O candidato à Presidência derrotado Flávio Bolsonaro (PL) divulgou nesta quarta-feira, uma carta em que inicialmente se autoproclamava o "presidente eleito do Brasil". Depois, ele recuou e alterou o trecho para dizer que é o "líder" do país.
CARTA À NAÇÃO BRASILEIRA 🇧🇷
— Flávio Bolsonaro (@FlavioBolsonaro) October 28, 2026
28.10.26 pic.twitter.com/QqOGZuF8G0
A primeira versão divulgada trazia na abertura: "dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como o verdadeiro presidente eleito do Brasil". Posteriormente, foi alterado para "dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como líder do Brasil".
Versões do documento
Em sua primeira versão divulgada, a carta trazia um brasão escrito "Estados Unidos do Brazil", nome adotado após a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. Depois, Figueiredo enviou outra versão, com o brasão que dizia "República Federativa do Brasil", nome atual do Brasil.
Alegações de fraude eleitoral
Flávio acusa, sem provas, o Supremo Tribunal Federal (STF), em conluio com o PT, de ter promovido uma fraude eleitoral, sob o argumento de que a votação continuou mesmo com parte das urnas lacradas.
"Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno", disse.
Ele não cita, porém, que sua campanha também entrou com um pedido para prorrogar o horário de votação em 17 cidades, alegando que chuvas teriam atrapalhado o deslocamento de eleitores.
A fuga do País
Flávio se descreve como perseguido político e vítima de uma caça às bruxas e comenta o fato de ter fugido do Brasil. "Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime".
O candidato do PL se compara a nomes como Rui Barbosa, Charles de Gaulle, Juan Guaidó, Edmundo González e María Corina Machado e diz que liderará a oposição dos Estados Unidos.
"Liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr ... Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil", continuou.
Ele ainda agradece aos presidentes da Argentina, Javier Milei, e dos Estados Unidos, Donald Trump, pela ajuda - Flávio se deslocou para a Argentina para, de lá, partir para solo norte-americano. O senador também se referiu a Rogério Marinho (PL-RN) como seu "candidato à Presidência do Senado".
Rejeição ao resultado eleitoral
No domingo, Flávio Bolsonaro afirmou ser impossível reconhecer o resultado do 2º turno e que pediria anulação do pleito. No dia seguinte, após conversa com sua equipe jurídica, no entanto, sua campanha afirmou que ele havia desistido de sustentar essa tese. Na terça, Flávio fugiu do País, apesar da intimação da Polícia Federal para que não deixasse o Brasil.
- Flávio recebe visto temporário de “razões humanitárias” de um ano para entrar nos EUA
- Advogado diz que Flávio descumpriu combinado de entregar passaporte e alega surpresa com ida aos EUA
- “A gente falhou”, diz Carlos Bolsonaro em vídeo de desculpas para o pai
- Partido de Flávio Bolsonaro reconhece resultado das eleições
- Caso Flávio Bolsonaro provoca embate entre deputados na Assembleia Legislativa do RS
A íntegra da carta
Veja a íntegra da carta de Flávio Bolsonaro:
Dirijo-me ao povo brasileiro e à comunidade internacional como líder do Brasil.
Antes de mais nada, queria agradecer ao Presidente Milei, pela coragem, senso de justiça e legalidade, ao Presidente Trump e ao maravilhoso povo americano por me acolher. Essa é uma terra de liberdades e irmãos que comungam dos mesmos valores das boas pessoas do meu País. O Presidente Trump é um grande defensor da liberdade de expressão.
Na noite de domingo, vi estarrecido uma fraude eleitoral se concretizar diante dos meus olhos. A atuação ilegítima e ilegal do ex-advogado do Lula permitiu que uma impossibilidade matemática se concretizasse e Lula acrescentasse mais de 10 milhões de votos do primeiro para o segundo turno.
Uma decisão do STF, tomada por cima da competência do TSE, estendeu a votação no apagar das luzes, e a ordem só chegou depois do fim do horário legal, quando as urnas já estavam encerradas. Eleitores ficaram submetidos a regras diferentes. Até agora, o TSE se limitou a defender a prorrogação do horário e não há sequer uma única resposta crível.
E as nulidades não são o único problema. Ao longo de toda a campanha, houve abuso de poder político, econômico e uso da máquina pública em favor da reeleição. São fatos graves, expressamente vedados por lei, que justificam a cassação da chapa Lula-Alckmin.
A resposta do regime ao meu questionamento veio rápida. Como num plano previamente elaborado, sete minutos após essa repugnante fraude eleitoral, o juiz, implicado em um imenso escândalo de corrupção e diretamente citado no inquérito que usou para tentar sequestrar meus passaportes, pôs em andamento a máquina de perseguição política do regime. Ele provavelmente estaria preso se não tivessem impedido a minha posse.
