A 14 meses das eleições gerais de 2026, o vice-governador Gabriel Souza (MDB) colocou de vez sua pré-campanha ao cargo de governador na rua e vem negociando pessoalmente com lideranças de outras siglas para tentar manter ao máximo a atual coalizão de sustentação do Executivo. Mas movimentações das últimas semanas nos partidos hoje aliados são motivo de atenção entre articuladores emedebistas.
Os sinais mais visíveis de rebeldia na base vêm do PP. O partido ventila candidatura própria ou aliança com o PL, e a bancada na Assembleia Legislativa fechou, e manteve, posição contrária à concessão do Lote 2 das rodovias estaduais, uma das prioridades do Executivo em 2025. No Republicanos, parte dos deputados se tornou crítica da administração estadual, em temas como saúde, serviços prestados por empresas privatizadas e pedágios. Os focos de insubordinação se estendem, em menor medida, ao PDT e ao Podemos.
Nas tratativas para manter a atual coalizão, o MDB já está considerando que, na prática, deverá enfrentar deserções, em função da polarização entre bolsonaristas e petistas.
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A avaliação é de que parcela dos bolsonaristas que integram a base do governo hoje, por exemplo, tende a aderir à candidatura do PL. E o objetivo é que esta parcela seja a menor possível.
O presidente estadual do MDB, deputado Vilmar Zanchin, admite que a manutenção da aliança atual demanda esforço, mas também considera parte dos movimentos como uma etapa do jogo político que antecede as eleições. “O centro se colocará com o projeto em curso e, a partir de abril, o leque de partidos que está no governo vai ter que começar a se posicionar de fato. Neste momento, é natural que todos se coloquem como protagonistas. Isso não nos surpreende”, resume.
O dirigente não explicita a estratégia emedebista, mas o PP tem, segundo interlocutores de Gabriel, prioridade absoluta nas negociações para a composição da chapa majoritária e a renovação da aliança em 2026. Por uma série de motivos. Aumentou sua força no país inteiro após formar uma federação partidária com o União Brasil. Elegeu o maior número de prefeitos no RS no pleito do ano passado. Tem capilaridade em todo o Estado. E, sozinho, a maior bancada aliada na Assembleia Legislativa.
Estratégia inclui 2030 e segunda vaga do Senado
Os emedebistas, que vão se apresentar na eleição ao governo do RS em 2026 como uma chapa de centro inclinada para a direita, querem que pelo menos internamente fique amarrado o quanto antes o acordo com o PP, de forma a que os progressistas parem de flertar com uma candidatura própria (mesmo que de público sigam falando dela), ou que fatias de correligionários ‘se encantem’ com uma frente de direita liderada pelo PL.
Para convencer o PP, os negociadores de Gabriel Souza destacam na mesa o fato de que o vice, que assumirá o governo em abril, quando Eduardo Leite (PSD) se afastar para disputar outro cargo, já estará concorrendo à reeleição em 2026. “Isso significa que, para o PP, é muito mais garantido chegar ao Piratini em 2030 estando conosco do que com o PL. O candidato do PL, se ganhasse em 26, concorreria com certeza à reeleição em 30”, argumenta um dos emedebistas à frente das tratativas.
Além da possibilidade da cabeça de chapa para o governo estadual em 2030, lideranças emedebistas já admitem em conversas reservadas que podem tratar do aumento do espaço do PP na composição da majoritária em 2026. Nesse cenário, além de indicar o vice, o PP poderia também ficar com a segunda vaga da chapa para o Senado, mesmo que indique para ela o ex-ministro Onyx Lorenzoni. A primeira está reservada para Leite.
O MDB observa com atenção os desdobramentos da filiação de Onyx ao PP nesta semana, e não descarta a possibilidade de que ele se apresente para o Senado, mesmo que, a princípio, tenha sido divulgado que deva concorrer a uma cadeira na Câmara dos Deputados. Se a possibilidade se concretizar, o MDB vai argumentar que o antagonismo se restringe a Leite e Onyx, que protagonizaram um embate corrosivo em 2022. Onyx já enviou emissários a Gabriel para reforçar que, sim, é adversário de Leite, mas, no MDB, possui “velhos e grandes amigos”, e um histórico de relações cordiais.