O PSDB realizou convenção nacional e deliberou para levar ao Podemos a proposta de incorporar o partido. Nesta hipótese, tucanos não poderiam migrar para outras legendas em 2025 sem perderem seus mandatos – ao contrário do que ocorreria numa fusão, ou se fosse o Podemos que incorporasse o PSDB.
Por isso que o PSDB, hoje com menor tamanho que seu futuro aliado, propõe a incorporação. Há um temor dentre os tucanos que ocorra uma migração em massa a outras siglas – principalmente ao PSD, do governador Eduardo Leite.
A migração de líderes tucanos do Rio Grande do Sul para o partido de Gilberto Kassab teria sido um dos pontos combinados nas conversas entre Leite e o presidente nacional do partido enquanto sua filiação ainda era negociada.
Foi o que aconteceu em Pernambuco: a governadora Raquel Lyra migrou para o PSD e levou consigo todos os 59 prefeitos tucanos do Estado.
Uma fusão abriria janela para que isso ocorra também com vereadores, deputados estaduais e federais de todos os estados.
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Tamanho do ninho tucano no RS
No RS, os tucanos contam com 35 prefeitos, dois deputados federais e cinco deputados estaduais.
Presidente do PSDB gaúcho e vice-presidente nacional, a secretária de Relações Institucionais do governo estadual e ex-prefeita de Pelotas, Paula Mascarenhas, minimiza as possibilidades de saídas.
“Questão de incorporação e fusão não muda muita coisa. O que muda mais é para onde abre janela. As conversas seguem. Não se pode dizer que vai ser impossível uma fusão. A janela existe. Se não for agora, será no ano que vem. Não é uma questão de impedir pessoas. E assim como pessoas podem sair do PSDB, outras podem chegar. Existe um processo. E não é exclusivo do PSDB. Outros partidos, até maiores que o PSDB hoje, estão tratando de fusões, federações”, avaliou.
Apesar de próxima do governador, Paula Mascarenhas afirmou que permanecerá no partido.
“O partido vem discutindo essa aproximação desde o ano passado. É mais uma etapa no processo burocrático, não foi uma etapa política. Pelo que entendo, isso tem sido amadurecido pelas duas direções nacionais. O PSDB faz esse movimento buscando fortalecimento, sobrevivência”, afirmou Paula.
Segundo o presidente do PSDB-Porto Alegre, Moisés Barboza, que compõe a executiva nacional, uma fusão não estaria no horizonte tucano.
“Conforme o PSDB de Porto Alegre vem alertando há tempo, não existe janela este ano para saída do partido. Para ninguém. Não vai ter fusão, o indicativo da nacional não foi por fusão. É um equívoco histórico quem afirma que o PSDB estaria deixando de existir, venho reafirmando isso categoricamente. Quem conhece a história do PSDB, sabe que isso é uma narrativa”, declarou.
Podemos ainda avalia cenário
Essa convicção, contudo, não é fruto de acordo com o Podemos. “O PSDB está aprovando suas propostas ao Podemos. Isso vai ser discutido com nossa direção nacional. Essa questão não está pacificada. Há também uma questão em relação à federação (que o PSDB tem) com o Cidadania. Segundo as informações que recebemos, a federação barra uma fusão”, alerta o presidente estadual do Podemos no RS, Everton Braz.
No Podemos, não há receio de migração em massa. “Não temos uma preocupação latente quanto a migrações. Pode acontecer de um ou outro companheiro nosso aproveitar essa janela de oportunidade, de forma isolada. Mas não há um movimento. Não há preocupação de grandes migrações”, analisa Braz.
União pode ser uma força de centro no RS
Apesar das divergências sobre o que deve ser acordado entre as siglas, a expectativa de ambas é que um novo partido possa consolidar uma força de centro no Estado.
“Na união dos dois partidos, surge uma força de centro muito significativa. Primeiro, pelo número de vereadores. Base de 400 e poucos no Estado. Na Assembleia Legislativa, iríamos para 7 deputados. O que conta mesmo seria perspectiva para eleição de 2026. As duas forças juntas têm condição de fazer uma boa bancada na Assembleia, falando de seis deputados”, opina o dirigente do Podemos-RS.