Sendo impedido de origem e completamente suspeito para iniciar qualquer procedimento judicial contra mim, a sua mera participação em atos processuais mostra o tamanho da arbitrariedade e ilegalidade em andamento.
Não era minha intenção deixar minha pátria, mas eu sei exatamente onde isso vai dar. Isso é o manual clássico de qualquer golpe de Estado.
A perseguição política que começou com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, espalhou-se para milhares de outros brasileiros patriotas comuns e até mesmo cidadãos americanos. Ela tem um único objetivo: silenciar qualquer pessoa que não concorde com o regime de exceção instaurado no Brasil, através de uma Suprema Corte aparelhada pela organização criminosa petista.
Para deixar claro, não existe nenhum mandado de prisão contra mim, porque eu não cometi nenhum crime. O que existe é uma caça às bruxas politicamente motivada, que visava me colocar como refém e objeto de chantagem para proteger os juízes corruptos da Suprema Corte do 2 impeachment.
Eis o roteiro da perseguição: apreensão de passaporte, tornozeleira eletrônica, censura, prisão domiciliar, julgamento de fachada e, finalmente, condenação política.
Não vou submeter minha família a isso e meu País não merece passar novamente por este vexame internacional.
Diante da instrumentalização política da Justiça no Brasil, trouxe minha família para os Estados Unidos, onde estamos em segurança. Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Trump e ao governo americano por nos acolherem e nos darem a segurança jurídica que não temos mais no Brasil.
Quero deixar claro: não fugi do Brasil, eu saí pelo Brasil, saí de um regime de exceção para poder ser o líder que o meu povo merece, pois calado, preso e censurado, como meu pai está, eu não poderia ser essa liderança e seríamos entregues ao teatro institucional de uma oposição castrada e controlada pela Suprema Corte repleta de serviçais do regime.
Não sou o primeiro a ter que lutar pelo próprio País longe dele. Rui Barbosa foi para o exílio por enfrentar o arbítrio de Floriano Peixoto e de lá seguiu defendendo a lei e a liberdade.
Charles de Gaulle liderou a França Livre a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy, e voltou para libertar o seu País. José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York.
Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o País por enfrentar a ditadura chavista, e María Corina Machado, mesmo perseguida, recusou-se a legitimar a fraude e se tornou um símbolo mundial da resistência democrática. Todos eles foram tratados como criminosos pelos regimes que enfrentavam. A história os chamou de outra coisa.
Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil.
Quero dizer, não só para os meus 60 milhões de eleitores, mas para o povo brasileiro, que eu sou o líder do Brasil e os criminosos que roubaram a eleição do Brasil são parte de uma organização criminosa que implementou uma tirania.
Vocês que almejavam a mudança, e eu não vou abandoná-los, eu serei a voz e a liderança livre da nossa nação.
Às instituições brasileiras, faço um apelo: essa sandice precisa acabar. O Brasil vive hoje um caos jurídico, de corrupção e de perseguição política, em que a oposição tem medo de falar e a família de um ex-presidente é tratada como inimiga do Estado. Nenhuma nação consegue viver em paz ou prosperar assim.
Ainda há tempo de restabelecer o equilíbrio entre os Poderes e devolver aos brasileiros a confiança que perderam.
À comunidade internacional, peço: não normalizem o que está acontecendo no Brasil. O que acontece hoje no meu País não é normal e não pode ser tratado como normal.
Aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger, e em especial ao meu candidato à presidência do Senado, Rogério Marinho: sei que hoje vocês não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política. Por isso, liderarei a oposição daqui. Direi o que vocês, aí, não podem dizer, e assumirei os riscos que vocês não podem correr.
E a você, que votou em mim e sonha com a mudança: não estamos derrotados e não estamos sozinhos. Este é apenas o começo da nossa luta pela democracia, pelos direitos humanos e pela liberdade no Brasil.
Nos próximos dias, vou me dirigir regularmente ao povo brasileiro, e apresentaremos uma estratégia para mobilizar a oposição e o imenso apoio popular que temos, por todos os meios pacíficos e legítimos, para impedir que Lula consolide um regime ditatorial no Brasil.
Peço a cada um que permaneça firme e jamais desista.
Saí do Brasil, mas não abandonei os brasileiros. Esta luta não terminou no dia 25 de outubro. Ela só termina quando o Brasil voltar a ser um País livre. E esse dia vai chegar.
Que Deus abençoe o Brasil.
Flávio Bolsonaro