Segundo Veja, a conversa mais longa, de 50 minutos, foi gravada em janeiro, no gabinete de Tuma Jr. Nela, os interlocutores discutem a sucessão do ministro da Justiça, Tarso Genro, que deixaria o cargo em fevereiro. Abramovay revela desejo de trabalhar na ONU. Em tom de desabafo, afirma que já não conseguia conviver com a pressão de Dilma (supostamente, a então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff), e Gilberto Carvalho, em torno da produção de dossiês contra adversários. Para Abramovay, a nomeação de Luiz Paulo Barreto para a vaga de Tarso tornaria a pressão pior ainda, "pela falta de força política do novo ministro". Barreto é funcionário de carreira.
Com a saída de Tarso, Barreto foi designado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva para cumprir o mandato tampão. "Isso (o cargo) é maior que o Luiz Paulo (...) agora eles vão pedir (informações para dossiês) para mim... pedir para a polícia (federal)", desabafou Abramovay na ocasião, conforme a transcrição publicada.
Abramovay disse à revista que nunca recebeu pedido algum para fazer dossiês, não participou de suposto grupo de Inteligência da campanha de Dilma, nem teve de se esconder. Acrescentou que sempre exerceu funções públicas no governo desde 2003. Para o ministério, as revelações de Tuma seriam fruto de vingança do ex-secretário, demitido do cargo, em junho passado, sob a suspeita de envolvimento com o chinês Li Kwok Kwen, preso como chefe de um esquema de fraudes em importação de produtos eletrônicos, conforme série de reportagens publicadas pelo Estado em maio.
Ressentido, Tuma Jr saiu atirando: "A verdade virá à tona! Vão surgir fatos que vocês vão se arrepiar, aguardem", avisou, em entrevista, após ser exonerado por Barreto. O ex-secretário jurou inocência e afirmou que foi vítima de uma conspiração de setores mafiosos contra seu trabalho, com a participação de políticos e dirigentes do próprio governo. "Tem muita gente envolvida, políticos também", afirmou. "Vocês verão coisas cabeludas! Confio na Justiça, o tempo vai restabelecer a verdade", ameaçou.
Na reportagem, Tuma acusa também o diretor geral da PF, Luiz Fernando Corrêa, de fazer parte do esquema de pressões e de despachar ordens para proteger amigos e perseguir inimigos do governo diretamente do gabinete do Palácio do Planalto. Num dos diálogos publicados pela revista, o ministro Barreto discute com sua chefe de gabinete, Gláucia de Paula e Tuma, sobre o poder de Corrêa, que teria conseguido, entre outras coisas evitar o indiciamento de Gilberto Carvalho em investigações nas quais era acusado de envolvimento com ações criminosas. A Polícia Federal informou que não vai se manifestar.
Dilma nega e critica denúncia
A candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, rebateu as acusações em entrevista coletiva em São Paulo. “Eu nego terminantemente esse tipo de conversa às vésperas das eleições. Gostaria muito que houvesse, por parte de quem acusou, a comprovação e a prova de que alguma vez fiz isso”, reagiu Dilma. “É muito fácil, na última hora, na semana da eleição, criar uma acusação contra a pessoa sem prova alguma. É grave utilizar desses métodos nesta reta final.”
Sem mencionar nomes, Dilma criticou os responsáveis pela denúncia. "Acredito que algumas pessoas teriam alguma razão para fazer isso [levantar falsas denúncias]. Não me coloque no meio de práticas que eu não tenha relação alguma”.
Dilma e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fizeram neste sábado campanha política em duas cidades paulistas – Diadema e Carapicuíba. Em Diadema, houve uma caminhada. Em Carapicuíba, uma carreata. Além da primeira-dama Marisa Letícia, também participaram os senadores Eduardo Suplicy e Aloizio Mercadante, ambos do PT de São Paulo, e a senadora eleita Marta Suplicy (PT-SP).
Perguntado sobre a reportagem da Veja, o presidente Lula afirmou hoje que não leu a revista e, portanto, desconhecia as informações sobre supostos pedidos de elaboração de dossiês por parte de Dilma e Carvalho.
