Política

Moro adota regra usada contra máfia na Itália ao restringir visitas a presos

Transferência de lideranças do PCC acendeu alerta no Ministério da Justiça e Segurança Pública

Especialista afirmou que falta estrutura no Brasil para que presídios acatem as novas regras
Especialista afirmou que falta estrutura no Brasil para que presídios acatem as novas regras Foto : Marcelo Camargo / Agência Brasil / CP

As novas regras de visita a detentos de prisões federais envolvidos em organizações criminosas violentas, editadas na terça-feira pelo ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, têm como inspiração o modelo penitenciário italiano, adotado no combate a organizações mafiosas. "Essa é a inspiração, mas falta a estrutura de uma polícia penitenciária e um Código penitenciário, como na Itália", afirmou o magistrado aposentado Walter Maierovitch, especialista em combate ao crime organizado.

A transferência de Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, e outras 21 lideranças do Primeiro Comando da Capital (PCC) para presídios federais acendeu o alerta vermelho dentro do Ministério da Justiça e Segurança Pública e nas forças de segurança federais. A equipe de Moro acompanhou de perto a operação e monitora a possibilidade da facção tentar retaliar. A ordem é ter prudência e acompanhar todos os desdobramentos.

Segundo as novas regras editadas na terça, a visita em prisões federais só poderá ocorrer em pátio próprio, em parlatório e por videoconferência. No entanto, quando se tratar de presídio federal de segurança máxima, as visitas serão restritas ao parlatório e por videoconferência, "sendo destinadas exclusivamente à manutenção dos laços familiares e sociais, e sob a necessária supervisão".

A portaria, publicada na terça-feira em edição extra do Diário Oficial, diz que a restrição não se aplica aos presos com perfil de réu colaborador ou delator premiado. Nesse caso, será permitida a visita social nos pátios. Quanto à visita no parlatório, ela será assegurada ao cônjuge, companheira, parentes e amigos, separados por vidro, com comunicação por meio de interfone. Essa modalidade de visitação deverá ter agendamento prévio e duração máxima de até três horas e será  realizada semanalmente, em dias úteis, no período vespertino, das 13h às 19h30min, permitindo-se para cada preso o acesso de até dois visitantes, sem contar crianças.

A norma, que revoga determinações anteriores de 2016 e 2017, estabelece ainda que o preso que, no período de 360 dias ininterruptos, apresentar ótimo comportamento "fará jus, uma vez ao mês, à visita social em pátio de visitação, sob autorização do diretor do estabelecimento penal federal, devidamente fundamentada no relatório da autoridade disciplinar". O objetivo é quebrar a cadeia de comando dentro da organização criminosa e criar oportunidades de investigação com possíveis integrantes interessados em colaborar com a Justiça.

Terrorismo

Walter Maierovitch observou as semelhanças com o código específico italiano. Para os presos acusados de terrorismo e de delitos mafiosos, o código determina restrições às visitas intimas e contatos com familiares. Tudo deve ser feito por meio de vidro, em parlatório. As conversas são gravadas. "A única exceção é a comunicação com o advogado, que é como o segredo de confessionário", afirmou o jurista.

De acordo com ele, a exemplo do que foi estipulado por Moro, também na Itália o preso pode ter sua forma de cumprimento melhorada como prêmio ao bom comportamento àqueles criminosos que decidem se dissociar da organização criminosa e tem esse ato reconhecido. Ao mesmo tempo, a polícia penitenciária mantém o trabalho de vigilância e acompanhamento de visitas e parentes dos presos. "Até os diretores e funcionários de presídios são investigados."

Para Maierovitch, no entanto, essas regras todas devem estar previstas em legislação própria, a fim de evitar contestações legais e deixar claras as condições a que devem ser submetidas cada preso.