O prefeito Fernando Haddad obteve nesse domingo, a pior votação de um candidato do PT em São Paulo. Atribuída ao voto antipetista, a derrota agrava o racha interno, que pode levar a uma nova debandada de quadros da legenda.
Haddad chegou a dizer a amigos que, se perdesse a eleição, deixaria a vida pública. A frase foi entendida como um recado de que ele também tem planos de sair do PT, partido com o qual teve ruidosos atritos ao longo de sua gestão.
A queda do PT da Prefeitura foi comparada pela cúpula da sigla a um desastre tão grande quanto o impeachment da presidente Dilma Rousseff, há pouco mais de um mês. Sem a "joia da coroa", como o governo da capital é conhecido, o PT fica ainda mais fragilizado para a disputa presidencial de 2018. Pior: não tem plano B para substituir o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que é réu na Lava Jato e pode virar "ficha-suja" se for condenado em segunda instância.
Na prática, o PT foi massacrado nesta eleição. Perdeu até mesmo a prefeitura de São Bernardo do Campo, cidade que é o berço político do partido. A derrota em São Paulo, porém, foi a mais sentida de todas. Ao receber 16,7% dos votos válidos, Haddad ficou atrás até mesmo de Eduardo Suplicy, que ao enfrentar Jânio Quadros, em 1985, chegou à marca de 19,75%. Suplicy foi eleito nesse domingo, vereador, com a maior votação entre seus colegas.
De qualquer forma, se o resultado desse domingo expõe as dificuldades que o PT terá para retomar o protagonismo no cenário nacional, não representa uma surpresa, tendo em vista a baixa taxa de aprovação de Haddad ao longo de todo o governo.
Para os críticos de dentro e de fora do PT, as urnas apenas escancararam a "preferência" do prefeito pelo chamado centro expandido, região que concentra os bairros mais valorizados. "Faltou uma marca forte na periferia para mostrar agora, como faltou a presença pessoal mais intensa dele no nosso cinturão vermelho nesses quatro anos", afirmou um dirigente do PT, numa referência aos extremos da cidade que historicamente votavam 13.
Fatores
Na avaliação de aliados do prefeito, o estilo de governar de Haddad foi o que mais pesou para o seu fracasso. "A gente cansou de falar, mas ele nunca ouviu. Achou que poderia reverter essa rejeição durante a campanha. Falava para a gente que o tempo de TV lhe daria a oportunidade de explicar tudo o que havia feito na cidade. Não deu", resumiu um vereador.
A relação com o PT sempre foi um obstáculo. Desde o início do ano, candidato e partido entraram em conflito. Haddad queria Luiz González, que se notabilizou pelo trabalho com candidatos tucanos, no comando do marketing da campanha. O PT barrou, sob o argumento de que o marqueteiro cobrava muito caro. A saída foi contratar a Angela Chaves, diretora da Link Propaganda, ex-colaboradora de Luiz Gushiken no Ministério da Comunicação durante o governo Lula.
Angela foi bombardeada desde as primeira reuniões por esconder a estrela do PT na propaganda de Haddad e pelo slogan "diferente". Em conversas reservadas, petistas reclamavam desde o mau humor do candidato em eventos públicos até a preparação para os debates de televisão. No debate da TV Globo, considerado decisivo, Haddad se preparou apenas com Angela e o vice, Gabriel Chalita. Para dirigentes petistas, as falhas ficaram claras no ar. Outra crítica, tornada pública por Lula, foi o fato de Haddad se recusar a se licenciar do cargo para se dedicar exclusivamente à disputa.
Para a oposição, o prefeito ficou fora porque não soube reagir aos percalços de seu primeiro ano de gestão. Com apenas cinco meses de experiência no cargo, Haddad precisou enfrentar ruas tomadas por uma multidão que exigia um recuo seu em relação ao aumento da tarifa de ônibus de R$ 3 para R$ 3,20.
Liderados pelo Movimento Passe Livre (MPL), os protestos ganharam força, se alastraram pelo País e fizeram o professor universitário que não se dizia político se aliar ao governador Geraldo Alckmin (PSDB) para fazer o que assegurava que não faria: revogar o reajuste.
Cinco meses depois, Haddad aprovou uma alta de até 35% no valor do Imposto Predial de Territorial Urbano (IPTU). E, de novo, teve de voltar atrás, dessa vez por determinação da Justiça. "Não foi uma largada boa de mandato e isso prejudicou todo o resto. Ele passou imaturidade para o cargo, característica que o eleitor não perdoa", diz outro parlamentar.
Polêmicas
A resposta de Haddad começou a ser vista nas ruas. Não pela sua presença em agendas externas - a escolha de permanecer mais tempo no gabinete perdurou durante todo o mandato -, mas por suas medidas polêmicas. Com pouco apoio da população, resolveu colocar seu plano em prática: tirou espaço dos carros para dar aos ônibus com a instalação de 423 km de faixas exclusivas, pintou 354 km de pistas em vermelho para atrair ciclistas e reduziu a velocidade nas marginais ao mesmo tempo em que quase dobrou o número de radares em São Paulo. De
todas essas medidas, porém, as que mais receberam críticas foram a ampliação dos radares e das multas.
Derrota de Haddad em São Paulo expõe fragilidade do PT
Queda do partido da Prefeitura foi comparada ao impeachment da presidente Dilma
