Terminado o segundo turno das eleições nacionais, já são intensas dentro dos partidos as reorganizações com os olhos em 2028 e, principalmente, 2030. No RS, entre os que mais se movimentam está o MDB, onde os primeiros capítulos de uma nova disputa interna começam a ser escritos. Ela envolve diretamente o deputado federal reeleito Alceu Moreira e o prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo. Nenhum deles admite de público, mas Alceu sonha disputar o Senado em 2030 e Melo quer concorrer a governador. Nos cálculos que começaram a ser feitos pelos grupos de ambos, contudo, os dois não cabem na mesma chapa, e a constatação desencadeará ações visíveis a partir dos próximos meses.
Derrotada na disputa estadual, a legenda que no passado foi resistência à ditadura e protagonista do movimento das Diretas Já, em solo gaúcho vem promovendo há alguns anos uma guinada “à direita”, movimento no qual surfam justamente Alceu e Melo, apontados por correligionários como alguns dos líderes mais ‘bolsonarizados’.
O prefeito se elegeu duas vezes tendo o PL como principal aliado e, já antes da reeleição, em 2020, adotou as bandeiras do bolsonarismo. A aproximação do deputado é mais antiga. Remonta ao pleito de 2018, e se intensificou a partir do governo de Jair Bolsonaro, iniciado em 2019.
Nas eleições deste ano, a direção era observada tanto em relação à corrida presidencial como à estadual. Nesta, no primeiro turno, sob diferentes argumentos, nem o deputado e nem o prefeito escondiam a proximidade com o candidato do PL ao governo, mesmo que o MDB tivesse seu próprio postulante ao Piratini, o vice-governador Gabriel Souza.
Ela se consolidou publicamente logo após o primeiro turno, quando bancadas, dirigentes gaúchos e o candidato derrotado ao Senado pelo MDB, Germano Rigotto, se apressaram a declarar apoio ao então candidato do PL na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro. O impacto imediato da derrota de Flávio e do que ele fez depois, garantem emedebistas que participam das articulações, é um afastamento ‘suave’. É a partir dele que Alceu e Melo passarão a se movimentar em sentidos distintos.
O deputado vai colocar em curso sua estratégia para o Senado seguindo aliado ao PL. Por este desenho, o MDB considera que o governador eleito Luciano Zucco (PL) tentará a reeleição em 2030, e Alceu pode preencher a única vaga disponível para o Senado, cabendo a outro apoiador o lugar de vice, hoje ocupado pelo PP. O deputado defenderá o MDB como uma sigla de centro-direita que tem no DNA, conforme suas próprias palavras, “a liberdade econômica e o empreendedorismo, associados a uma profunda responsabilidade social.”
Já a premissa de Melo é outra: a de que um apoio à reeleição de Zucco significaria o fim de suas próprias pretensões para o Piratini. Além do resultado das urnas, o prefeito também está atento ao movimento das ruas, que reuniram multidões contra a candidatura de Flávio Bolsonaro na Capital no segundo turno da disputa. Melo vai cada vez mais se apresentar como um político de centro, em uma nova metamorfose.
Não está nos planos do prefeito apoiar a candidatura do PL à prefeitura de Porto Alegre em 2028, vaga para a qual desponta hoje a deputada estadual eleita Nádia Gerhard. Nas contas dos interlocutores do prefeito, o MDB pode até vir a montar para 2030 uma chapa com ele para o governo e Alceu para o Senado, mas essa composição inclui um trabalho árduo, já que limita bastante a formação de alianças consideradas capitais para a vitória.
No contexto atual, já há alas do MDB ressalvando que o apoio tão explícito a Flávio Bolsonaro no segundo turno se deveu muito mais a pressões regionais e ao estilo contundente do PL, de classificar como ‘lulista’ quem não se posicionasse de forma clara, do que a um alinhamento ideológico propriamente dito. “A polarização acabou pressionando o partido, nos municípios isso ficou difícil de segurar, mas nossa trajetória é toda pelo centro democrático”, argumenta em reservado uma liderança estadual em ascensão.
Nacionalmente, após o resultado das eleições proporcionais, o MDB reavivou a ideia de formar uma federação partidária com outras siglas. São três as possibilidades na mesa. O PSD, a federação PSDB/Cidadania e o Republicanos.