Entenda o que decidiu o PSDB em Brasília
O PSDB convocou convenções nacionais para oficializar sua posição nas negociações para uma união com o Podemos. A opção era: "Você aprova a incorporação do Podemos ao PSDB?".
Com 201 votos sim, dois votos não e duas abstenções, o partido tirou indicativo para incorporar a outra legenda. Essa decisão pretende evitar uma debandada de tucanos ainda em 2025 e ampliar margem para negociações internas antes da janela partidária do ano que vem.
Uma fusão entre dois partidos libera os filiados de ambos a buscarem outras agremiações sem perderem seus mandatos. Em uma incorporação, a janela abre apenas ao partido incorporado. Os filiados do que incorpora devem permanecer ou conviver com a possibilidade de perderem seus mandatos nos legislativos. A regra não vale para cargos executivos como prefeitos, governadores e presidente.
A forma como os tucanos comunicaram sua decisão desagradou profundamente lideranças do Podemos. Apesar disso, as negociações devem seguir ao longo das próximas semanas.
Autonomia para a executiva nacional tucana
Outra decisão importante tomada na convenção foi a autorização para que a executiva nacional do PSDB tenha autonomia para tomar decisões sobre o tema, após levar a proposta ao Podemos.
“Não foi decidida incorporação nenhuma. Foi retirado o indicativo do que o PSDB nacional pensa que é o melhor caminho, que é a tese de incorporação. O item importante é que foi aprovado plenos poderes para que a executiva nacional trate qual será o caminho ideal da formatação da união com o Podemos. É um empoderamento da executiva, com aprovação de 99% de que avance essas tratativas”, afirmou o presidente do PSDB-Porto Alegre, Moisés Barboza.
Cláusula de barreira e recursos
Para além de uma aliança política, uma união entre as duas siglas reflete em números. Primeiro, pois facilita a ambos superar a cláusula de barreira. Sem isso, um partido pode conviver com grandes limitações como não receber recursos do fundo partidário, eleitoral e não ter obrigação de ser chamado para debates eleitorais.
Uma aliança pode aumentar exponencialmente os números de uma nova agremiação. “O fundo eleitoral dos dois partidos juntos daria algo para mais de R$ 400 milhões. O tempo de TV, teríamos algo em torno de 32, 33 segundos. Ficaríamos próximos do MDB, do Republicanos”, prevê o presidente estadual do Podemos, Everton Braz.
Hoje, ambos juntos reuniriam 7 senadores e 28 deputados federais. Um novo partido teria o tamanho do União Brasil e do PP no Senado, sendo o quarto maior da Casa Alta. Na Câmara de Deputados, ocuparia a sétima posição.
Foco deve ser nas proporcionais
Eleitoralmente, nas eleições ao governo do Rio Grande do Sul, pouco muda. O novo partido teria a tendência de acompanhar a decisão do conjunto de partidos que deve encaminhar o nome do vice-governador Gabriel Souza (MDB) para a sucessão de Leite no Palácio Piratini.
“Qualquer decisão sobre o ano que vem vai passar pelas instâncias. Não tenho outorga para falar em nome de um partido que ainda não surgiu. Falo pelo PSDB. Disse ao presidente nacional (Marconi Perillo) que essa agenda do governo do Estado é uma agenda construída pelo PSDB e outros partidos. É nossa visão do Estado isso que está em curso. Somos coerentes. Não nos dobramos aos polos. Acreditamos nesse projeto que está em curso”, afirmou Paula Mascarenhas, presidente tucana no RS.
Para o presidente estadual do Podemos, nacionalmente, o foco deve ser nas proporcionais. ele também vê com bons olhos a participação em uma hipotética chapa de centro encabeçada pelo governador gaúcho Eduardo Leite (PSD).
“No Podemos, não temos trabalhado com essa perspectiva (de candidatura própria ao Palácio do Planalto). Se o Leite ficasse (no PSDB), seria natural. Com o surgimento de um novo partido, não vejo, pelo menos por enquanto, nos quadros, alguém disposto. Os partidos deveriam focar em eleger maior número de deputados federais para superar a cláusula de barreira. Não quero dizer que não possamos fazer uma composição com o próprio Eduardo Leite”, projeta Everton Braz.