Para o dentista Francisco Tabajara, 52 anos, o julgamento do mensalão começou de forma negativa, pois foram sete anos de atraso. Ele acredita que o STF precisa mudar. “Eu olhei o Judiciário, a Corte e vi muita decadência”. Tabajara se disse decepcionado com a falta de mobilização da sociedade. “Pensei que tinha mais gente aqui. Acho decepcionante. Os estudantes, principalmente de direito, deveriam estar aqui. As pessoas só se mobilizam por salário”, criticou.
A estudante de ciências sociais da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) Laila Tavares, 21 anos, veio a Brasília apenas para acompanhar o julgamento. Ela também se surpreendeu com a falta de manifestantes em frente ao STF. “Achei que vinha disputar lugar (em frente à grade de segurança que isola a sede)”. Para ela, os 38 réus do mensalão devem ser condenados. “Se (o processo) acabar em pizza, o que é justiça?”.
Em meio a essa apatia, um protesto bem humorado chamou a atenção das pessoas que estavam na Praça dos Três Poderes. O vigilante Uziel dos Santos, 36 anos, vestiu uma cueca cheia de dinheiro por cima da calça. “Estou representando um assessor do PT que guardou o dinheiro na cueca”. Em Brasília há oito anos, o alagoano se diz apaixonado por política, no entanto, ficou um pouco desacreditado depois do episódio do mensalão. “Fiquei desesperançoso. Acredito que o STF vai punir severamente esses corruptos. Se absolverem, vai ser uma vergonha para o Brasil”, considerou.
O mensalão
O STF começou a julgar nesta quinta-feira o processo do mensalão, o maior escândalo político do governo Lula. Segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF), o mensalão foi um esquema montado no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para comprar apoio de parlamentares e saldar dívidas de campanha com dinheiro não contabilizado, o chamado caixa 2. A acusação entende que pelo menos quatro partidos – PT, PP, PL (hoje PR) e PTB – foram beneficiados com o esquema, além da contrapartida para empresários e funcionários de instituições financeiras.
Trinta e oito nomes são réus no processo, entre eles, o ex-ministro e deputado federal já cassado José Dirceu, o ex-deputado federal e ex-presidente do PT José Genoino, o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares, o ex-presidente do PTB Roberto Jefferson - que denunciou o esquema em 2005 -, e o publicitário Marcos Valério, que seria o responsável por fazer o transporte das propinas. A denúncia é referente aos crimes de corrupção ativa e passiva, evasão de divisas, formação de quadrilha, gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e peculato.