Política

Julgamento do mensalão reabre debate sobre a Era Lula

Vários dos 38 políticos que serão réus a partir de quinta eram próximos ao ex-presidente

O histórico julgamento do mensalão do Congresso, que começa nesta quinta no Supremo Tribunal Federal (STF), reabre o debate sobre o momento mais difícil dos dois governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pode ter sua imagem afetada caso surjam provas contra ele. Lula, que recebeu 12 prêmios internacionais e 12 títulos de doutor honoris causa desde que deixou a Presidência, em 2010, não está entre os 38 acusados, mas muitos deles são muito próximos ao ex-presidente. De certa forma, a era Lula também está em julgamento.

Desde que vieram à tona, em 2005, as denúncias de subornos pagos por integrantes do PT a políticos da base governista, Lula negou que estivesse envolvido ou ciente do caso. Ele chegou a dizer que se sentiu traído e a pedir desculpas publicamente. No entanto, o advogado do ex-deputado federal Roberto Jefferson (PTB), que denunciou o escândalo e foi cassado, já afirmou que durante o julgamento no STF perguntará por que Lula não está no banco dos réus.

“Falar é uma coisa, apresentar provas é outra”, argumenta o analista político César Alexandre Carvalho, da consultoria CAC, de Brasília. “Lula se tornou uma figura mítica, é o conto de Cinderela da política, o trabalhador que se tornou presidente de um país grande, e isso não vai mudar. Teriam de ligá-lo diretamente ao mensalão com provas, documentos de que orquestrou o esquema para afetá-lo”, concorda André Pereira, cientista político da consultoria Prospectiva.

Consultado sobre o tema, o Instituto Lula, mantido pelo petista, optou por não alimentar polêmicas. A entidade indicou que “o ex-presidente não está incluído na ação, de forma que não pode ser afetado, e não comentará o julgamento do Supremo Tribunal Federal”.

Lula sobreviveu ao escândalo, que fez o seu governo cambalear, mas perdeu parceiros importantes, como seu chefe de gabinete José Dirceu, um dos principais acusados. Conseguiu a reeleição em 2006 e, no final de 2010, transferiu a faixa presidencial para sua escolhida, a presidente Dilma Rousseff.

Em 2009, o presidente norte-americano Barack Obama considerou Lula “o político mais popular do planeta”. No último dia de 2010, Lula deixou a Presidência, após oito anos de mandato, com um índice recorde de aprovação, de mais de 80%. “A questão é: Lula continua blindado? Mantém aquele ‘efeito teflon’, uma vez que está fora do poder? Sim, existe um risco para a sua imagem e liderança, para a sua figura quase mítica, mas ainda não podemos dizer quão grande é esse risco. Isso também dependerá de quantos forem condenados”, afirma Pereira.

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