Gestor nato, político exemplar e carinhoso com os seus. Esses foram alguns dos elogios utilizados por políticos, da esquerda à direita, e amigos próximos para descrever o ex-prefeito, vereador e deputado, Guilherme Socias Villela. O político faleceu nesta quinta-feira, aos 90 anos, em Porto Alegre, cidade que comandou por oito anos. Com um extenso currículo de realizações, o ex-prefeito se tornou exemplo para aqueles que trabalharam na vida pública ao seu lado.
Tamanha sua influência que hoje o Centro Administrativo da prefeitura carrega seu nome. A homenagem foi proposta pelo prefeito da Capital, Sebastião Melo (MDB).“Ele foi um dos grandes prefeitos que a cidade teve. Realizou tantos feitos que tivemos a decisão acertada de homenageá-lo em vida, transformando o Museu do Paço e vindo aqui para o prédio que nomeamos de Centro Administrativo Guilherme Socias Villela. Que descanse em paz. Nossa solidariedade com familiares e com sua companheira de vida, a Ana Pellini, nossa Secretária da Fazenda. A vida é assim, a gente leva dela as contribuições que a deixamos na vida terrena e ele deixou muitas contribuições e a cidade tem muito orgulho dele”, afirmou Melo.
Outro que passou pelo Paço, o ex-prefeito José Fortunati (PV) também destaca as realizações de Villela. A relação entre ambos foi além da mera formalidade entre ex-prefeitos da Capital. Amigos, avalia que o legado de Villela foi “chave” para a Porto Alegre de hoje. “Eu conhecia bem o prefeito, tinha por ele uma relação de amizade bastante intensa há muitos anos. Uma figura muito agradável, de um trato humano diferenciado e, sem dúvida, um grande gestor. Indiscutivelmente, realizou transformações que foram chaves para tornar a cidade mais agradável, sustentável ambientalmente, e outras tantas obras. Deixa uma marca e um legado muito grandes. Somos amigos além da política”, contou Fortunati.
Descrito como uma pessoa fácil de lidar, com um humor inteligente, Villela cativava também adversários políticos. “Convivi com ele durante os processos eleitorais. Era um homem muito qualificado tecnicamente, conhecia a cidade, foi um prefeito respeitável e sabia conviver com os adversários políticos. Era de uma direita democrática, muito diferente da atual direita fascista aqui do Rio Grande do Sul. Tinha, no meio da esquerda, uma respeitabilidade. Muito diferente dessa estirpe atual”, afirmou o ex-governador e ex-prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro (PT).
Tarso concorreu como vice de Olívio Dutra (PT), vencedor das eleições da Capital em 1988, quando Villela ficou em terceiro lugar. Também venceu as eleições de 2000, quando Villela foi vice de Yeda Crusius (PSDB), que viria a ser governadora.
“Às vezes, até conversamos sobre política de forma mais aprofundada, apesar de sermos de campos ideológicos diferentes. Me perguntou certa feita como eu sabia tanto sobre socialismo e o que ele podia ler para aprender mais sobre o que pensávamos”, lembra o ex-governador.
Correligionário de Villela, o ex-governador Jair Soares se disse triste com a morte do amigo. “Ele tinha muito para dar. Aprendemos com o (ex-governador) Euclides Triches a fazer política com espírito público. Trouxe ele para o meu governo pois conhecia sua capacidade. Deixa um legado muito bonito.”
Villela transitou como poucos na Câmara da Capital
Com origem partidária na Arena, passando pelo antigo PDS e, já atualmente, no PP, Villela é lembrado pelos seus correligionários pela sua inteligência e capacidade ímpar de debater. Em 2012, retornou à vida pública como o terceiro vereador mais votado nas eleições municipais de Porto Alegre, com 13,5 mil votos.
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“Era um político e um cidadão respeitoso, que conseguia debater, divergir, e se posicionar de uma forma elegante e educada. Um exemplo para a política, principalmente nos dias de hoje, onde assistimos um universo polarizado e extremamente radical”, descreveu Mônica Leal (PP), secretária de Transparência da Capital. Além de ter crescido acompanhando a trajetória de Villela, que era amigo próximo de seu pai, o coronel Pedro Américo Leal, Mônica foi vereadora e líder da bancada do PP na Câmara quando o ex-prefeito se elegeu, em 2012.
