Para o relator, a afirmação pareceu uma insinuação de que ele não estaria respeitando essa premissa. "Vossa Excelência está a sugerir que eu não fiz? Vossa Excelência diz uma coisa aqui e repete em jornais. É uma insinuação, isso aqui não é academia, estamos para analisar o caso. Vamos parar com esse jogo de intrigas", disse Barbosa. Lewandowski perguntou, ironicamente, se era para ele parar de examinar a defesa. Barbosa pediu que o colega votasse de maneira sóbria. Aí foi Lewandowski quem reclamou: "Vossa Excelência está dizendo que não é sóbrio o meu voto?", questionou. Barbosa respondeu que "não era a primeira vez" que sentia crítica do revisor.
O presidente da Casa, Carlos Ayres Britto, interferiu dizendo que o exercício do voto é livre. O decano da corte, Celso de Mello, também interveio citando a doutrina e dizendo que Lewandowski estava apenas destacando o cumprimento da garantia fundamental do contraditório. Barbosa concordou com Celso, mas reclamou de Lewandowski ter chamado a condução do processo de heterodoxo. "Vossa Excelência está tentando mostrar isso nas entrelinhas de seu voto. Desafio quem quer que seja a ler o meu voto e demonstrar que não faço uso do contraditório".
Lewandowski procurou encerrar a nova disputa dizendo ter elogiado muitas vezes a "clareza" de Barbosa em seus votos. Afirmou que é normal haver discordâncias, inclusive em relação aos votos de outros ministros. "Jamais ousaria insinuar que o voto de Vossa Excelência seja incompleto". Concluiu dizendo que o objetivo de falar do contraditório era para por um passado de "professor" e diante da presença de alunos de Direito no plenário.
Britto interveio novamente dizendo que todos estão respeitando o contraditório. Barbosa disse que os ministros todos têm "experiência suficiente" e não necessitam de "lições". Lewandowski retomou seu voto e descreveu a função de revisor como a de um médico que é consultado para dar uma "segunda opinião" em problemas de saúde.
Lewandowski absolve ex-funcionária da agência de Valério
Ao dar sequência à leitura do voto, Lewandowski absolveu Geiza Dias da acusação de lavagem de dinheiro. Ela era gerente da SMP&B. Mais cedo, ele também absolveu Ayanna Tenório, ex-vice-presidente do Banco Rural, do mesmo crime. Na segunda-feira, o ministro-relator, Joaquim Barbosa, votou pela condenação de nove dos dez réus denunciados pelo Ministério Público Federal (MPF), absolvendo apenas Ayanna Tenório. Os réus desta etapa são os integrantes do núcleo financeiro – os então dirigentes do Banco Rural Kátia Rabello, José Roberto Salgado, Ayanna Tenório e Vinícius Samarane – e os do núcleo publicitário – Marcos Valério, Ramon Hollerbach, Cristiano Paz, Rogério Tolentino, Simone Vasconcelos e Geiza Dias.
Este é o quarto item da denúncia apresentada em 2006 pelo MPF, segundo o qual o esquema entre o Banco Rural e o grupo do publicitário Marcos Valério começou ainda em 1998, durante a campanha para o governo de Minas Gerais, o que foi chamado de “mensalão mineiro”. O esquema consistia na emissão de cheques pelas empresas do publicitário Marcos Valério para pagar supostos fornecedores, quando, na verdade, os valores iam para as mãos de políticos.
Até agora, o STF analisou apenas dois dos sete capítulos da denúncia, condenando cinco réus por desvio de dinheiro público (Capítulo 3) e três por gestão fraudulenta de instituição financeira (Capítulo 5). Na sessão de segunda, o ministro Joaquim Barbosa pediu para que seja avaliada a realização de mais sessões extras de julgamento do caso.