O Correio do Povo segue com a série de entrevistas com quatro candidatos à vice-prefeitura de Porto Alegre com partidos com representação na Câmara dos Deputados. Em meia hora, a vice de Maria do Rosário (PT), Tamyres Filgueira, do PSol, avalia os desafios da cidade e destaca importância da participação popular. Thiago Duarte (União) e Raqueli Baumbach (Novo) serão os próximos entrevistados. Betina Worm (PL) foi a primeira entrevistada.
A seguir, os principais trechos.
Quem é Tamyres Filgueira?
Venho de uma família pobre. Durante muito tempo, nos faltava o básico, mesmo eles trabalhando dia e noite. Quem já passou fome sabe o quanto dói. Chegava no final do mês, meu pai e minha mãe tinham que escolher qual conta pagar. Com dificuldades, cresci achando que talvez meus pais não tivessem se esforçado o bastante. Quando entrei no movimento estudantil, comecei a entender como funciona a sociedade, ver que muitas dessas situações não tinham nada de naturais, eram consequência de políticas. Uma das tarefas nesse processo eleitoral é conscientizar o povo que não é só o voto, temos que fazer política todos os dias. Sou servidora pública na universidade graças às políticas públicas. Trabalhei na Carris como cobradora, profissão que me orgulho. O transporte público, hoje, é uma ferramenta de segregação do nosso povo.
Transporte público seria sua principal pauta?
Do jeito que está a cidade não tem como falar uma só. Tem a educação, onde houve casos de corrupção enquanto tem crianças sem creche. Nós, mães, mulheres, trabalhadoras, sabemos o quão importante é a creche para podermos sair pra trabalhar, estudar, procurar emprego sabendo que nosso filho está seguro e bem alimentado. A prefeitura não dá essa garantia hoje. Melo prometeu zerar as vagas nas creches e não fez. Assim como na saúde: a fila da espera para atendimento especializado é a maior da história de Porto Alegre e quem está morrendo na fila do SUS é o povo pobre.
Como começou a se envolver na política?
Eu saí da minha escola de ensino fundamental porque fui vítima de racismo e não queria continuar os estudos. Me sentia uma pessoa muito ruim porque todos falavam do meu cabelo, minha cor, do quanto eu era burra. Aí fui estudar no Julinho, comecei a ter contato com o movimento estudantil e comecei a entender que o que eu passava na infância não tinha nada de natural. Participei da luta das cotas, em 2007. Comecei a trabalhar em fábricas metalúrgicas e depois entrei na Carris. Logo no movimento sindical e negro, que estou até hoje. Também sou coordenadora-adjunta do Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas (Neabi) da Ufrgs.
Como foi a articulação para a formação da chapa com a Maria do Rosário?
Esta é uma eleição histórica. Primeiro, pela unidade desde o primeiro turno. É a primeira vez no município. Nas últimas eleições, PSol e PT saíram separados. Também por termos uma chapa formada por duas mulheres, entre elas uma mulher negra. Porto Alegre nunca teve uma prefeita mulher e hoje podemos eleger duas. Nós do PSol tivemos uma convenção onde 80% do partido votou no meu nome e, lá no início, no da Luciana (Genro). O partido queria uma mulher negra. Tive o apoio de todos os vereadores. Logo a Luciana comprou o debate e disse que precisamos colocar o povo e a população negra como parte dessa reconstrução. Tenho histórico na militância desde os 16 anos, no PSTU e depois no PSol. Essas referências me fizeram hoje estar ocupando esse espaço de luta e representatividade.
Lideranças de diferentes partidos se manifestaram contra a forma da escolha.
Entre nós está tudo resolvido. O povo que tinha algumas diferenças está na campanha a mil. O PSol sempre primou pelos espaços democráticos e eles foram usados para esse debate. Chegamos ao meu nome, o PT chegou ao da Maria e atingimos uma unidade programática.
Quais são os principais desafios de Porto Alegre?
Muitos. Temos que voltar a ser uma cidade que dê qualidade de vida para o nosso povo, que possa ser referência na sustentabilidade, fazer grandes debates e envolver a população. O principal desafio é fazer com que o nosso povo seja parte dessa reconstrução.
Quais os principais ativos da chapa? Como se diferencia?
Vou pegar um tema, a crise climática, e me referir ao Melo. A principal diferença, entre tantas outras, é nesse debate. Na convenção do Melo, o presidente do PL, que é do mesmo partido do Bolsonaro e da vice dele, disse que a crise climática é uma invenção da esquerda. O povo ficou desprotegido. Essa tragédia era anunciada. Os técnicos do Dmae falaram, os especialistas ambientais há muito tempo vêm falando e não houve a manutenção das comportas, casa de bombas, que poderiam ter evitado o impacto. Foi uma decisão política. Eles vão tratar com negacionismo e nós vamos tratar com seriedade.
Caso a chapa seja eleita e, daqui a quatro anos, quando sair uma matéria no Correio do Povo sobre como foi a gestão, o que gostaria de ver na manchete?
Porto Alegre é a capital da qualidade de vida. É a capital da sustentabilidade. É a capital das oportunidades. É onde o povo participa e decide. Aí conseguimos chegar nos nossos objetivos.
