A certeza sobre uma consolidação do avanço da direita como característica destas eleições de 2024, contudo, ainda depende do resultado das urnas e engloba fatores que ajudam a explicar a divisão interna.
O professor de ciência política da Ufrgs e pesquisador com atuação nas linhas de comportamento e instituições políticas, Gustavo Grohmann, cita, entre esses fatores, as chamadas “ondas” surfadas por setores intermediários: aqueles segmentos sociais sem definições ideológicas claras, que tendem a acompanhar polos em destaque.
“Há algumas décadas, por exemplo, a onda era a democracia. Muitos candidatos sem perfil definido a aproveitaram naquele momento. Agora, outros tantos aproveitam a onda em grupamentos mais à direita. São setores expressivos, que desejam participar do processo, movidos por múltiplos objetivos, e que acompanham os ventos, atraídos pelos polos mais dinâmicos da política”, explica.
Grohmann chama a atenção ainda para outras duas características que influenciam o pleito. A primeira vem sendo observada desde as eleições de 2010 e tende a se manter. É a fragmentação do voto, que ocorre especialmente nos maiores centros urbanos.
“O Brasil sempre teve um número grande de partidos registrados. Mas, antigamente, a maioria não tinha qualquer significância política e poucos concentravam as escolhas. Isso mudou. O eleitor está distribuindo mais seu voto em diferentes siglas. A fragmentação é mais evidente no plano do Legislativo, mas impacta a condução das políticas públicas para o futuro, até porque legislativos mais fragmentados vão ter custo maior de coordenação para o Executivo.”
O movimento vai na direção contrária das mudanças feitas na legislação eleitoral com o objetivo de aprimorar a representação popular e diminuir a fragmentação.
Entre elas, está o fim das coligações para cargos proporcionais, que passou a valer em 2020. E a chamada cláusula de barreira, em vigor desde 2018.
Ela consiste na elevação gradativa, para os partidos, dos percentuais de votos válidos, da representação em número mínimo de unidades da federação e da quantidade de eleitos para a Câmara dos Deputados como forma de acessar recursos do fundo partidário e ter direito à propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV. O segundo fator é o encolhimento do período de campanha.
“Dois meses não são suficientes para a maturação das proposições das candidaturas junto ao eleitorado. As campanhas a jato dão vantagem para os que já estão nos cargos. E são um prato cheio para a desinformação e o uso das redes sociais, por parte dos eleitores, para tomar decisões políticas.”
Sem ênfase na campanha
Desde o ano passado, analistas políticos e consultores em marketing eleitoral anteviam que a preocupação com a preservação do meio ambiente e a necessidade de enfrentamento às mudanças climáticas pautariam as eleições municipais de 2024.
As apostas se intensificaram após o RS passar por três eventos extremos em poucos meses, sendo arrasado no último, em maio deste ano. E, na sequência, diferentes estados registrarem recordes históricos de temperatura e de o Brasil inteiro padeceu sob as consequências de queimadas em áreas distintas, a maior parte delas provocadas pela ação humana.
Para surpresa dos analistas, contudo, o meio ambiente e o clima passaram longe de ganhar destaque no debate eleitoral como um todo. E, mesmo no RS, não impactaram os humores do eleitorado na dimensão estimada.
A configuração pode ser explicada, assegura a professora do programa de pós-graduação em Ciência Política da Ufrgs Sofía Vizcarra Castillo. Ela coordena o projeto “As atitudes e valores sobre mudança climática e transição energética na América do Sul”. E integra o World Values Survey (Pesquisa de Valores Mundiais) – Brasil, grupo internacional de pesquisadores que investiga questões globais como confiança política, mudanças climáticas e tolerância social.
“A questão ambiental é um objeto político complexo, que tem o que chamamos de problema de atribuição. Nossas pesquisas mostram que 96% dos brasileiros acreditam que há mudanças climáticas em curso. Mas, até certo ponto, são céticos quanto às causas. Existe a ideia de que podem ser naturais ou de que, em eventos que ocorreram, não havia o que pudesse ser feito para prevenir”, explica Castillo.
Conforme os levantamentos, é mais comum a população apontar uma responsabilidade individual ou uma responsabilidade difusa, atribuindo os problemas a interesses econômicos ou a grandes grupos. Dificilmente as pessoas associam meio ambiente e clima à política ou fazem uma conexão direta a seu prefeito, por exemplo. Da mesma forma, não percebem necessariamente que esquerda ou direita tenham posição muito diferente em relação aos temas.
“Acreditam, inclusive, que as soluções não devem passar pela política. Isto faz com que o momento eleitoral ainda não seja percebido como oportunidade importante para a resolução das questões do clima.”
Os brasileiros, indicam as sondagens, possuem preocupação genuína e até certa urgência em ver o tema ambiental como prioritário. Mas têm dificuldade em identificar quais medidas podem ter maiores impactos.
“Mesmo assim, o tema vai se impor como desafio para os eleitos. O Brasil está em uma região que vai sofrer efeitos no curto prazo. Há muito a ser feito em prevenção, adaptação, mitigação e resposta. Além disto, há Objetivos de Desenvolvimento Sustentável a serem cumpridos até 2030. Infelizmente, é possível que várias prefeituras não consigam atingir as metas de sustentabilidade e meio ambiente. Por isto, é necessário redobrar esforços. Não tem como deixar para o futuro.
