e a propaganda no rádio e na TV.
Conseguiu atribuir a cada um deles um significado, transformando-os em símbolos. O chapéu de palha representa o homem simples. O chinelo de dedo incorpora o termo “chinelão”, que desafetos dentro e fora do partido utilizavam de forma pejorativa para Melo desde os tempos em que ele era vereador.
Em eleições passadas, o bordão “Chinelão por chinelão, vote no Sebastião” era uma espécie de piada interna entre assessores, mas desagradava ao prefeito. Depois de Lula e Bolsonaro, marqueteiros país afora entenderam que o termo poderia servir como um elemento fundamental de identificação com a maioria da população, seja por grau de escolaridade ou renda, ou a combinação de ambos, e que define pleitos.
Em Porto Alegre, a tática se mostrou um sucesso. Além de popularizar o emedebista e ajudar a desvincular o prefeito da série de problemas apontados pelos críticos de sua administração, do enfrentamento às enchentes à educação, passando pela saúde e o transporte, neutralizou a principal estratégia da deputada federal Maria do Rosário (PT). A de se apresentar como uma mulher simples e conquistar as periferias da cidade, atribuindo a Melo a pecha de candidato bancado pelas elites.
Na segunda etapa da corrida, quando todos projetavam que o prefeito ia “jogar parado”, apenas para manter a dianteira, ele voltou a surpreender, aprimorando o método do primeiro turno. Para fazer frente à queda natural do entusiasmo na etapa em que campanhas e militâncias daqueles que disputavam cadeiras no Legislativo são desmobilizadas, a equipe dobrou a aposta na figura de Melo e associou sua imagem à de uma cidade de fato alegre.
Nas peças para a televisão, lançou mão de recursos de animação, e de ainda mais cor. Os jingles se diversificaram, com versões em ritmo de forró, samba enredo, funk, pop e marchinha de carnaval. Chinelos de dedo de todas as cores apareceram nas ruas, nas redes e na propaganda eleitoral.
Além das caminhadas e caravanas, o candidato protagonizou cenas que aumentaram o “engajamento”. Foi ele mesmo para sinaleiras abordar eleitores e distribuir santinhos. E gravou peças como em que aparece em frente a uma mesa de sinuca “afiando” um taco enquanto diz “Sabe que eu já ganhei dinheiro com isso?”. Na sequência, encaçapa uma bola vermelha, 13 (o número do PT).
Também teve sucesso em se apresentar como homem do povo apoiado pela elite endinheirada, associando isso à ideia de versatilidade e capacidade de diálogo. Para tanto, mais uma vez, lançou mão da indumentária. O chapéu de palha usado nas vilas, por exemplo, era substituído por óculos de grau e cabelos muito bem penteados em debates e eventos promovidos pelo mundo corporativo.
A aposta foi na linha evidenciada por pesquisas em diferentes cidades do país: os “pobres” não veem necessariamente os “ricos” como opositores. Em grande medida, os consideram modelos a serem seguidos.
Politicamente, Melo também atuou no detalhe. Dois dias após o segundo turno, pediu uma reunião com o governador Eduardo Leite (PSDB) e o vice, Gabriel Souza (MDB). Divulgou o encontro como parte da negociação do apoio do governador e sua participação na campanha. Não houve fotos do encontro e nem declaração do tucano na saída.
Leite se limitou a dizer depois, em entrevistas, que o MDB integra sua base, e a aproximação programática era com o prefeito. Mas elogiou Rosário e revelou que, em Pelotas, onde vota, escolheria Fernando Marroni, do PT.
Para Melo, contudo, o resultado foi satisfatório. O candidato nunca esperou que Leite ingressasse em sua campanha. O encontro foi uma espécie de vacina. Para conter especulações sobre a “neutralidade” do governador. E para fazer o público externo crer que entre ele e Gabriel (que também vai pleitear a candidatura ao governo em 2026) as antigas rusgas ficaram no passado. Funcionou.