Do tempo que passou ao seu lado no Legislativo, até o período em que o observou, ao lado de tantos outros, a construção e solidificação do Progressista, Mônica classifica a convivência ao seu lado como um grande aprendizado. Lamentando a perda que irá fazer para política gaúcha um homem com uma capacidade de debate ímpar.
Villela foi presidente do Conselho da Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do Rio Grande do Sul (Agergs) quando a agência foi criada, em 1997, até 2001. Lá, conheceu Luiz Afonso Peres, diretor legislativo da Câmara de Vereadores de Porto Alegre com longa passagem no parlamento da Capital, de quem ficou amigo.
“Era muito educado. Tinha uma visão pública sólida e um espírito público muito alargado”, conta Luiz Afonso. “Eu estava na Câmara quando ele foi prefeito. Uma coisa interessante é que tinha um ótimo diálogo com a oposição. E a oposição tinha muito respeito por ele. Os secretários dele iam falar com os vereadores. Na época, eu trabalhava com o vereador Sadi Schwerdt, que era ligado ao transporte e criou o táxi-lotação. Quem deu a dica foi o Villela. E era um vereador da oposição criando um serviço público”, conta o diretor legislativo.
Ao ingressar no Legislativo como vereador, reencontra o velho amigo. “Fizemos uma bela amizade. Quando nos reencontramos na Câmara, me dava garrafas de vinho de presente. Ele era muito estudioso, metódico. Levava um tablet com dados para a tribuna, onde fazia pronunciamentos meticulosos e estudados”, relata.
A boa fama de Villela como vereador só não é maior do que sua fama como gestor. No período em que esteve à frente da Capital, de 1975 a 1983, a prefeitura inaugurou uma série de espaços públicos, entre eles o Parque Harmonia e o Parque Marinha do Brasil. Também foi na gestão de Villela que Porto Alegre passou a ser a primeira cidade do Brasil a ter uma secretaria de Meio Ambiente, inaugurada por ele.
“Villela não era político quando chegou na prefeitura. Era um técnico. Um economista do BRDE (Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul). Mas foi pegando o jeito da política, era um cara muito sensível”, relembra Luiz Afonso.
Pouco mais de mil votos deram ao vereador Pedro Ruas (PSol) o título de parlamentar mais votado de Porto Alegre em 2012, quando Villela foi o terceiro colocado. Adversários nas urnas, tinham boa relação como colegas. “Eu era amigo do Villela, um dos meus amigos de outro campo. O falecimento dele é uma perda para a política gaúcha. Independente do campo ideológico, ele mantinha o comportamento ético na relação com os adversários. Para ele, o caráter contava mais que a ideologia. Ele disse muitas vezes que me respeitava e eu disse muitas vezes que respeitava ele”, disse Ruas.
“É difícil imaginar como seria Porto Alegre sem o Villela”, resumiu André Machado (PP), atual presidente do Departamento Municipal de Habitação (Demhab). Colegas de partido, André conta que o ex-prefeito foi uma das primeiras pessoas em que foi conversar assim que decidiu se filiar ao Progressista. Apesar de conhecê-lo há anos, visto sua atuação no jornalismo, seus laços se intensificaram nos últimos cinco anos, devido a atuação política de André Machado. E é com orgulho que conta que o ex-prefeito foi, também, seu eleitor. Em 2024, concorreu a uma vaga na Câmara da Capital, ficando na primeira suplência do PP. “Foi um prefeito transformador. Um homem gentil, educado, extremamente inteligente”, resumiu.
Parlamentar por mais de duas décadas em Porto Alegre, o ex-vereador João Carlos Nedel (PP) também presta seus elogios. “Ele era uma pessoa que usava muito a inteligência. Não falava muito, mas, quando falava, era perfeito. Entendia os detalhes e era um homem que sabia ouvir muito. Falava pouco, mas sempre com muita delicadeza e objetividade. A convivência era muito fácil”, relata.